Catherine Nakalembe, cientista ugandense da NASA, tornou-se referência mundial no uso de dados de satélites para transformar a agricultura na África. À frente do programa NASA Harvest para o continente, ela ajuda a monitorar safras, prever quebras de produção e orientar políticas de segurança alimentar que beneficiam milhões de agricultores familiares.

Quem é Catherine Nakalembe?

Nascida em Kampala, Uganda, Catherine Nakalembe descobriu cedo o interesse por geografia e tecnologia. Graduou-se na Universidade Makerere e depois obteve mestrado e doutorado em Geografia pela University of Maryland, nos Estados Unidos. Sua pesquisa de doutorado já utilizava imagens de satélite para compreender as dinâmicas agrícolas no leste africano. Atualmente ela é professora assistente na mesma universidade e líder do componente africano do NASA Harvest, um programa global financiado pela agência espacial que aplica observação da Terra à agricultura e segurança alimentar.

Como os satélites ajudam a agricultura?

A NASA opera dezenas de satélites de observação da Terra, como o MODIS (a bordo dos satélites Terra e Aqua) e o Landsat (em parceria com o Serviço Geológico dos EUA). Eles registram imagens multiespectrais da superfície com frequência de um a alguns dias. Catherine Nakalembe e sua equipe processam essas imagens para gerar indicadores como o NDVI (Índice de Vegetação por Diferença Normalizada), que mede o vigor das plantas a partir da reflectância da luz solar. Outras variáveis incluem a temperatura da superfície, o teor de umidade no solo e a evapotranspiração. Combinados, esses dados permitem:

  • Identificar áreas com estresse hídrico ou início de seca antes que os efeitos sejam visíveis a olho nu;
  • Estimar a área plantada e a produtividade esperada de culturas como milho, feijão, arroz e sorgo;
  • Gerar mapas de risco de pragas e doenças com base em condições climáticas favoráveis;
  • Produzir boletins decendiais e sazonais para que governos e cooperativas planejem a distribuição de sementes, fertilizantes e ajuda humanitária.

Além do NDVI, são empregados dados de radar de abertura sintética, que conseguem "enxergar" através das nuvens — essencial em regiões tropicais com cobertura frequente de nuvens durante a estação chuvosa.

Impacto na África

O trabalho coordenado por Nakalembe abrange atualmente mais de dez países africanos. Em Uganda, os relatórios de previsão de safra de milho e feijão são usados pelo Ministério da Agricultura para definir cotas de importação e exportação. No Quênia, os dados de satélite ajudam a monitorar pastagens e a orientar o deslocamento de pastores em épocas de seca. Na Tanzânia, alertas precoces de seca têm permitido que comunidades rurais se preparem com meses de antecedência, reduzindo perdas de rebanho. Em Ruanda e no Malawi, o monitoramento das safras de arroz e mandioca já evitou colapsos de abastecimento em anos de clima adverso.

O programa também oferece capacitação: Nakalembe treina técnicos de institutos meteorológicos nacionais para que eles próprios processem e interpretem os dados. Isso fortalece a autonomia dos países e acelera a adoção de tecnologias espaciais na gestão agrícola.

Durante a pandemia de COVID-19, quando visitas a campo foram suspensas, os satélites se tornaram a principal fonte de informação sobre a evolução das safras. O trabalho de Nakalembe garantiu que a tomada de decisão não parasse, mesmo com restrições de deslocamento.

Reconhecimento internacional

Em 2020, Catherine Nakalembe recebeu o Prêmio África para Alimentação (Africa Food Prize) — o mais importante prêmio agrícola do continente — ao lado do cientista nigeriano André Bationo. O júri destacou sua liderança no uso de inovação espacial para melhorar a produtividade agrícola e reduzir a fome. Ela também integra comitês científicos da NASA, do Programa Mundial de Alimentos (WFP) e de várias universidades, e foi nomeada membro do conselho da African Research Universities Alliance. Sua trajetória é frequentemente citada como inspiração para jovens africanos, especialmente meninas, que desejam seguir carreiras em ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Perguntas frequentes

O que é o NASA Harvest?

É um consórcio global financiado pela NASA que usa dados de satélite para melhorar a produtividade agrícola e a segurança alimentar. O braço africano é liderado por Catherine Nakalembe e reúne universidades, institutos de pesquisa e ministérios da agricultura de vários países.

Como os satélites detectam problemas nas plantações?

Os satélites captam a luz refletida pelas plantas em faixas do espectro (visível e infravermelho). Plantas saudáveis refletem muito infravermelho próximo e pouco vermelho visível — o NDVI é alto. Quando a vegetação sofre estresse (falta d'água, praga, deficiência nutricional), a reflectância no infravermelho cai, e o índice diminui. Comparações ao longo do tempo revelam áreas em declínio.

Essa tecnologia funciona em pequenas propriedades?

Sim, embora a resolução espacial de satélites como o MODIS (250 m) seja adequada para regiões com grandes áreas, o Landsat (30 m) já permite captar campos médios. Com drones e satélites comerciais de alta resolução (3-5 m), a tecnologia pode beneficiar até pequenos agricultores que cultivam parcelas de meio hectare.

Os dados estão disponíveis gratuitamente?

Grande parte dos dados utilizados pela NASA Harvest são abertos e gratuitos, incluindo as imagens Landsat e MODIS. A equipe de Nakalembe também desenvolve plataformas online e aplicativos móveis para que agricultores e extensionistas acessem boletins e alertas.

O trabalho de Catherine Nakalembe pode ser replicado no Brasil?

Sim. O Brasil já utiliza técnicas semelhantes para monitorar as safras de soja, milho e cana-de-açúcar, por meio de programas como o PRODES (desmatamento) e o Conab. O diferencial do trabalho africano é o foco em regiões com baixa densidade de estações meteorológicas de solo, onde o satélite é muitas vezes a única fonte de dados. A experiência de Nakalembe oferece um modelo de capacitação local que poderia ser adaptado para países em desenvolvimento de qualquer continente.

O futuro da agricultura com satélites

As novas constelações de satélites (como o programa Sentinel da ESA e a constelação Planet) oferecem resolução temporal diária e espacial de até 3 metros. Combinadas com inteligência artificial e aprendizado de máquina, essas imagens permitem detectar não apenas a saúde das plantas, mas também identificar espécies de culturas, recomendar dosagens de irrigação e fertilizantes, e prever a data ideal de colheita com precisão.

Catherine Nakalembe defende que a África precisa criar sua própria capacidade de processamento e análise, para não depender exclusivamente de parceiros externos. Sua visão é que cada país africano tenha um centro de excelência em sensoriamento remoto agrícola, formando novas gerações de cientistas e técnicos. O sucesso de sua abordagem — ciência de ponta aplicada a problemas concretos — mostra que os satélites são uma ferramenta poderosa, mas é o talento humano que transforma dados em comida na mesa.