O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que esteve à frente da pasta durante os primeiros meses da pandemia de coronavírus no Brasil, voltou a alertar sobre os riscos do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina em pacientes idosos com COVID-19. Em declaração nesta quarta-feira (20) a veículos de imprensa, Mandetta afirmou que o medicamento pode provocar arritmias cardíacas e "piorar a situação" dos infectados, especialmente entre a população acima de 60 anos. Ele destacou que estudos preliminares indicam que a substância pode representar um perigo significativo nesse grupo etário e que não há evidências robustas de benefício clínico.
Mandetta foi exonerado do cargo em 16 de abril de 2020, após divergências com o presidente Jair Bolsonaro sobre as estratégias de enfrentamento da pandemia, incluindo o uso de medicamentos como a cloroquina. Em sua gestão, o Ministério da Saúde chegou a publicar uma nota técnica recomendando que a cloroquina fosse administrada apenas em ambiente hospitalar, com prescrição médica e consentimento do paciente, devido à possibilidade de efeitos colaterais graves. O ex-ministro sempre se posicionou contra a pressão pelo uso precoce do fármaco, defendendo que as decisões clínicas devem ser baseadas em ciência.
O alerta de Mandetta ganha relevância em um contexto de intenso debate político e social sobre o tratamento da COVID-19. O presidente Bolsonaro vinha defendendo o uso da cloroquina como opção terapêutica, mesmo sem comprovação científica, gerando pressão sobre o Ministério da Saúde. Entretanto, estudos observacionais e ensaios clínicos randomizados, como o publicado pela revista The Lancet no final de abril de 2020, sugeriram aumento da taxa de mortalidade entre pacientes tratados com hidroxicloroquina, especialmente quando combinada com azitromicina, devido a complicações cardíacas.
Cardiologistas de diversas instituições brasileiras manifestaram concordância com as declarações de Mandetta. O médico cardiologista Roberto Kalil, do Hospital Sírio-Libanês, explicou que a cloroquina prolonga o intervalo QT no eletrocardiograma, desregulando a condução elétrica do coração. "Nas pessoas idosas, que frequentemente já apresentam alterações cardíacas, o risco de arritmia ventricular é ainda maior e pode levar a parada cardíaca", afirmou Kalil. Ele lembrou que o benefício do medicamento para COVID-19 nunca foi demonstrado de forma consistente.
A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) emitiram notas técnicas manifestando preocupação com o uso indiscriminado da cloroquina. A SBC destacou que não há evidências suficientes para recomendar seu uso na COVID-19, e que os riscos de eventos adversos, especialmente cardíacos, superam os potenciais benefícios. O CFM, por sua vez, reforçou a necessidade de prescrição médica individualizada e consentimento informado do paciente.
Mandetta pediu que a população não recorra à automedicação e que procure orientação médica ao apresentar sintomas de COVID-19. "Não podemos tratar uma pandemia com experimentos perigosos. A vida de milhares de brasileiros está em jogo", declarou. Ele também ressaltou que os profissionais de saúde devem estar atentos aos sinais de arritmia em pacientes tratados com cloroquina e monitorar o eletrocardiograma regularmente.
Principais pontos do alerta de Mandetta
- Uso de cloroquina em idosos pode provocar arritmia cardíaca grave.
- Medicamento não deve ser administrado sem supervisão médica e monitoramento cardíaco.
- Evidências científicas atuais indicam risco de aumento da mortalidade.
- Especialistas em cardiologia e sociedades médicas endossam a posição cautelosa.
- Automedicação é perigosa e pode agravar o quadro clínico.
Perguntas frequentes
- Por que a cloroquina é perigosa para o coração?
- A cloroquina pode prolongar o intervalo QT no eletrocardiograma, aumentando o risco de arritmia ventricular, que pode ser fatal.
- Idosos correm mais risco?
- Sim, porque muitos idosos já possuem alterações cardíacas preexistentes e o uso do medicamento pode potencializar esses distúrbios.
- Mandetta ainda possui influência sobre as políticas de saúde?
- Desde sua exoneração, ele atua como médico e consultor, mas continua sendo uma figura respeitada no meio médico, com frequentes manifestações públicas sobre a pandemia.
- Qual a posição oficial do Ministério da Saúde atualmente?
- Na ocasião, o ministério adotava uma postura cautelosa. Após a saída de Mandetta, houve maior pressão para o uso da cloroquina, mas as entidades médicas mantiveram suas ressalvas.
Em meio a um cenário de incertezas científicas e polarização política, o alerta de Mandetta representa a voz de parcela significativa da comunidade médica que defende a prudência. O uso da cloroquina permanece controverso, mas para o ex-ministro não há dúvidas: a segurança do paciente deve estar sempre em primeiro lugar. Acompanhamento médico criterioso e respeito às evidências são fundamentais para evitar tragédias evitáveis.