Em meio ao avanço da pandemia de coronavírus em Salvador, o secretário municipal da Saúde, Leo Prates, fez um apelo direto à população. Durante anúncio de novas medidas de combate à Covid-19, o secretário afirmou que a colaboração de todos era essencial para evitar medidas mais severas, incluindo o fechamento total do comércio na cidade. A declaração foi feita em entrevista coletiva no fim de semana, com a presença de representantes da imprensa local e nacional.

A declaração ocorreu no fim de novembro de 2020, quando Salvador enfrentava o início da segunda onda da pandemia. A taxa de transmissão do vírus (RT) voltava a subir e a ocupação dos leitos de UTI destinados à Covid-19 se aproximava de um nível crítico, acendendo um alerta no sistema de saúde municipal. Dados oficiais indicavam que a taxa de ocupação ultrapassava os 70% nos leitos de UTI adulto, o que preocupava as autoridades e pressionava a rede hospitalar da capital baiana.

"Eu peço encarecidamente a ajuda da população. Não é o governo que vai resolver sozinho. Se cada um fizer a sua parte, evitando aglomerações e usando máscara, conseguiremos passar por essa fase sem precisar tomar medidas mais duras. Se as pessoas não ajudarem, vamos precisar fechar", declarou o secretário durante entrevista coletiva. A fala rapidamente repercutiu na imprensa local e nacional, sendo destaque em portais como G1, UOL e Correio 24 Horas.

No início daquele mês, a prefeitura já havia anunciado a volta do toque de recolher noturno e restrições adicionais para bares e restaurantes, mas o secretário deixou claro que essas medidas poderiam não ser suficientes. O apelo direto à população representou um momento de virada na comunicação da gestão municipal, que até então vinha adotando um tom mais técnico e menos enfático sobre a necessidade de colaboração popular.

O contexto da segunda onda em Salvador

Naquele momento, Salvador operava sob um sistema de bandeiras (fases) que determinava o funcionamento de estabelecimentos comerciais. Bares, restaurantes e shoppings tinham horários reduzidos e limite de capacidade. A cidade estava na bandeira laranja, que permitia o funcionamento de serviços não essenciais com restrições, mas a iminência de regredir para a bandeira vermelha era real. O sistema de fases havia sido implementado em junho daquele ano e passou por diversas revisões ao longo dos meses conforme a evolução dos indicadores epidemiológicos.

Apesar das restrições oficiais, aglomerações em espaços públicos e festas clandestinas continuavam a ocorrer com frequência, o que motivou o alerta do secretário. Leo Prates deixou claro que, sem a adesão popular, a regressão para uma fase mais restritiva (bandeira vermelha) seria inevitável. A fiscalização municipal intensificou as operações em áreas historicamente conhecidas por grande concentração de pessoas, como o Centro Histórico, o Rio Vermelho e a orla da Barra.

O tom do discurso foi de preocupação e responsabilidade coletiva. "A pandemia não acabou. O vírus continua circulando e precisamos da consciência de cada cidadão", afirmou. A prefeitura reforçou as campanhas de conscientização com distribuição de máscaras e álcool em gel em regiões de grande circulação, além da intensificação das blitz educativas e da orientação aos comerciantes sobre os protocolos sanitários exigidos.

O dilema entre saúde pública e economia

O secretário reconheceu abertamente o dilema entre a saúde pública e a economia. As medidas de restrição afetam diretamente o comércio, gerando desemprego e perda de renda para milhares de famílias que dependem do trabalho presencial. No entanto, a superlotação do sistema de saúde teria consequências econômicas igualmente devastadoras. "Não podemos escolher entre economia e saúde. Sem saúde, não há economia. Precisamos salvar vidas para que a economia possa se recuperar", argumentou. Essa visão estava alinhada com a posição de especialistas em saúde pública e organizações internacionais como a Organização Mundial da Saúde.

O Brasil enfrentava, naquele momento, uma das fases mais críticas da pandemia. O país se aproximava de 200 mil mortes por Covid-19, e o sistema de saúde de diversas capitais estava sob forte pressão. Salvador, em particular, tinha enfrentado um primeiro pico em maio e junho e agora via os números voltarem a crescer com a chegada do verão e a aproximação das festas de fim de ano. A prefeitura buscava equilibrar a retomada econômica com a necessidade incontornável de conter o avanço do vírus.

A fala de Leo Prates ecoou o sentimento de muitas autoridades de saúde pública no Brasil, que viam na falta de adesão popular um dos maiores entraves para o controle efetivo da pandemia. O debate expôs a complexidade da gestão da crise sanitária em um país com profundas desigualdades sociais. Enquanto parte da população podia trabalhar de casa e manter o distanciamento social, outra parcela dependia do comércio ambulante, dos serviços presenciais e do transporte público para sobreviver, o que tornava as medidas de restrição um desafio logístico e humano ainda maior.

A declaração também gerou repercussão entre representantes do setor comercial de Salvador. A Associação Comercial da Bahia manifestou preocupação com a possibilidade de um fechamento total, mas reconheceu a gravidade da situação sanitária. O secretário, por sua vez, garantiu que a prefeitura continuaria dialogando com o setor produtivo para buscar alternativas que mitigassem os impactos econômicos sem comprometer a capacidade de atendimento do sistema de saúde.

Perguntas frequentes sobre a declaração de Leo Prates

O comércio de Salvador fechou após essa declaração?

Sim, nos meses seguintes, a Prefeitura de Salvador precisou implementar lockdowns e medidas mais rígidas para conter o avanço da segunda onda da Covid-19, chegando a fechar o comércio não essencial em determinados períodos. Em fevereiro de 2021, após o Carnaval, a cidade decretou lockdown com fechamento total de atividades não essenciais por vários dias. A declaração do secretário em novembro foi um prenúncio das dificuldades que viriam.

Quem é Leo Prates?

Leo Prates é médico e político brasileiro. Na época da declaração, era o secretário municipal da Saúde de Salvador, sendo uma das principais vozes da gestão municipal sobre a pandemia de coronavírus. Anteriormente, exerceu mandato como vereador na capital baiana pelo DEM (hoje União Brasil) e foi um dos principais articuladores da estratégia municipal de enfrentamento à Covid-19.

Quais eram as principais medidas em novembro de 2020?

As principais medidas incluíam o uso obrigatório de máscaras em locais públicos, toque de recolher noturno entre 22h e 5h, restrições de horário e capacidade para bares, restaurantes e shoppings (máximo de 50% da capacidade), além da suspensão de eventos públicos, shows e atividades que gerassem aglomeração. Academias e igrejas funcionavam com horário reduzido e protocolos sanitários rigorosos.

O que mudou após esse alerta?

Após o alerta, a prefeitura intensificou a fiscalização e as campanhas de conscientização. No entanto, os números de casos e mortes continuaram a subir nas semanas seguintes, culminando em medidas mais restritivas em dezembro e janeiro. Em janeiro de 2021, Salvador atingiu recordes de ocupação de leitos de UTI, o que obrigou a prefeitura a endurecer ainda mais as regras de isolamento social e a decretar lockdowns pontuais.