A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por meio de seu Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), anunciou no início de agosto de 2020 que a produção da vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica AstraZeneca teria início já no mês de dezembro daquele ano. A declaração representou um passo concreto e de grande importância para o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19, gerido pelo Ministério da Saúde.

Parceria e Transferência de Tecnologia
O acordo firmado entre a Fiocruz e a AstraZeneca foi estruturado sob o modelo de Encomenda Tecnológica (ETEC), um instrumento que permite a transferência de conhecimento e de processos produtivos complexos entre instituições. Pelo contrato, a Fiocruz receberia não apenas o Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) da vacina, mas todo o pacote tecnológico necessário para replicar a produção em larga escala no Brasil, incluindo know-how, metodologias de controle de qualidade e assistência técnica da farmacêutica anglo-sueca. O investimento total para a aquisição do insumo e para a modernização da planta fabril de Bio-Manguinhos foi da ordem de R$ 1,9 bilhão, financiado pelo Ministério da Saúde.

Tecnologia da Vacina ChAdOx1 nCoV-19
A candidata a vacina, tecnicamente denominada ChAdOx1 nCoV-19 (mais tarde conhecida como Vaxzevria/Covishield), utiliza um vetor viral não replicante. Os cientistas inseriram o gene da proteína Spike (proteína "S") do SARS-CoV-2 em um adenovírus de chimpanzé modificado (ChAdOx1). Ao ser injetada, a vacina instrui as células do corpo a produzirem essa proteína viral específica, desencadeando uma resposta imunológica robusta — incluindo a produção de anticorpos neutralizantes e a ativação de células T de defesa — sem expor o indivíduo ao vírus completo causador da doença. Essa tecnologia já era conhecida da comunidade científica por ter sido testada em vacinas contra outras doenças, como a MERS.

Cronograma de Produção e Metas
O processo produtivo foi dividido em etapas bem definidas. A primeira fase, a mais crítica, era a fabricação do IFA nos laboratórios da AstraZeneca em outros países. Esse IFA seria então importado pelo Brasil e submetido ao processo de formulação, envase e acabamento final nas instalações de Bio-Manguinhos, no Rio de Janeiro. A Fiocruz estimava que, em dezembro de 2020, as primeiras doses já começariam a sair da linha de produção. A meta imediata era entregar 15 milhões de doses até janeiro de 2021 e, ao longo do primeiro semestre, atingir a marca de 100 milhões de doses, garantindo a imunização dos grupos prioritários estabelecidos pelo PNI.

Vantagens Logísticas e Armazenamento
Uma das grandes vantagens da vacina de Oxford/AstraZeneca era sua exigência de armazenamento e logística. Diferente de outras vacinas de RNA mensageiro (como as da Pfizer/BioNTech e Moderna), que exigiam temperaturas ultrabaixas de conservação (cerca de -70°C), a vacina da Fiocruz podia ser conservada em temperaturas comuns de geladeira (entre 2°C e 8°C) por até seis meses. Isso facilitava enormemente a distribuição para todos os municípios brasileiros, mesmo os mais remotos, através da rede de frio já existente e consolidada do Sistema Único de Saúde (SUS).

Ensaios Clínicos no Brasil e Eficácia
Paralelamente à preparação industrial, a vacina de Oxford passava por ensaios clínicos de fase 3 no Brasil. Conduzidos pela própria Fiocruz em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os testes envolveram milhares de voluntários brasileiros, incluindo profissionais de saúde da linha de frente da pandemia. Os resultados brasileiros, combinados com os estudos realizados no Reino Unido e na África do Sul, demonstraram uma eficácia geral de cerca de 70% para prevenção da Covid-19 sintomática e de 100% para prevenção de casos graves e hospitalizações. Com base nesses dados, a vacina recebeu autorização de uso emergencial e posterior registro definitivo pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Perguntas Frequentes (FAQ)

Quando exatamente a Fiocruz começou a produzir a vacina?
A produção das primeiras doses teve início em dezembro de 2020, conforme o cronograma anunciado em agosto. As primeiras entregas oficiais ao Ministério da Saúde ocorreram em janeiro de 2021.

Quantas doses a Fiocruz produziu ao todo?
Somente em 2021, a Fiocruz entregou mais de 140 milhões de doses da vacina contra a Covid-19 ao PNI, superando as metas iniciais do contrato.

A vacina era segura?
Sim. A vacina passou por rigorosos testes clínicos em diversos países e teve sua segurança e eficácia comprovadas, sendo amplamente aplicada no Brasil e em dezenas de outros países.

Qual a diferença para a vacina CoronaVac?
A principal diferença estava na plataforma tecnológica. A vacina da Fiocruz (Oxford/AstraZeneca) usava um vetor viral não replicante, enquanto a CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan, era uma vacina de vírus inativado. Ambas demonstraram eficácia na prevenção de casos graves e óbitos.