Pesquisadores, professores e pessoas dedicadas divulgação científica que conversaram com a BBC News Brasil apontaram que a atual pandemia está explicitando desafios para a compreensão do público do que a ciência e o seu “Tempo” e, também, para que os especialistas se comuniquem bem para além de seus muros.

“Claro que em uma situação como essa, adaptar, mudar recomendações, absolutamente esperado. O inesperado seria o contrário. Se você pegar o que se dizia em janeiro e o que se diz agora, quem não mudou ou adaptou foi só teoria da conspiração - eles continuam pensando exatamente igual. Mas quem se baseia em ciência viu em seis meses de pandemia coisas absolutamente inovadoras.”

“Do que sabíamos até o começo do ano, não havia muitas evidências sobre o uso de máscaras - no caso da influenza, as evidências existentes falavam que ela praticamente não tinha muita importância. Agora, já temos evidências de que em determinadas circunstâncias, principalmente em ambientes com aglomeração quase natural, como transporte público e lojas, o uso de máscara pode ter um papel. Então, várias coisas surgiram neste período”, lembra Barbosa, que já foi presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária entre 2015 e 2018.

“Mas mesmo hoje, quando a gente faz revisão sobre as máscaras, não encontra evidências fortes para recomendar o uso. Continuamos com a preocupação de que as pessoas achem que só com aquilo estão protegidas. O mau uso de máscara - a pessoa que toca muito, que faz o uso da mesma máscara uma semana seguida - pode ser até um fator agravante. Nas últimas recomendações, a OMS sugere que os países que estão adotando façam estudos para que possamos construir evidências mais robustas.”

“Resultados parciais comprovaram o que vários outros outros estudos consistentes já tinham mostrado: em pacientes hospitalizados, a hidroxicloroquina não traz nenhum benefício e tem um risco, ainda que raro, de produzir arritmia cardíaca. Em um estudo, você não pode piorar - medicamente, inaceitável. Este comitê diretivo tem o papel de revisar tudo o que informação, como em relação segurança. Então, não que a OMS ‘mudou de opinião’ - ela agiu como deveria agir”, afirma o diretor-assistente da Opas.

“Também importante que a mídia faça um trabalho de divulgação científica de longo prazo - e não apenas na hora da pandemia. importante passar para o público o gosto pela ciência, mostrar que ela tem uma história longa - em vez da afirmação de certezas absolutas, o que passa uma imagem às vezes arrogante.”

“São eventos que acontecem de forma concomitante e dão a impressão de causa e efeito, principalmente se uma coisa acontece antes da outra - como observar que o galo canta logo antes do nascer do sol e deduzir que o sol só nasce porque o galo cantou”, brinca Natalia Pasternak, dando o exemplo de uma correlação que poderia equivocadamente ser tomada como uma relação de causalidade.

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Originalmente Publicado: 1 de Agosto de 2020 às 15:36

Fonte: Globo