O Carrefour Brasil publicou na noite de sexta-feira, 20 de novembro de 2020, uma nova nota oficial sobre a morte de João Alberto Silveira Freitas. O homem negro de 40 anos foi brutalmente espancado por seguranças em uma loja da rede em Porto Alegre, na véspera do Dia da Consciência Negra. No comunicado, a empresa afirma que o "19 de novembro de 2020 é o dia mais triste da história do Carrefour no Brasil". O texto veio após uma enxurrada de críticas nas redes sociais e protestos em frente às lojas da rede. A empresa afirmou estar "envergonhada" e prometeu rever seus processos. Contudo, omitiu deliberadamente a participação da funcionária que, segundo o relato da esposa da vítima, foi a primeira a agir com hostilidade.

O Crime

Por volta das 20h do dia 19 de novembro, João Alberto estava no supermercado Carrefour do bairro Passo d'Areia, em Porto Alegre, acompanhado de sua esposa, Milena Alves. Após uma discussão com uma funcionária, ele foi abordado por seguranças da empresa terceirizada Vector. As câmeras de segurança flagraram os seguranças Magno Cardoso Borges e Adriano Alves Nascimento imobilizando, socando e arrastando João Alberto. Imagens de alta definição do circuito interno mostraram a sequência de agressões. A vítima não esboçou reação violenta, sendo dominada por três homens simultaneamente. Ele foi levado para fora da loja, onde continuou sendo agredido até perder a consciência. Socorrido, não resistiu aos ferimentos e morreu.

A Repercussão Imediata

A notícia se espalhou rapidamente. A morte de João Alberto ocorreu em um momento de forte mobilização social contra o racismo, impulsionada pelo movimento global antirracista. No Brasil, a data do crime, véspera do Dia da Consciência Negra, amplificou a indignação. Manifestações contra o Carrefour ocorreram em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e outras capitais. A Netflix Brasil foi uma das primeiras grandes empresas a se posicionar, suspendendo as gravações que realizaria em parceria com a rede. O movimento #VidasNegrasImportam ganhou as ruas novamente, num momento em que o país ainda lidava com os efeitos da pandemia de Covid-19. A imprensa internacional, como BBC, The Guardian e CNN, também noticiou o caso.

A Primeira Nota vs. A Segunda Nota

Na primeira manifestação, o Carrefour informou o afastamento dos seguranças e disse repudiar a violência. A nota foi recebida com forte rejeição, considerada fria e corporativa. Pressionado, o CEO do Carrefour Brasil, Noël Prioux, gravou um vídeo e divulgou uma segunda nota, onde aparece visivelmente abalado. O texto fala em "dia mais triste" e se compromete com "ações concretas". No entanto, ativistas apontam que a nota peca ao não detalhar a situação da funcionária envolvida. O casal teria sido expulso da loja pela funcionária antes de ser abordado pela segurança. Testemunhas afirmam que ela gritava "chama a segurança, chama a segurança", apontando para o casal.

A Funcionária Conivente

A funcionária em questão foi afastada pelo Carrefour, mas a empresa nunca confirmou publicamente seu nome nem as providências legais tomadas contra ela. O silêncio foi interpretado como uma tentativa de blindar a funcionária de responsabilização criminal e moral. Milena Alves, esposa de João Alberto, deu detalhes sobre a funcionária em entrevistas. Ela disse que a funcionária os tratou com grosseria e, ao ser confrontada, chamou os seguranças gritando "olha o que esse negro está fazendo". Essa narrativa foi corroborada por outras testemunhas. Para a família da vítima e para movimentos sociais, a funcionária teve um papel central no desfecho trágico, e sua omissão na nota oficial foi vista como um exemplo clássico do racismo estrutural que opera muitas vezes de forma velada.

Medidas Prometidas pelo Carrefour

Em resposta à crise, o Carrefour anunciou um conjunto de medidas:

  • Criação de um Comitê de Direitos Humanos independente.
  • Cancelamento de contratos com empresas de segurança terceirizada.
  • Investimento de R$ 100 milhões em programas de combate ao racismo e inclusão.
  • Treinamento obrigatório e contínuo para todos os funcionários sobre racismo estrutural.

Desdobramentos Legais

A Polícia Civil do Rio Grande do Sul indiciou os seguranças Magno Cardoso Borges e Adriano Alves Nascimento por homicídio qualificado. Eles tiveram a prisão preventiva decretada. O Ministério Público do Trabalho também abriu investigação sobre as condições de trabalho e as políticas de segurança da rede. O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) também instaurou um procedimento para investigar a conduta do gerente da loja, que não teria intervindo para impedir as agressões. A funcionária conivente também foi investigada para apurar sua conduta antes, durante e depois das agressões.

Perguntas Frequentes

O que aconteceu com João Alberto?

João Alberto Silveira Freitas foi assassinado por seguranças de uma loja do Carrefour em Porto Alegre no dia 19 de novembro de 2020, véspera do Dia da Consciência Negra.

O que disse a nova nota do Carrefour?

A empresa chamou a data do crime de "o dia mais triste da história do Carrefour no Brasil" e prometeu ações concretas de combate ao racismo, mas silenciou sobre a funcionária conivente.

Por que a funcionária conivente é criticada?

Ela teria chamado os seguranças e incentivado a abordagem violenta contra o casal. A empresa foi criticada por não detalhar as providências tomadas contra ela em suas notas oficiais.

Os seguranças foram presos?

Sim. Magno Cardoso Borges e Adriano Alves Nascimento foram presos preventivamente e indiciados por homicídio qualificado.

O que mudou no Carrefour após o caso?

A rede criou um Comitê de Direitos Humanos, rompeu contratos com empresas terceirizadas de segurança e anunciou investimentos em treinamento antirracista.

A família foi indenizada?

Sim, o Carrefour fechou um acordo de indenização por danos morais com a família de João Alberto, cujo valor não foi divulgado publicamente. A família seguiu cobrando justiça criminal.