O Ministério da Saúde divulgou um novo protocolo que amplia as possibilidades de prescrição de cloroquina e hidroxicloroquina para pacientes com sintomas leves de Covid-19. A medida, tomada em meio a forte pressão política, já gera reações na classe médica, que prevê um aumento significativo na procura pelo medicamento em todo o Brasil.

Novo protocolo do governo

O documento publicado pelo governo federal orienta que médicos da rede pública e privada podem receitar os medicamentos já no início dos sintomas da doença, mesmo sem a confirmação do diagnóstico por teste. A decisão contrasta com a recomendação de entidades científicas internacionais e nacionais, que alertam para a falta de evidências robustas de eficácia.

A demissão do ministro Nelson Teich, ocorrida dias antes da divulgação do protocolo, é apontada como um dos fatores que aceleraram a mudança. O presidente Jair Bolsonaro sempre defendeu publicamente o uso do medicamento, e a pressão por um "tratamento precoce" foi constante desde o início da pandemia.

Reação dos médicos

A classe médica se divide diante do novo protocolo. Enquanto alguns profissionais, alinhados ao discurso oficial, defendem a autonomia do médico para prescrever o tratamento que julgar adequado, a maioria das entidades científicas recomenda cautela. Infectologistas e epidemiologistas alertam que a medida pode gerar uma falsa sensação de segurança e desviar o foco das medidas comprovadamente eficazes, como o distanciamento social e o uso de máscaras.

Entidades como o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) já se manifestaram contra o uso generalizado do medicamento. Em nota, o CFM reforçou que a decisão sobre a prescrição deve ser baseada na melhor evidência científica disponível e no livre consentimento do paciente, após esclarecimento sobre os riscos.

Demanda nas farmácias

O aumento da procura já começa a ser sentido em algumas regiões do país. Farmacêuticos relatam um crescimento nas vendas de cloroquina e hidroxicloroquina desde o anúncio da mudança no protocolo. Farmácias de manipulação em todo o Brasil reportaram um aumento significativo na produção de cápsulas, algumas chegando a limitar a venda para evitar o desabastecimento total.

A situação acende um alerta para pacientes que dependem do medicamento para tratar doenças autoimunes crônicas, como lúpus e artrite reumatoide. Para essas pessoas, a falta do remédio representa um risco grave à saúde e um retrocesso no tratamento. Associações de pacientes já se mobilizam para garantir o acesso ao medicamento.

Evidências científicas

Diversos estudos publicados em revistas científicas de renome não encontraram benefícios significativos no uso da cloroquina contra a Covid-19. Uma pesquisa do Datafolha da época mostrava que a maioria da população brasileira acreditava na eficácia do medicamento, influenciada por declarações constantes de autoridades.

O FDA (órgão regulador dos EUA) e a Anvisa alertaram para os riscos cardíacos associados ao uso da cloroquina, especialmente em pacientes com Covid-19. O estudo Solidarity, conduzido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em diversos países, concluiu que a hidroxicloroquina não reduz a mortalidade entre pacientes hospitalizados, levando à suspensão dos testes globais com o medicamento.

Perguntas frequentes

O que diz o novo protocolo do governo?
O documento amplia o uso de cloroquina e hidroxicloroquina para pacientes com sintomas leves de Covid-19, sob prescrição médica, mesmo sem confirmação diagnóstica.

Quais os riscos do uso da cloroquina?
Os principais riscos são efeitos colaterais cardíacos (arritmias), além da falta de eficácia comprovada contra o novo coronavírus.

Por que os médicos preveem aumento na demanda?
Pacientes passaram a pressionar médicos pela receita do medicamento, baseando-se no novo protocolo oficial como respaldo para o tratamento.

Qual a posição das entidades médicas?
O CFM e a SBI recomendam cautela e reforçam que a decisão deve ser baseada em evidências científicas e no diálogo com o paciente sobre os riscos.

Resumo dos pontos principais

  • Novo protocolo do Ministério da Saúde amplia o uso de cloroquina para pacientes leves de Covid-19.
  • Médicos preveem aumento expressivo na procura pelo medicamento em farmácias.
  • Entidades médicas alertam para a ausência de evidências científicas robustas e para os riscos à saúde.
  • Demanda pode causar desabastecimento, prejudicando pacientes com doenças autoimunes.
  • A OMS e agências reguladoras não recomendam o uso da cloroquina para tratar a Covid-19.