O presidente Jair Bolsonaro aproveitou a cerimônia de posse do general Eduardo Pazuello como ministro da Saúde, em 16 de setembro de 2020, para mais uma vez promover o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina como tratamento para a COVID-19. O gesto ocorreu apesar da ausência de comprovação científica sobre a eficácia desses medicamentos contra o novo coronavírus e gerou reações imediatas da comunidade médica e científica.
A cerimônia marcou a efetivação de Pazuello no cargo, que até então ocupava a posição interinamente desde maio. O general substituiu Nelson Teich, que pediu demissão menos de um mês após assumir o ministério. Teich alegou incompatibilidade com a defesa do uso de medicamentos sem eficácia comprovada, posição defendida publicamente por Bolsonaro desde o início da pandemia. A saída de Teich foi a segunda em menos de três meses — o primeiro ministro, Luiz Henrique Mandetta, também deixou o cargo após divergências com o presidente sobre as medidas de isolamento social e o tratamento precoce.
O episódio da posse
Durante seu discurso de posse, diante de autoridades e convidados, Bolsonaro exibiu uma caixa de hidroxicloroquina e afirmou que o medicamento representava uma opção de tratamento para a doença. O presidente ironizou as críticas que recebia de especialistas e da imprensa por sua defesa do fármaco. "Graças a Deus, esse medicamento existe", declarou, em tom de desafio às recomendações científicas. O gesto foi amplamente repercutido na imprensa nacional e internacional, gerando debates sobre a condução da política de saúde pública em meio à pandemia.
O episódio ocorreu em um momento simbólico: a posse do novo ministro da Saúde ocorria em meio a uma crise sanitária que já havia causado mais de 130 mil mortes no Brasil. A atitude de Bolsonaro foi interpretada por analistas como uma reafirmação de sua posição contrária às medidas de restrição e uma tentativa de desviar o foco das críticas recebidas pelo governo na condução da pandemia.
O medicamento e a falta de evidências
A cloroquina e seu derivado hidroxicloroquina são fármacos tradicionalmente utilizados no tratamento de malária e doenças autoimunes como lúpus e artrite reumatoide. Desde o início da pandemia, Bolsonaro passou a defender o uso do medicamento contra a COVID-19, baseando-se em estudos preliminares e opiniões de médicos alinhados ao seu governo, enquanto a comunidade científica internacional apontava para a falta de evidências robustas.
Grandes ensaios clínicos randomizados, considerados o padrão ouro da pesquisa médica, não encontraram benefícios significativos da hidroxicloroquina no tratamento da COVID-19. O estudo Recovery, conduzido no Reino Unido, e o Solidarity Trial, organizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), concluíram que o medicamento não reduzia a mortalidade nem o tempo de internação dos pacientes infectados pelo coronavírus. Além disso, o uso do fármaco apresentava riscos de efeitos colaterais cardíacos em alguns pacientes, o que levou agências regulatórias de diversos países a restringir seu uso emergencial.
Reações da comunidade médica e científica
A atitude de Bolsonaro gerou forte reação da comunidade médica e científica brasileira. A Associação Médica Brasileira (AMB) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgaram notas reafirmando a importância de tratamentos baseados em evidências científicas. Especialistas em saúde pública alertaram que a promoção de medicamentos sem eficácia comprovada poderia dar uma falsa sensação de segurança à população e desviar o foco das medidas comprovadamente eficazes.
O Conselho Nacional de Saúde (CNS) também se manifestou, classificando o gesto como irresponsável e contrário às recomendações da OMS. Pesquisadores de universidades brasileiras e estrangeiras lembraram que nenhum medicamento antiviral havia demonstrado eficácia em testes clínicos controlados até aquele momento e que a principal estratégia de combate à pandemia deveria ser o isolamento social, o uso de máscaras e a testagem em massa.
Impacto nas políticas de saúde pública
O episódio ocorreu em um momento crítico da pandemia no Brasil, com o país registrando altos números de casos e mortes. A defesa de tratamentos sem eficácia foi vista por especialistas como prejudicial às estratégias de combate à doença. Estudos posteriores indicaram que a disseminação de informações sobre a cloroquina como tratamento precoce contribuiu para uma adesão menor a medidas preventivas comprovadamente eficazes.
A polêmica também gerou desdobramentos institucionais. O Conselho Federal de Medicina, pressionado por setores alinhados ao governo, editou resoluções que ora permitiam, ora restringiam a prescrição do medicamento para COVID-19, gerando insegurança jurídica entre os médicos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) manteve sua posição contrária ao uso do fármaco para a doença, alertando sobre os riscos e a falta de evidências científicas.
Perguntas frequentes sobre o caso
- O que é a cloroquina? A cloroquina é um medicamento desenvolvido originalmente para o tratamento e prevenção da malária. A hidroxicloroquina, uma versão mais moderna e com menos efeitos colaterais, é usada também para doenças autoimunes como lúpus e artrite reumatoide.
- Por que a cloroquina foi considerada ineficaz contra a COVID-19? Estudos clínicos controlados e revisões sistemáticas não encontraram evidências de que o medicamento seja eficaz na prevenção ou tratamento da COVID-19. A OMS e agências reguladoras de diversos países recomendaram contra seu uso para a doença com base nesses resultados.
- A Anvisa aprovou o uso da cloroquina para COVID-19? A Agência Nacional de Vigilância Sanitária não aprovou o uso da cloroquina para COVID-19. A agência alertou sobre os riscos cardiovasculares e a falta de evidências científicas para essa indicação, mantendo a posição contrária ao uso do medicamento contra o coronavírus.
- Bolsonaro continuou defendendo o uso após setembro de 2020? Sim, o presidente seguiu promovendo o uso da cloroquina e de outros tratamentos sem eficácia comprovada ao longo da pandemia, mesmo após a conclusão de estudos que descartaram os benefícios do medicamento. A defesa do chamado "tratamento precoce" tornou-se uma bandeira política do governo.
- Quais medidas eram recomendadas contra a COVID-19 em setembro de 2020? As principais recomendações das autoridades sanitárias incluíam uso de máscaras, distanciamento social, higienização frequente das mãos e isolamento de casos suspeitos. A vacinação contra a COVID-19 começou no Brasil apenas em janeiro de 2021.