Havia já ali a concepção das personagens que ele desenvolveria na década seguinte: a pessoa fragilizada diante de um mundo que não a aceita e que ela, por sua vez, não consegue apreender.

Em 1983 Sant’Anna publica “O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro”, reunião de contos que o colocaria dali em diante como o nosso principal praticante do gênero.

O texto que dá título ao livro resume bem as qualidades do escritor imenso: enorme apuro formal, associações inusitadas e cheias de significado, uma análise aguda e inquieta da cultura brasileira e sobretudo a percepção de que não havia o que comemorar na então celebrada redemocratização.

A colagem de fragmentos, portanto, a forma adequada para constituir um discurso que nunca se fecha e que parece sempre dobrar-se força destrutiva que faz parte desde sempre da nossa sociedade.

Nenhum se destaca sobre os outros, pois o que parece existir no caso a criação contínua de um painel: de estilhaço em estilhaço, personagens deslocadas, insones e perdidas diante da necessidade de sobreviver no mundo não apenas hostil como cínico.

Algo precisa ser dito com clareza: junto com o nosso grande ficcionista, o que parece estar partindo com a gigantesca tragédia do nosso tempo o espírito de 1968, a liberdade, a recusa a qualquer conservadorismo, a ousadia e o espírito fortemente crítico diante de qualquer poder.

triste, muito perigoso e sobretudo nos deixa extremamente mais pobres e vulneráveis burrice que nos circunda e afoga.

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Originalmente Publicado: 10 de Maio de 2020 às 17:49

Fonte: Uol.com.br