Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) publicaram um estudo que sugere que o SARS-CoV-2, vírus causador da COVID-19, é capaz de infectar e destruir linfócitos — células fundamentais para a defesa do organismo. A descoberta pode ajudar a explicar por que alguns pacientes desenvolvem formas graves da doença, com comprometimento significativo do sistema imunológico.

Publicado em setembro de 2020, o trabalho foi conduzido por cientistas do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, em colaboração com pesquisadores de outras instituições. Os resultados indicam que o coronavírus não se limita a infectar células respiratórias, mas também ataca diretamente células de defesa, o que pode levar a uma queda acentuada na contagem de linfócitos — fenômeno conhecido como linfopenia, observado em muitos pacientes hospitalizados com COVID-19.

O que diz o estudo da USP

A equipe de pesquisadores analisou amostras de sangue de pacientes infectados pelo SARS-CoV-2 e observou que o vírus é capaz de entrar nos linfócitos T e nas células NK (Natural Killers), dois tipos importantes de glóbulos brancos. Uma vez dentro dessas células, o vírus desencadeia um processo de morte celular programada (apoptose), reduzindo a capacidade do organismo de montar uma resposta imune eficaz contra a infecção.

Os experimentos realizados em laboratório confirmaram que a presença do vírus nos linfócitos resulta em alterações na membrana celular e na ativação de caspases — enzimas envolvidas no processo de apoptose. Os cientistas também observaram que a carga viral nas células de defesa estava associada à gravidade dos sintomas apresentados pelos pacientes.

Segundo os autores, o estudo representa um avanço na compreensão dos mecanismos pelos quais o SARS-CoV-2 compromete o sistema imunológico, abrindo caminho para possíveis alvos terapêuticos que possam bloquear a entrada do vírus nos linfócitos ou evitar sua destruição.

Como o SARS-CoV-2 afeta os linfócitos

Os linfócitos são células essenciais para a imunidade adaptativa, responsáveis por reconhecer e eliminar agentes infecciosos. Quando o SARS-CoV-2 infecta essas células, ocorre uma disfunção que pode ser observada em exames de sangue periódicos realizados em pacientes com COVID-19. A linfopenia — redução drástica no número de linfócitos — tem sido associada a piores prognósticos e maior necessidade de internação em unidades de terapia intensiva.

O mecanismo identificado pela USP envolve a interação da proteína S (spike) do coronavírus com receptores presentes na superfície dos linfócitos. Embora esses receptores sejam diferentes da ACE2 — principal porta de entrada do vírus em células respiratórias —, eles permitem que o patógeno invada as células de defesa. Uma vez no interior, o vírus se replica e desencadeia sinais de estresse celular que resultam em apoptose.

A pesquisa também mostrou que a resposta inflamatória exacerbada observada em casos graves de COVID-19 pode ser agravada pela destruição dos linfócitos, uma vez que o sistema imunológico perde sua capacidade de regular a inflamação e combater o vírus de forma eficiente.

Implicações para o tratamento da COVID-19

Os achados do estudo da USP têm implicações diretas para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas. Se o SARS-CoV-2 mata linfócitos e compromete a imunidade, medicamentos que protejam essas células ou impeçam a entrada do vírus nelas podem ser investigados como potenciais tratamentos adjuvantes para a COVID-19.

Entre as possibilidades levantadas pelos pesquisadores estão o uso de inibidores de caspase — drogas que bloqueiam a apoptose — e de agentes que fortaleçam a produção de novos linfócitos, como certas citocinas. No entanto, os cientistas ressaltam que esses achados são preliminares e que mais estudos são necessários antes de qualquer aplicação clínica.

Além disso, a descoberta reforça a importância de monitorar a contagem de linfócitos em pacientes infectados, especialmente naqueles que apresentam fatores de risco para formas graves da doença. A linfopenia persistente pode ser um indicador precoce de agravamento e ajudar os médicos a tomar decisões clínicas mais rápidas.

Reações da comunidade científica

O estudo da USP foi recebido com interesse pela comunidade científica internacional. Especialistas em imunologia e virologia destacaram que a pesquisa preenche uma lacuna importante na compreensão da patogênese da COVID-19. Embora a linfopenia já fosse um marcador conhecido da doença, os mecanismos exatos por trás desse fenômeno ainda não estavam completamente elucidados.

Outros grupos de pesquisa ao redor do mundo também investigam a interação entre o SARS-CoV-2 e o sistema imunológico. Estudos anteriores já haviam sugerido que o vírus poderia infectar células imunes, mas o trabalho da USP foi um dos primeiros a demonstrar de forma mais detalhada o processo de infecção e morte dos linfócitos em amostras humanas.

Os pesquisadores da USP planejam dar continuidade ao trabalho, investigando se a resposta imune de pacientes que se recuperaram da COVID-19 apresenta alterações de longo prazo nos linfócitos, e se essas alterações podem estar relacionadas a sintomas persistentes da chamada COVID longa.

Principais dúvidas sobre o estudo

  • O que são linfócitos? São glóbulos brancos responsáveis pela defesa do organismo contra infecções. Eles incluem células T, células B e células NK.
  • O que é linfopenia? É a redução na quantidade de linfócitos no sangue, frequentemente observada em pacientes com COVID-19 grave.
  • O estudo da USP já foi publicado em revista científica? Sim, os resultados foram divulgados em setembro de 2020 e publicados em periódico revisado por pares.
  • Os resultados podem levar a novos tratamentos? Sim, a compreensão dos mecanismos pode abrir caminho para terapias que protejam os linfócitos, mas ainda são necessários mais estudos.
  • Todo paciente com COVID-19 apresenta linfopenia? Não, a linfopenia é mais comum em casos moderados a graves, mas nem todos os infectados apresentam essa condição.

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