Em setembro de 2020, o técnico Ronald Koeman assumiu o comando do Barcelona em meio a um período de transição. O clube vinha de uma temporada sem títulos e buscava reformular o elenco para reduzir custos e renovar a equipe.
Após a humilhante derrota por 8 a 2 para o Bayern de Munique na Liga dos Campeões de 2019-20, a diretoria do Barcelona decidiu promover uma reestruturação profunda. O presidente Josep Maria Bartomeu procurava diminuir a folha salarial e rejuvenecer o plantel. Nesse cenário, Koeman, ex-jogador e ídolo do clube, foi contratado para substituir Quique Setién. Sua missão era clara: implementar um estilo de jogo mais dinâmico e cortar gastos.
Luis Suárez, atacante uruguaio de 33 anos, era um dos jogadores mais velhos e com salário mais alto do elenco. Desde sua chegada ao Barcelona em 2014, vindo do Liverpool, Suárez havia se tornado uma lenda do clube. Ao lado de Lionel Messi e Neymar, formou o trio MSN, que encantou o mundo e conquistou a Liga dos Campeões em 2015, além de quatro títulos do Campeonato Espanhol, entre outros troféus. Suárez era o terceiro maior artilheiro da história do clube, com 198 gols, e sua conexão com Messi era uma das mais letais do futebol.
No entanto, a diretoria considerava que seu rendimento em campo não justificava o alto investimento. Em uma entrevista coletiva no início de setembro, Koeman foi questionado sobre o futuro de Suárez e respondeu de forma direta: "Se ele ficar, será um a mais na equipe." A frase foi interpretada como um recado claro de que Suárez não teria garantia de titularidade nem tratamento diferenciado. O uruguaio ficou profundamente desapontado, especialmente por sua longa história no clube e pela amizade com Messi.
O mercado de transferências ainda estava aberto, e Suárez rapidamente negociou sua saída. O Atlético de Madrid, rival direto do Barcelona, manifestou interesse e fechou a contratação a custo zero, mas o Barcelona economizou cerca de 14 milhões de euros anuais em salários. Suárez assinou por duas temporadas com o Atlético, determinado a mostrar seu valor.
No clube colchonero, Suárez encontrou um ambiente acolhedor e se tornou peça fundamental sob o comando de Diego Simeone. Na temporada 2020-21, ele marcou 21 gols no Campeonato Espanhol e deu 9 assistências, sendo o principal artilheiro do time na conquista do título. Em um momento emblemático, o Atlético venceu o Barcelona por 1 a 0 no Camp Nou, com gol de Suárez, que não comemorou por respeito ao ex-clube. A atitude emocionou torcedores de ambos os lados.
Enquanto isso, o Barcelona enfrentou dificuldades na mesma temporada. Terminou a La Liga em terceiro lugar, atrás do Real Madrid (vice) e do campeão Atlético. A ausência de um centroavante nato foi evidente, e a equipe dependeu excessivamente de Messi. Koeman enfrentou críticas pela decisão de afastar Suárez, embora sempre justificasse a medida como necessária para a renovação financeira e esportiva do clube.
A frase "será um a mais na equipe" tornou-se emblemática da gestão de Koeman e do complexo processo de transição pós-Messi. O episódio ilustra como decisões impopulares podem ser necessárias em momentos de crise, mas também os riscos de subestimar o valor de um ídolo. Hoje, muitos torcedores consideram a saída de Suárez um erro, enquanto outros reconhecem a necessidade de mudança.
Em 2022, Koeman foi demitido do Barcelona após resultados insatisfatórios. Suárez, por sua vez, deixou o Atlético em 2022 e seguiu para o Grêmio, no Brasil, onde manteve o faro de gol. O episódio continua sendo um marco na história recente do Barcelona.