Abril de 2020 entrou para a história como o primeiro mês completo de isolamento social no Brasil durante a pandemia de Covid-19. Os efeitos na economia foram imediatos e profundos. De acordo com dados divulgados pelo portal Contábeis, com base no sistema da Receita Federal, a abertura de novas empresas no país registrou uma queda expressiva de 29,5% em comparação com o mesmo mês de 2019. Este número reflete não apenas a paralisação do comércio, mas também a incerteza generalizada que tomou conta dos empreendedores, que preferiram adiar seus planos de negócios diante de um cenário econômico extremamente adverso.
A pandemia, declarada pela OMS em março de 2020, levou governos estaduais e municipais a adotarem medidas rigorosas de distanciamento social. O fechamento do comércio considerado não essencial, a restrição à circulação de pessoas e o colapso iminente do sistema de saúde geraram um ambiente de total imprevisibilidade. Para quem planejava abrir uma empresa, as perguntas eram muitas: Haverá demanda? Como pagar os custos fixos? O crédito estará disponível? Essa paralisia foi o principal combustível para a queda de 29,5%.
O Impacto nos Microempreendedores Individuais (MEI)
Uma das categorias mais sensíveis ao ciclo econômico é o Microempreendedor Individual (MEI), que funciona como porta de entrada para a formalização de milhões de brasileiros. Em abril de 2020, o número de novos cadastros de MEI despencou. Muitos trabalhadores que dependem do contato direto com o público, como ambulantes, cabeleireiros e pequenos prestadores de serviço, tiveram suas atividades paralisadas quase que totalmente. A impossibilidade de gerar renda imediata, somada ao receio de não conseguir arcar com o DAS mensal, fez com que a formalização neste segmento sofresse um baque significativo, contribuindo fortemente para a queda geral de 29,5%.
Análise Setorial e Regional da Queda
A queda de 29,5% não ocorreu de forma uniforme entre os setores da economia. O comércio varejista presencial, especialmente de roupas, calçados e artigos de luxo, foi um dos mais afetados. O setor de serviços, que engloba bares, restaurantes, academias e salões de beleza, também amargou uma retração histórica na criação de novos negócios. Por outro lado, alguns segmentos conseguiram não apenas resistir, mas crescer. Foram os casos da tecnologia da informação, serviços de entrega (delivery), comércio eletrônico, logística e áreas ligadas à saúde e limpeza. Regionalmente, estados como São Paulo e Rio de Janeiro, que adotaram lockdowns mais rígidos, concentraram as maiores quedas percentuais.
Comparação Histórica e Contexto Internacional
A retração de 29,5% registrada em abril de 2020 foi a maior da série histórica recente, superando com folga as quedas observadas durante a crise econômica de 2015-2016, quando a redução na abertura de empresas girava em torno de 5% a 10% ao ano. O tombo de abril, portanto, evidencia a singularidade e a gravidade do choque econômico provocado pela pandemia. No cenário internacional, o Brasil não foi exceção. Países como Estados Unidos, Espanha e México também reportaram quedas abruptas na criação de novos negócios nos meses de março e abril de 2020, seguidas por uma recuperação gradual ao longo do segundo semestre.
O Papel da Digitalização e das Políticas de Emergência
Apesar do cenário adverso, a queda poderia ter sido ainda maior não fossem dois fatores atenuantes. O primeiro foi o avanço da digitalização dos processos de abertura de empresas. A Lei da Liberdade Econômica (Lei 13.874/2019) e a modernização das Juntas Comerciais permitiram que praticamente todo o processo de registro de uma nova empresa fosse feito online, sem necessidade de deslocamento físico. O segundo fator foram as medidas de emergência adotadas pelo governo federal, como a liberação de linhas de crédito facilitado (Pronampe, lançado em maio) e a prorrogação do pagamento de tributos. Essas ações ajudaram a criar um colchão de segurança para que os empreendedores retomassem seus planos a partir de maio e junho, embora o estrago em abril já estivesse consolidado.
Perspectivas de Retomada para o Empreendedorismo
A expectativa para os meses seguintes a abril era de uma recuperação lenta, mas consistente. Com a flexibilização gradual do isolamento e a efetivação das primeiras linhas de crédito, o número de aberturas de empresas começou a subir novamente. O segundo semestre de 2020 trouxe uma retomada em "V" para diversos setores, especialmente os ligados à tecnologia, saúde e construção civil. No entanto, o patamar pré-pandemia levou mais tempo para ser recuperado. A lição que ficou para o empreendedorismo brasileiro foi a importância da resiliência, da adaptação digital e da gestão financeira robusta para enfrentar crises severas.
Perguntas Frequentes sobre a Queda na Abertura de Empresas
1. Qual foi a principal causa da queda de 29,5% na abertura de empresas?
A principal causa foi a paralisação econômica decorrente das medidas de isolamento social para conter a pandemia de Covid-19. Esse cenário gerou enorme incerteza, redução drástica da demanda e dificuldade de acesso ao crédito, levando os empreendedores a adiarem seus planos.
2. Essa queda foi maior em algum porte de empresa específico?
Sim. O segmento de Microempreendedores Individuais (MEI) foi um dos mais afetados, pois depende fortemente da circulação de pessoas e do comércio presencial, setores que ficaram praticamente paralisados durante a quarentena.
3. Quais setores conseguiram escapar da crise e abrir mais empresas?
Setores como tecnologia da informação, desenvolvimento de software, comércio eletrônico, logística, saúde e serviços de entrega (delivery) conseguiram manter ou até aumentar o número de novas empresas, impulsionados pela aceleração digital forçada pela pandemia.
4. Como a digitalização dos processos ajudou nesse contexto?
A digitalização, impulsionada pela Lei da Liberdade Econômica, permitiu que os registros de novas empresas fossem feitos integralmente online. Isso evitou uma paralisação total dos processos nas Juntas Comerciais durante a quarentena e facilitou a vida de quem decidiu empreender mesmo na crise.
5. Quando a abertura de empresas voltou aos níveis normais?
Os dados começaram a mostrar recuperação a partir de junho de 2020, com uma retomada gradual ao longo do segundo semestre. A recuperação total aos níveis pré-pandemia, no entanto, ocorreu de forma heterogênea entre os diferentes setores da economia.
6. O que o empreendedor pode aprender com a crise de 2020?
A crise de 2020 reforçou a importância de ter um plano de negócios flexível, uma reserva financeira de emergência e a capacidade de migrar rapidamente para canais digitais (loja virtual, delivery, home office) para garantir a sobrevivência do negócio em momentos de adversidade.
Fonte: Contábeis