Em 2020, o Brasil testemunhou um fenômeno político raro, amplamente coberto pela Folha de S.Paulo: a união de facções políticas adversárias em um movimento contra a Polícia Federal. A coalizão, composta pelo centrão, pelo PT, pelo presidente Jair Bolsonaro e por membros do Judiciário, expôs as fragilidades institucionais e as tensões entre os poderes da República.
A relação entre Jair Bolsonaro e a Polícia Federal foi marcada por crises desde os primeiros meses de seu governo. A saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça, em meio a acusações de interferência política, acirrou os ânimos. Bolsonaro passou a questionar abertamente a lealdade da cúpula da PF, exigindo relatórios de inteligência e a substituição de diretores que considerava desalinhados. Para ele, a PF havia se tornado um "ministério paralelo" comandado por adversários políticos.
O centrão, composto por partidos como PP, PL, Republicanos e Solidariedade, via na PF uma ameaça direta ao seu modus operandi. Muitos de seus líderes e aliados eram alvos de inquéritos no STF e de operações da PF. Para agremiações que historicamente se utilizam de cargos e emendas para garantir governabilidade, a autonomia da PF representava um risco constante de exposição e criminalização da política. Reduzir essa autonomia era, portanto, uma prioridade estratégica para o bloco.
Do outro lado do espectro, o Partido dos Trabalhadores (PT) também abraçou a causa. O partido, que havia sido o principal algoz da Operação Lava Jato, enxergava na Polícia Federal uma instituição parcial, que teria agido a mando de setores conservadores do Judiciário e do Ministério Público para perseguir o ex-presidente Lula e demais líderes petistas. Para o PT, o movimento contra a PF era uma chance de corrigir o que considerava um desvio democrático e de enfraquecer o sistema que levou Lula à prisão. Mesmo sendo oposição ferrenha a Bolsonaro, a pauta em comum permitiu uma aliança tática pontual.
A cobertura da Folha destacou ainda a participação de integrantes do Judiciário, especialmente ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), como Gilmar Mendes e Dias Toffoli, que já haviam feito críticas públicas a operações da PF ao longo dos anos. Eles apontavam a necessidade de se regulamentar o poder de investigação da polícia e criticavam os vazamentos seletivos de informações para a imprensa, que muitas vezes antecediam operações e comprometiam a presunção de inocência. Esta ala do Judiciário argumentava que a PF precisava de freios e contrapesos, um discurso que coincidia com os interesses do Executivo e do Legislativo, ainda que por razões distintas.
O movimento resultou em ações concretas e rápidas. O governo editou a Medida Provisória 928/2020, que alterava regras de acesso a informações e, de forma controversa, dava maior poder ao presidente para nomear o diretor-geral da PF sem a necessidade de justificativa. Embora trechos da MP tenham sido barrados pelo Congresso e pelo STF, a sinalização política foi clara e eficaz. A cúpula da PF foi trocada diversas vezes em um curto espaço de tempo, e o clima de perseguição interna se instalou, gerando apreensão entre delegados e agentes que temiam represálias por investigações consideradas sensíveis ao Planalto.
Paralelamente, o centrão passou a indicar nomes para cargos estratégicos dentro da corporação, consolidando seu domínio sobre a máquina pública. O movimento também serviu de pano de fundo para a aprovação de projetos de lei que visavam modificar o ciclo de investigação criminal, transferindo maior controle para o Congresso e o Executivo. A ofensiva contra a PF foi acompanhada de perto por organizações da sociedade civil, que alertavam para os riscos de retrocesso no combate à corrupção e para a instrumentalização política da polícia.
O movimento contra a PF não surgiu do vácuo. Ele foi gestado em meio a uma série de crises institucionais que marcaram o governo Bolsonaro, incluindo embates frequentes com o STF e o Congresso. Para analistas políticos, a união de forças tão díspares demonstrou a fragilidade das instituições brasileiras e a facilidade com que agendas políticas podem se sobrepor aos interesses republicanos. A Folha, em sua cobertura, ouviu juristas que apontaram para o risco de um desmonte silencioso da capacidade investigativa do Estado, substituindo a técnica policial por critérios políticos de conveniência. As entidades de classe da PF, por sua vez, manifestaram preocupação com a perda de autonomia e com a judicialização de atos administrativos internos, indicativo do clima de tensão na corporação.
A aliança contra a PF, nos termos descritos pela Folha de S.Paulo, foi um marco na história recente do Brasil. Ela demonstrou como interesses políticos imediatos podem sobrepor diferenças ideológicas profundas, colocando em xeque a autonomia de uma das principais instituições de investigação criminal do país. O episódio deixou lições duradouras sobre a resiliência democrática, a separação dos poderes e os riscos da politização das polícias. A capacidade de diálogo entre forças tão antagônicas, neste contexto específico, revelou a fragilidade dos pactos institucionais e a necessidade constante de vigilância sobre os mecanismos de controle do Estado.