A guerra entre Armênia e Azerbaijão pelo controle da região separatista de Nagorno-Karabakh, um dos conflitos congelados mais antigos do mundo, viveu uma nova escalada dramática a partir do final de setembro de 2020. Após semanas de intensos combates que resultaram em milhares de baixas e na destruição de dezenas de cidades, a Rússia mediou dois acordos de cessar-fogo em menos de dez dias. O primeiro, assinado em Moscou no dia 9 de outubro, foi violado quase que imediatamente. O segundo, um acordo humanitário que entrou em vigor à meia-noite do dia 17 de outubro, também se mostrou frágil. Em poucas horas, os governos de Baku e Yerevan já trocavam acusações de bombardeios contra áreas civis, colocando em xeque os esforços diplomáticos internacionais para conter o conflito.

O Contexto Histórico do Conflito
Nagorno-Karabakh é uma região montanhosa reconhecida internacionalmente como parte do Azerbaijão, mas que foi ocupada por forças armênias étnicas após uma guerra devastadora no início dos anos 1990, que matou cerca de 30 mil pessoas. Desde o cessar-fogo de 1994, o enclave se tornou um estado independente de facto, a República de Artsakh, apoiado pela Armênia, mas não reconhecido por nenhum membro da ONU. As negociações para uma solução pacífica, lideradas pelo Grupo de Minsk da OSCE (copresidido por Rússia, França e Estados Unidos), não conseguiram produzir um acordo definitivo. O status quo foi marcado por escaramuças frequentes e pelo crescente rearmamento de ambas as partes, com o Azerbaijão usando sua renda do petróleo e gás para adquirir armas modernas, enquanto a Armênia mantinha uma aliança militar com a Rússia.

A Escalada de 2020 e o Primeiro Cessar-Fogo
As hostilidades em grande escala começaram em 27 de setembro de 2020, representando a maior violação do cessar-fogo em décadas. Os combates foram caracterizados pelo uso intenso de drones armados, artilharia pesada e tanques. Ambos os lados impuseram a lei marcial e mobilizaram suas populações masculinas. As baixas foram altas, incluindo centenas de civis de ambos os lados, e denúncias de crimes de guerra, como o bombardeio de áreas residenciais, tornaram-se comuns. A comunidade internacional, incluindo a ONU, a União Europeia e o Papa Francisco, pediu o fim imediato dos combates. A Rússia, embora aliada da Armênia, manteve boas relações com o Azerbaijão e buscou uma mediação rápida.

O presidente russo, Vladimir Putin, conseguiu reunir os chanceleres em Moscou, onde foi acordado um cessar-fogo humanitário no dia 9 de outubro, que permitiria a troca de prisioneiros e a recuperação dos corpos dos mortos. No entanto, assim que o acordo entrou em vigor, as violações começaram. A Armênia acusou o Azerbaijão de atacar Stepanakert, a capital de Nagorno-Karabakh, enquanto o Azerbaijão afirmou que as forças armênias bombardearam a cidade de Ganja.

O Novo Acordo Humanitário e as Acusações Mútuas
Diante do fracasso da primeira trégua, e com os combates se intensificando, um novo acordo de cessar-fogo "humanitário" foi anunciado no dia 17 de outubro, novamente com mediação russa. Os termos eram semelhantes ao acordo anterior, mas com um apelo mais forte para a criação de um mecanismo de monitoramento do cessar-fogo. A esperança era que a pressão internacional e o cansaço dos combatentes pudessem garantir a trégua. No entanto, minutos após o acordo entrar em vigor, as acusações mútuas de violação recomeçaram com a mesma intensidade.

O Ministério da Defesa do Azerbaijão declarou que as forças armênias violaram o cessar-fogo ao bombardear a cidade de Ganja, a segunda maior cidade do país. Segundo Baku, os ataques atingiram áreas residenciais, matando e ferindo civis. O governo azerbaijano afirmou que tinha o direito de revidar sob o direito internacional.

O governo da Armênia e as autoridades de Nagorno-Karabakh acusaram o Azerbaijão de continuar os bombardeios contra Stepanakert e outras localidades no enclave. Eles alegaram que o exército azerbaijano estava usando artilharia pesada e drones para atacar alvos civis, dificultando a evacuação de moradores e a prestação de ajuda humanitária. O primeiro-ministro da Armênia, Nikol Pashinyan, afirmou que a comunidade internacional não estava fazendo o suficiente para pressionar o Azerbaijão a cumprir o acordo.

A Rússia expressou "grave preocupação" com as violações e pediu que ambos os lados mostrassem "controle". A União Europeia e os Estados Unidos também condenaram as violações e pediram o fim imediato das hostilidades. A Turquia, que apoia abertamente o Azerbaijão, criticou a Armênia e defendeu o direito de Baku de defender seu território.

Impacto Humanitário e Perspectivas
O custo humano do conflito era evidente. Agências de notícias relataram a destruição de bairros inteiros, hospitais sobrecarregados e um número crescente de deslocados. A pandemia de COVID-19 agravou ainda mais a crise humanitária, com sistemas de saúde lutando para lidar com os feridos e o vírus. Para os analistas, a situação no terreno indicava que nenhum dos lados estava disposto a ceder. O Azerbaijão, confiante em sua superioridade militar, parecia determinado a retomar os territórios perdidos. A Armênia, por sua vez, via o conflito como uma questão de sobrevivência nacional e contava com sua vantagem defensiva no terreno montanhoso e com o apoio da diáspora armênia global.

Conclusão
Em 18 de outubro de 2020, as perspectivas para uma paz duradoura no Cáucaso do Sul eram sombrias. O novo acordo de cessar-fogo, embora representasse um esforço diplomático contínuo, era um reflexo da profunda desconfiança e das ambições conflitantes entre as duas nações. Enquanto as acusações de violações mútuas continuassem, e enquanto a comunidade internacional não conseguisse impor um mecanismo de monitoramento eficaz, os combates pareciam fadados a continuar, com consequências trágicas para a população civil da região.