Em 2020, uma reportagem do jornal Extra revelou que a maioria das áreas do Rio de Janeiro dominadas por milícias já contava com pontos de venda de drogas controlados por esses grupos. A informação, obtida junto a fontes da segurança pública e moradores, mostrou uma transformação no perfil das milícias fluminenses, que deixaram de atuar apenas como "protetoras" das comunidades para se tornarem agentes diretos do tráfico de entorpecentes.
A origem e expansão das milícias
As milícias do Rio surgiram no fim dos anos 1990, formadas principalmente por policiais e ex-policiais que prometiam expulsar traficantes das comunidades. Com o tempo, esses grupos passaram a cobrar taxas de moradores por serviços como segurança, transporte e venda de gás. Atualmente, controlam dezenas de bairros, especialmente na Zona Oeste e Baixada Fluminense, onde o poder público é ausente. O domínio territorial permitiu que expandissem suas operações para atividades ilegais mais lucrativas, como a venda de drogas.
A entrada no mercado de drogas
De acordo com o Extra, a venda de drogas tornou-se uma realidade na maioria das áreas milicianas. Inicialmente, as milícias combatiam o tráfico, mas perceberam que poderiam lucrar mais assumindo o controle do comércio de entorpecentes. Com a expulsão de facções rivais, passaram a comercializar maconha, cocaína e crack. Em algumas localidades, os milicianos estabeleceram pontos de venda fixos, similares às "bocas de fumo" do tráfico. Isso gerou uma nova dinâmica: a violência entre milícias e facções aumentou, mas também a exploração econômica das comunidades.
Os dados da reportagem
O levantamento do Extra percorreu diversas comunidades sob domínio miliciano. A conclusão foi que mais da metade dessas áreas já possuía pontos de venda de drogas. Regiões como Gardênia Azul, Cidade de Deus e comunidades da Zona Oeste aparecem no relato. Moradores entrevistados afirmaram que antes da chegada das milícias não havia comércio de drogas na localidade. A mudança indica um processo de "milezação" do tráfico, onde os milicianos assumem o controle e padronizam a atividade.
Impactos nas comunidades
As comunidades controladas por milícias sofrem com a imposição de regras rígidas, toques de recolher e cobrança de taxas abusivas. Com a entrada no tráfico, a violência tende a se intensificar. Moradores vivem com medo de represálias tanto de milicianos quanto de traficantes de facções rivais. Além disso, a falta de segurança pública efetiva permite que esses grupos atuem com impunidade. A exploração econômica é generalizada: desde a venda de gás até a internet, tudo é controlado pela milícia, e quem não paga sofre ameaças.
Resposta do poder público
Em 2020, a Câmara Municipal do Rio instalou uma CPI para investigar as milícias e sua relação com o tráfico. Foram ouvidos depoimentos e propostas medidas como o endurecimento de penas e a criação de programas de proteção a testemunhas. A Polícia Civil mantém uma delegacia especializada, e operações como a "Milícia" e a "Favorito" prenderam dezenas de suspeitos. No entanto, o avanço é lento diante da capilaridade dos grupos e da infiltração em órgãos públicos. A falta de integração entre as forças de segurança e a ausência de políticas sociais nas comunidades dificultam o combate.
Perguntas frequentes
Como as milícias se diferenciam do tráfico tradicional?
As milícias são formadas por agentes de segurança e se apresentam como uma "ordem" paralela, enquanto o tráfico é composto por facções criminosas focadas na venda de drogas. Na prática, essa diferença tem diminuído, já que as milícias também passaram a vender drogas.
As milícias têm ligação com políticos?
Investigações apontam que sim. Vários políticos e ex-políticos foram acusados de receber apoio de milicianos ou de intermediar acordos. A CPI das Milícias de 2020 revelou conexões preocupantes.
O que pode ser feito para enfraquecer as milícias?
Especialistas sugerem uma combinação de repressão qualificada, com inteligência policial, e presença do Estado nas comunidades, com serviços básicos e cidadania. Sem a oferta de alternativas, o controle miliciano tende a persistir.
Conclusão
A reportagem do Extra evidencia que as milícias no Rio de Janeiro não são mais apenas grupos de extermínio ou prestadores de serviços ilegais; elas se tornaram players do tráfico de drogas. O fenômeno exige uma resposta à altura, que vá além de operações pontuais e inclua políticas de Estado de longo prazo.