Na manhã deste domingo (22), manifestantes realizaram um ato em frente a uma unidade da rede Carrefour no Recife, convocando a população a boicotar a rede de supermercados. O protesto foi motivado pela morte de João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos, espancado por seguranças da rede em uma loja de Porto Alegre na última quinta-feira (19).

O caso

João Alberto foi agredido por seguranças do Carrefour no estacionamento da loja do bairro Passo d'Areia, em Porto Alegre. Imagens de câmeras de segurança registraram a ação: os seguranças imobilizaram e espancaram o homem, que não resistiu e morreu no local. A Polícia Civil do Rio Grande do Sul investiga o crime e dois seguranças foram presos temporariamente. A ocorrência foi registrada como homicídio triplamente qualificado.

Repercussão nacional

O caso ganhou enorme repercussão em todo o país e gerou uma onda de protestos contra o racismo e a violência. Em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e outras capitais, atos foram organizados nos dias seguintes. A Carrefour Brasil divulgou nota lamentando a morte e informou que rescindiu o contrato com a empresa de segurança terceirizada e que abriu um processo interno de apuração. No entanto, a comoção social exigiu medidas mais concretas.

O ato no Recife

No Recife, dezenas de pessoas se reuniram em frente a uma das lojas da rede, na Zona Sul da cidade. Com cartazes e gritos de "Justiça para João Alberto" e "Vidas Negras Importam", o protesto foi pacífico e contou com a participação de ativistas de movimentos sociais, como o Movimento Negro Unificado (MNU) e entidades de direitos humanos. A polícia acompanhou o ato sem incidentes.

Os organizadores discursaram contra o racismo estrutural e chamaram a atenção para a violência que atinge desproporcionalmente a população negra no Brasil. "Não podemos aceitar que mais um negro morra dentro de um supermercado por conta de um crime cometido por seguranças que agem com racismo", afirmou uma das lideranças do protesto.

Apelo ao boicote

Uma das principais bandeiras do ato foi o boicote à rede Carrefour. Os manifestantes distribuíram panfletos e orientaram os consumidores a não comprarem nos supermercados da marca até que a empresa tome medidas efetivas de combate ao racismo, como a implementação de treinamento antirracista obrigatório para todos os funcionários e seguranças, e a criação de canais de denúncia independentes. A hashtag #BoicoteCarrefour ganhou força nas redes sociais.

Reações de figuras públicas

Personalidades como cantores, atores e políticos se manifestaram nas redes sociais. O apresentador Luciano Huck, o cantor Emicida e a deputada federal Talíria Petrone (PSOL) lamentaram a morte e cobraram justiça. A hashtag #JustiçaParaJoãoAlberto ficou entre os assuntos mais comentados do Twitter. Além disso, um abaixo-assinado online lançado por grupos de direitos humanos já reunia centenas de milhares de assinaturas pedindo a responsabilização dos envolvidos e a adoção de medidas antirracismo.

Resposta da empresa

Em nota, o Carrefour Brasil informou que está colaborando com as investigações e que já adotou uma série de providências, incluindo a demissão dos seguranças envolvidos e o cancelamento do contrato com a empresa terceirizada. A companhia também anunciou a criação de um comitê interno para discutir diversidade e inclusão. Para os manifestantes, porém, as ações anunciadas são insuficientes e não garantem que episódios semelhantes não voltem a ocorrer.

Contexto do racismo estrutural

A morte de João Alberto ocorre em um contexto de recorrentes casos de violência racial no Brasil. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a população negra é a principal vítima de homicídios e de violência institucional no país. A comoção gerada pelo caso Carrefour trouxe novamente ao debate público a necessidade de políticas efetivas de combate ao racismo e de punição exemplar para crimes de ódio.

Até o fechamento desta edição, a Justiça do Rio Grande do Sul mantinha a prisão temporária dos dois seguranças. A polícia aguarda o laudo da perícia para concluir o inquérito. A família de João Alberto foi ouvida e cobra justiça.

O ato no Recife se insere em uma série de manifestações que ocorrem em diversas cidades brasileiras. Novos protestos estão sendo organizados para as próximas semanas, sob a liderança de coletivos negros e entidades de defesa dos direitos humanos. A expectativa é que a pressão popular force a aprovação de medidas mais rigorosas contra o racismo em estabelecimentos comerciais.