Faltando poucos dias para o primeiro turno das Eleições Municipais de 2020, um levantamento aprofundado realizado pelo G1 com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelou que a grande maioria dos candidatos que disputaram a última eleição municipal, em 2016, e estão concorrendo novamente neste ano, não pertencem mais ao mesmo partido. Cerca de 66% desses candidatos mudaram de legenda. O partido que mais ganhou adeptos com essa movimentação foi o Democratas (DEM), enquanto o Partido Verde (PV) foi o que mais perdeu filiados entre os candidatos chamados de "repetentes".

O estudo cruzou os dados de mais de 30 mil candidaturas em todo o Brasil. Desse total, impressionantes dois terços optaram por uma nova sigla para disputar o pleito de 2020. Apenas 34% dos concorrentes que tentaram a sorte em 2016 e estão novamente na disputa permaneceram filiados ao mesmo partido. Este fenômeno, embora histórico na política brasileira, ganhou contornos ainda mais expressivos neste ano, impulsionado por fatores como a reforma política de 2017 e a implementação da cláusula de barreira.

O DEM como grande vencedor da migração

O Democratas (DEM) consolidou-se como a "casa nova" preferida dos candidatos que trocaram de partido. Com um fundo eleitoral robusto e uma das maiores fatias do tempo de propaganda gratuita no rádio e na televisão, a sigla se tornou um destino atraente para políticos experientes que desejavam renovar seus mandatos ou conquistar novos cargos com maior apoio institucional. Além disso, a legenda tem investido fortemente em palanques regionais, o que atraiu candidatos a prefeito e vereador de cidades médias e grandes, especialmente em estados do Nordeste e Centro-Oeste.

O PV na ponta oposta do ranking

Na contramão do DEM, o Partido Verde (PV) enfrentou uma verdadeira debandada de seus quadros. A sigla, que historicamente se posiciona em pautas ambientais e de sustentabilidade, viu seus candidatos migrarem para legendas maiores em busca de melhores condições de campanha. A redução do tempo de TV e a dificuldade em conseguir recursos do fundo partidário foram os principais motivos apontados para a perda de filiados. O PV não foi o único partido pequeno a sofrer com a migração; legendas como PSOL e Rede Sustentabilidade também aparecem na lista dos que mais perderam candidatos repetentes neste ciclo eleitoral.

Impacto nas eleições e análise geral

A alta taxa de migração partidária observada neste ano acende um alerta para a saúde do sistema político brasileiro. A constante troca de legendas dificulta o fortalecimento ideológico dos partidos e pode confundir o eleitor, que muitas vezes se vê obrigado a escolher um candidato conhecido, mas com uma sigla diferente da qual estava acostumado a associá-lo. Além do DEM, outras siglas de centro e centro-direita, como PSD e MDB, também ganharam um número significativo de candidatos "repetentes". Na esquerda, o PT manteve uma taxa de fidelidade relativamente maior, mas também atraiu ex-integrantes de partidos menores em algumas regiões. A cláusula de barreira, implementada após a reforma política de 2017, é apontada como um dos principais catalisadores desse processo, ao incentivar a migração para partidos maiores que garantam acesso a recursos e tempo de propaganda.

Pontos-chave da pesquisa

  • Maiores ganhadores: DEM, PSD e MDB foram os partidos que mais receberam candidatos que mudaram de legenda.
  • Maiores perdedores: PV, PSOL e Rede Sustentabilidade estão entre os que mais perderam filiados "repetentes".
  • Motivações principais: Acesso ao fundo eleitoral e tempo de TV, alinhamento com coligações regionais e a cláusula de barreira.
  • Números gerais: 66% dos candidatos que concorreram em 2016 e 2020 trocaram de partido; apenas 34% permaneceram na mesma sigla.

Perguntas frequentes

Qual a razão principal para a troca de partido?

As razões são variadas, mas as principais incluem: acesso a um fundo eleitoral maior, maior tempo de propaganda no rádio e na TV, alinhamento com coligações locais e insatisfação com os rumos do partido anterior. A cláusula de barreira também forçou muitos políticos de partidos pequenos a buscarem legendas maiores.

Essa migração é legal?

Sim. A legislação eleitoral permite a troca de partido sem a perda do mandato para cargos do Legislativo (vereadores) dentro da chamada "janela partidária". Para candidatos a prefeito, a filiação precisa estar formalizada até seis meses antes da eleição.

Quantas candidaturas foram analisadas?

O levantamento do G1 analisou o histórico de mais de 30 mil candidatos que concorreram em 2016 e estão concorrendo novamente em 2020.