No dia 8 de novembro de 2019, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou a carceragem da Polícia Federal em Curitiba, após 580 dias detido. A soltura foi possível graças à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que alterou o entendimento sobre a prisão após condenação em segunda instância. Imediatamente, as redes sociais se encheram de mensagens de comemoração, destacando-se a hashtag #sextou, que se tornou símbolo da libertação.

Este artigo analisa como a esquerda brasileira utilizou as plataformas digitais para celebrar o acontecimento, as reações de figuras públicas e o significado político daquele momento.

Contexto da libertação

Lula foi preso em abril de 2018, após condenação pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) no caso do tríplex do Guarujá. Durante sua prisão, o ex-presidente manteve uma base de apoio ativa, com lideranças políticas realizando vigílias e campanhas pela sua liberdade. Em 7 de novembro de 2019, o STF julgou que a execução da pena após confirmação em segunda instância era inconstitucional, resultando na soltura de milhares de presos que se enquadravam nessa situação, incluindo Lula.

A decisão foi celebrada como uma vitória judicial pela defesa de Lula e por partidos de esquerda, que argumentavam que o ex-presidente era um preso político. A mobilização nas redes começou ainda antes da soltura, com perfis ligados ao PT convocando a militância para acompanhar a saída.

A hashtag #sextou

“Sextou” é uma expressão popular brasileira usada para celebrar a chegada da sexta-feira. No contexto da libertação de Lula, a palavra ganhou um novo significado. Desde o início da tarde de 8 de novembro, a hashtag #sextou passou a liderar os trending topics do Twitter no Brasil, acumulando milhões de menções em poucas horas. O termo também invadiu o Instagram e o Facebook, com publicações que mesclavam política e humor.

Os apoiadores de Lula criaram memes, vídeos e frases de efeito associando a expressão à liberdade do ex-presidente. Muitos internautas publicaram fotos de festas improvisadas em ruas e praças, enquanto outros compartilharam mensagens de esperança e resistência. A criatividade digital foi um dos traços mais marcantes da mobilização, mostrando a capacidade de reinvenção da comunicação da esquerda.

Mobilização digital da esquerda

Partidos como o Partido dos Trabalhadores (PT) e movimentos sociais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) convocaram atos virtuais e presenciais. Em várias capitais, grupos se reuniram em frente a prédios públicos e praças para celebrar. As transmissões ao vivo no Facebook e Instagram somaram centenas de milhares de visualizações. O uso de hashtags coordenadas ampliou o alcance orgânico das mensagens.

Artistas e intelectuais também se engajaram. A cantora Daniela Mercury publicou um vídeo dançando ao som de “Lula Libre”, enquanto o escritor Leonardo Boff destacou a importância da libertação para a democracia. O ex-governador Ciro Gomes, então pré-candidato à presidência, afirmou que a soltura representava “um dia histórico para o Brasil”. A pluralidade de vozes deu densidade ao coro digital.

Reações políticas

Enquanto a esquerda comemorava, setores da direita criticaram a decisão do STF. O presidente Jair Bolsonaro, que havia sido eleito em 2018 com uma pauta anticorrupção, declarou que a soltura era “um retrocesso”. Deputados aliados do governo usaram as redes para questionar a atuação da corte, enquanto veículos conservadores repercutiram a insatisfação de parte da população com a saída de Lula.

A polarização política ficou evidente nos comentários e posts. Discussões sobre o futuro de Lula nas eleições de 2022 começaram a surgir, com pesquisas informais indicando que o ex-presidente poderia ser um candidato forte. O #sextou, portanto, não foi apenas uma celebração, mas também um termômetro do clima político do país.

Análise do impacto político

A libertação de Lula reconfigurou o cenário político brasileiro. Para a esquerda, a saída do ex-presidente da prisão representou a possibilidade de unificar um campo que estava fragmentado após a derrota eleitoral de 2018. A habilidade de mobilização digital demonstrada durante o #sextou mostrou que a esquerda mantinha capacidade de organização nas redes, mesmo diante de um ambiente hostil.

Especialistas apontaram que o uso de hashtags e memes ajudou a humanizar a figura de Lula, que durante os anos de prisão havia sido retratado de forma negativa por parte da mídia. A celebração nas redes também serviu como um recado para o governo: a base oposicionista estava ativa e disposta a lutar. Em resumo, o #sextou de Lula livre foi um marco na comunicação política digital brasileira. A combinação de humor, emoção e engajamento político transformou a libertação em um evento midiático que reforçou a presença da esquerda nas plataformas online.