Em uma decisão amplamente aguardada pelo mercado financeiro, o Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, optou por manter a taxa de juros na faixa de 0% a 0,25%, patente em que se encontra desde o início da pandemia de coronavírus. A grande novidade veio nas projeções económicas divulgadas após a reunião de dois dias do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC): a maioria dos dirigentes do Fed espera que os juros permaneçam nesse nível, próximo de zero, pelo menos até o fim de 2023.

A decisão foi unânime e reflete a preocupação do banco central americano com a lentidão da recuperação econômica em meio à pandemia de Covid-19. O comunicado do Fed destacou que a atividade econômica e o emprego continuam se recuperando, mas permanecem bem abaixo dos níveis registrados no início do ano. O banco central reiterou seu compromisso de usar todas as ferramentas disponíveis para apoiar a economia, incluindo a compra de ativos.

Jerome Powell, presidente do Fed, afirmou em entrevista coletiva que a pandemia ainda representa riscos significativos para a economia e que o suporte monetário continuará sendo necessário por um longo período. Ele defendeu a necessidade de mais estímulos fiscais por parte do Congresso americano para complementar as ações do banco central. Powell destacou que o ritmo de recuperação diminuiu em algumas áreas, especialmente nos setores mais dependentes do contato pessoal, como viagens e restaurantes.

Projeções Econômicas (Dot Plot)

O chamado "dot plot" do Fed, que mostra as projeções individuais dos dirigentes do banco, indicou claramente uma postura dovish (expansionista). Dos 17 membros do comitê, a grande maioria não vê necessidade de aumentar os juros até 2023. Apenas alguns membros projetam um possível aumento no final de 2023.

Além da taxa de juros, as projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) americano foram revisadas. A mediana das projeções indicou uma contração menor em 2020 (-3,7% contra -6,5% estimado em junho), uma recuperação gradual em 2021 (crescimento de 4%) e crescimento de 3% em 2022. A taxa de desemprego deve cair para 7,6% no quarto trimestre de 2020 e para 5,5% no fim de 2021.

A inflação, principal preocupação do Fed, continua baixa. O banco central projeta uma inflação de 1,2% para 2020 e de 1,7% para 2021, ambas abaixo da meta de 2%. É aqui que entra a nova estratégia do Fed: a meta de inflação média.

O Novo Cenário de Política Monetária

Em agosto de 2020, o Fed anunciou uma revisão histórica de sua estratégia de política monetária. O banco central americano adotou oficialmente a meta de inflação média ("average inflation targeting"). Isso significa que o Fed pretende tolerar uma inflação acima de 2% por algum tempo para compensar os períodos em que a inflação ficou persistentemente abaixo da meta.

Essa mudança dá ao Fed a justificativa perfeita para manter os juros baixos por um período prolongado, mesmo que a inflação suba moderadamente. Na prática, o Fed não vai subir os juros só porque a inflação chegou a 2%. Ele vai esperar a inflação ficar um pouco acima de 2% por um tempo para garantir que a meta seja realmente alcançada.

O Fed também manteve seu programa de compra de ativos (Quantitative Easing) no ritmo de US$ 120 bilhões por mês, sendo US$ 80 bilhões em títulos do Tesouro e US$ 40 bilhões em títulos lastreados em hipotecas (MBS). O banco central sinalizou que continuará comprando ativos "nos próximos meses", sem dar uma data específica para o fim do programa.

Impacto nos Mercados e no Brasil

A sinalização do Fed de que os juros ficarão baixos por mais tempo foi recebida com entusiasmo pelos mercados financeiros globais.

Mercados Americanos: As bolsas de Nova York subiram, com o S&P 500 e o Nasdaq renovando máximas históricas. Os juros dos títulos do Tesouro americano de longo prazo (Treasuries) caíram, e o dólar se enfraqueceu frente a uma cesta de moedas. O ouro, que se beneficia de juros baixos e dólar fraco, subiu.

Brasil: Para o Brasil, o cenário é altamente favorável no curto prazo. Com os juros nos EUA próximos de zero, investidores institucionais globais buscam maior rendimento (yield) em países emergentes. O Brasil, com suas taxas de juros ainda relativamente altas (Selic a 2% ao ano no cenário da época), se torna um dos destinos favoritos para esse capital.

Esse fluxo de capital estrangeiro tende a derrubar o dólar frente ao real, o que ajuda a conter a inflação de alimentos e combustíveis. Além disso, dá espaço para o Banco Central do Brasil (BCB) manter a taxa Selic em níveis historicamente baixos por mais tempo, estimulando a economia doméstica.

No entanto, é preciso cautela. O risco fiscal brasileiro, com o crescimento acelerado da dívida pública e a incerteza sobre a sustentabilidade das contas públicas, é um fator que pode limitar a entrada de capital estrangeiro. Se o cenário fiscal brasileiro piorar, o dólar pode subir mesmo com os juros baixos nos EUA, anulando o efeito positivo externo.

Perguntas Frequentes

  • O que é o Fed? É o Banco Central dos Estados Unidos, responsável por definir a política monetária e regular o sistema financeiro do país.
  • O que significa "juro perto de zero"? Significa que a taxa básica de juros da economia americana foi mantida na faixa de 0% a 0,25%, o menor patamar possível. É uma ferramenta para estimular a economia.
  • Por que o Fed mantém os juros baixos? Para estimular a atividade econômica, gerar empregos e elevar a inflação para a meta de 2%, que foram severamente impactados pela pandemia de Covid-19.
  • Até quando os juros ficarão baixos? Pela sinalização do Fed, os juros devem permanecer nesse patamar até pelo menos o fim de 2023.
  • Como a decisão do Fed impacta o Brasil? Ela cria um ambiente de maior liquidez global e busca por risco, o que beneficia a Bolsa de Valores brasileira (B3), fortalece o real e dá margem para o Banco Central manter a Selic baixa.
  • O que é o "Dot Plot"? É um gráfico que mostra as projeções individuais de cada membro do FOMC para a taxa de juros nos próximos anos.
  • O que é "Quantitative Easing" (QE)? É um programa de compra de ativos pelo banco central para injetar liquidez na economia. O Fed compra títulos do Tesouro e MBS para derrubar os juros de longo prazo.