(Astratu / BBC News Brasil) — Em uma declaração surpreendente no dia 18 de maio de 2020, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, revelou que estava tomando hidroxicloroquina como medida preventiva contra o novo coronavírus. A afirmação foi feita durante um encontro com legisladores na Casa Branca e rapidamente se espalhou pelo mundo, gerando intenso debate e preocupação entre a classe médica, já que a eficácia e a segurança da droga para o tratamento da COVID-19 estavam longe de ser comprovadas e contrariavam as orientações oficiais de seu próprio governo.

O anúncio e a justificativa do presidente

Trump afirmou à imprensa que estava tomando o medicamento há cerca de uma semana e meia, além de um suplemento de zinco. "Estou tomando há muito tempo, uma semana e meia. Ainda estou aqui", disse o presidente. Ele revelou não ter sido exposto diretamente ao vírus, mas mencionou ter testado positivo para anticorpos da doença. A justificativa veio num momento em que a Casa Branca adotava medidas rigorosas de prevenção, incluindo testagem frequente de funcionários e assessores. A declaração chocou especialistas em saúde pública, que há semanas alertavam sobre os potenciais riscos fatais do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina fora do ambiente hospitalar.

O contexto científico da hidroxicloroquina

A hidroxicloroquina, um medicamento utilizado tradicionalmente contra a malária e doenças autoimunes como lúpus, havia se tornado um tema altamente politizado desde o início da pandemia. Trump a promoveu repetidamente como um "divisor de águas" no combate ao vírus, baseando-se em estudos franceses preliminares e de baixa qualidade que sugeriam benefícios. No entanto, as evidências científicas mais robustas não apoiavam essa visão. Grandes ensaios clínicos randomizados, como o RECOVERY Trial, no Reino Unido, e o Solidarity Trial, da Organização Mundial da Saúde (OMS), posteriormente indicaram que a droga não oferecia benefícios significativos na prevenção ou tratamento da COVID-19. Pelo contrário, estava associada a um risco aumentado de arritmias cardíacas graves, especialmente quando combinada com outros medicamentos como a azitromicina.

O conflito com as agências de saúde dos EUA

A posição do presidente entrava em choque direto com a recomendação de seus próprios especialistas. A FDA (Food and Drug Administration) havia emitido um alerta sobre os perigos do uso da cloroquina e hidroxicloroquina para pacientes com COVID-19 fora de hospitais ou ensaios clínicos controlados. O Dr. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) e principal conselheiro médico do governo, foi categórico ao afirmar em entrevistas que as evidências científicas mostravam que a droga não era eficaz. O NIH (National Institutes of Health) também publicou diretrizes recomendando explicitamente contra o uso da hidroxicloroquina para o tratamento da COVID-19, exceto em estudos clínicos. A situação expôs uma profunda contradição no governo americano.

Repercussão global e no Brasil

A notícia teve grande repercussão no Brasil. O presidente Jair Bolsonaro, que também era um defensor ferrenho do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, frequentemente citava Trump como referência para sua defesa do medicamento. A promoção do fármaco criou um conflito direto com o Ministério da Saúde e entidades médicas brasileiras, como o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), que orientavam contra o uso indiscriminado e alertavam para a falta de evidências. Globalmente, a OMS anunciou a suspensão temporária dos testes com a hidroxicloroquina em seus estudos clínicos devido a preocupações de segurança, intensificando ainda mais a controvérsia mundial sobre a droga.

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. Por que Donald Trump tomou hidroxicloroquina?
Trump afirmou que tomou a medicação como medida preventiva contra a COVID-19, após consultar o médico da Casa Branca. Ele se baseou em estudos preliminares e em sua própria intuição política, apesar da forte oposição da comunidade científica e da falta de consenso sobre a eficácia do medicamento.

2. Qual foi a reação da comunidade médica?
A reação foi majoritariamente de crítica e preocupação. Médicos e cientistas temiam que a declaração presidencial incentivasse a automedicação em massa, causando desabastecimento do medicamento para pacientes que realmente necessitam dele (como os portadores de lúpus e artrite reumatoide) e expondo pessoas a riscos cardíacos desnecessários.

3. A hidroxicloroquina funciona contra a COVID-19?
Não. Múltiplos estudos clínicos randomizados e controlados conduzidos pela OMS, NIH e universidades ao redor do mundo concluíram, de forma consistente, que a hidroxicloroquina não é eficaz na prevenção, redução de hospitalizações ou mortalidade por COVID-19.

4. Quais foram as consequências dessa controvérsia?
A controvérsia aprofundou a politização das medidas de saúde pública durante a pandemia, contribuiu para a disseminação de desinformação sobre "tratamentos milagrosos" e expôs uma profunda divisão entre lideranças políticas e autoridades sanitárias, tanto nos Estados Unidos quanto em outros países, como o Brasil.