Em 1º de agosto de 2020, cerca de 38 mil pessoas reuniram-se em Berlim para protestar contra as medidas de isolamento social adotadas pelo governo alemão durante a pandemia de COVID-19. O protesto, organizado pelo movimento Querdenken 711, atraiu uma multidão diversificada que incluía desde neonazistas e membros do Reichsbürger até teóricos da conspiração e ativistas antivacinas. O momento de maior tensão ocorreu quando um grupo de manifestantes tentou invadir o Reichstag, sede do Parlamento alemão, gerando comoção em todo o país.
O protesto em Berlim
A manifestação teve início na Alexanderplatz e seguiu em direção ao Portão de Brandemburgo, um dos símbolos mais emblemáticos da capital alemã. Os organizadores do Querdenken 711, movimento surgido em Stuttgart, afirmavam representar "cidadãos preocupados" com o rumo das políticas de saúde pública. No entanto, a presença maciça de grupos extremistas de direita e negacionistas científicos rapidamente ofuscou qualquer discurso moderado.
Cartazes com mensagens comparando as medidas de lockdown a regimes totalitários, referências a teorias conspiratórias sobre microchips em vacinas e símbolos do antigo Império Alemão eram vistos por toda a multidão. A polícia de Berlim estimou que cerca de 38 mil pessoas participaram do ato, superando amplamente as expectativas iniciais dos organizadores. A concentração ocorreu em meio a um calor intenso, e poucos manifestantes usavam máscaras de proteção, desrespeitando as normas sanitárias vigentes.
A tentativa de invasão ao Reichstag
O ponto crítico do protesto foi quando aproximadamente 300 manifestantes romperam as grades de segurança que cercavam o Reichstag e avançaram pelas escadarias do edifício histórico. Construído no final do século XIX e palco de momentos decisivos da história alemã — incluindo o incêndio de 1933 que deu pretexto para a ascensão de Hitler ao poder —, o Reichstag representa a democracia parlamentar alemã.
As imagens dos invasores sendo contidos pela polícia com sprays de pimenta e cassetetes correram o mundo. A tentativa de invasão foi comparada por historiadores e políticos aos eventos que marcaram o fim da República de Weimar. O incidente provocou forte reação das principais lideranças políticas do país, que viram no episódio um alerta sobre o avanço do extremismo de direita na Alemanha contemporânea.
A composição heterogênea do movimento
Um dos aspectos mais peculiares dos protestos contra o lockdown na Alemanha foi a aliança entre grupos tradicionalmente antagônicos. De um lado, neonazistas e membros do Reichsbürger — movimento que não reconhece a legitimidade da República Federal Alemã e defende o retorno do Império Alemão. Do outro lado, cidadãos comuns sem filiação política, insatisfeitos com as restrições impostas pelo governo.
Entre eles, encontraram espaço também os teóricos da conspiração ligados ao QAnon, que difundiam narrativas sobre um suposto complô global envolvendo bilionários e líderes mundiais. Completando o cenário, ativistas antivacinas aproveitaram o palco para espalhar desinformação sobre vacinas que ainda estavam em desenvolvimento na época. A diversidade de grupos tornou o movimento difícil de classificar, mas evidenciou a capacidade de mobilização de pautas anticientíficas e antissistema em um dos países mais estáveis da Europa.
A resposta das autoridades alemãs
O governo alemão reagiu com firmeza aos eventos. A chanceler Angela Merkel classificou a tentativa de invasão ao Reichstag como "inaceitável" e determinou que as forças de segurança investigassem a participação de grupos extremistas. O ministro do Interior, Horst Seehofer, anunciou medidas mais rigorosas para evitar que extremistas se infiltrassem em protestos legítimos.
A polícia de Berlim enfrentou críticas por não ter conseguido impedir que os manifestantes chegassem tão perto do Parlamento. Nos meses seguintes, as autoridades intensificaram o monitoramento de grupos extremistas e endureceram a resposta a atos de violência em manifestações. O episódio também gerou debates sobre os limites da liberdade de expressão e de reunião durante emergências de saúde pública.
O contexto da pandemia na Alemanha
Em agosto de 2020, a Alemanha era amplamente considerada um caso de sucesso no combate à COVID-19, com uma taxa de infecção e mortalidade significativamente menores do que as de países como Itália, Espanha, França e Reino Unido. O país implementou um robusto sistema de testagem, rastreamento de contatos e distanciamento social que ajudou a conter a propagação do vírus.
No entanto, as medidas de restrição — fechamento de escolas e comércios, uso obrigatório de máscaras e proibição de eventos públicos — geravam descontentamento entre setores da população. O governo Merkel enfrentava o desafio de manter o controle da pandemia sem alimentar ainda mais o descontentamento social que alimentava os protestos. O debate sobre o equilíbrio entre saúde pública e liberdades individuais se intensificaria nos meses seguintes, especialmente com o avanço das campanhas de vacinação e o surgimento de novas variantes do coronavírus.
FAQ — Perguntas frequentes
1. O que foi o movimento Querdenken 711?
Foi um movimento alemão que organizou protestos contra as medidas de lockdown durante a pandemia de COVID-19. O nome faz referência ao código de área de Stuttgart (0711), cidade onde o grupo foi fundado. O movimento ganhou projeção nacional a partir de 2020 e passou a atrair uma base diversificada de apoiadores.
2. Quantas pessoas participaram dos protestos em Berlim em agosto de 2020?
Cerca de 38 mil pessoas, segundo estimativas oficiais da polícia de Berlim. Os organizadores chegaram a divulgar números maiores, não confirmados.
3. Os manifestantes conseguiram invadir o Reichstag?
Não. Embora um grupo tenha rompido as barreiras de segurança e subido as escadarias do prédio, a polícia impediu a entrada no edifício e deteve diversos participantes. Nenhum manifestante conseguiu acessar o interior do Parlamento.
4. Quais grupos participaram do protesto?
Neonazistas, membros do Reichsbürger (Cidadãos do Reich), teóricos da conspiração ligados ao QAnon, ativistas antivacinas e cidadãos comuns contrários ao lockdown. A heterogeneidade do movimento foi um dos aspectos mais comentados do episódio.
5. Como a Alemanha lidou com a pandemia em 2020?
A Alemanha implementou medidas de distanciamento social, testagem em massa e rastreamento de contatos, o que resultou em taxas de mortalidade relativamente baixas em comparação com outros países europeus. O país foi amplamente elogiado por sua resposta à pandemia durante os primeiros meses da crise.
6. Qual foi o impacto desses protestos na Alemanha?
Os protestos expuseram o crescimento de movimentos antissistema e extremistas no país, influenciaram o debate público sobre o equilíbrio entre medidas sanitárias e liberdades civis, e acenderam um alerta sobre a radicalização política. O incidente do Reichstag, em particular, tornou-se um símbolo dos desafios enfrentados pelas democracias liberais durante a pandemia.