Em 3 de janeiro de 2021, o Egito aprovou o uso emergencial da vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinopharm (CNBG – China National Biotec Group). A medida, anunciada pelo Ministério da Saúde egípcio, tornou o país um dos primeiros do continente africano a autorizar um imunizante contra o novo coronavírus.

O contexto da pandemia no Egito

No final de 2020 e início de 2021, o Egito enfrentava uma segunda onda de infecções por coronavírus. O país registrava mais de 140 mil casos confirmados e aproximadamente 7,8 mil mortes, segundo dados oficiais. A taxa de ocupação de leitos de UTI em hospitais públicos e privados aumentava, principalmente em grandes centros urbanos como Cairo, Alexandria e Gizé. A aprovação da vacina da Sinopharm representou uma ferramenta crucial para as autoridades sanitárias conterem o avanço da doença.

O sistema de saúde egípcio, embora bem estruturado em áreas metropolitanas, enfrentava dificuldades em regiões rurais e remotas, onde o acesso a cuidados intensivos era limitado. A campanha de vacinação foi vista como a principal estratégia para reduzir a pressão sobre o sistema.

Características da vacina Sinopharm

A vacina da Sinopharm é baseada na tecnologia de vírus inativado, um método clássico e amplamente utilizado na produção de imunizantes contra doenças como poliomielite, gripe e raiva. O processo envolve o cultivo de grandes quantidades do vírus SARS-CoV-2, que são então inativados quimicamente para que não possam causar a doença, mantendo sua capacidade de estimular a resposta imunológica.

Uma das principais vantagens logísticas da vacina é sua estabilidade. Diferente das vacinas de RNA mensageiro (mRNA), como as da Pfizer/BioNTech e Moderna, que exigem armazenamento em temperaturas extremamente baixas (entre -70°C e -20°C), a vacina da Sinopharm pode ser armazenada e transportada em temperaturas comuns de refrigeração (2°C a 8°C). Essa característica facilitou enormemente sua distribuição em um país como o Egito, que possui vastas áreas desérticas e uma infraestrutura de armazenamento a frio heterogênea.

Participação do Egito nos ensaios clínicos e aprovação regulatória

O processo de aprovação no Egito foi acelerado, mas seguiu critérios rigorosos de análise. A Agência Reguladora de Medicamentos Egípcia (EDA) revisou os dados preliminares de eficácia e segurança dos ensaios clínicos de fase 3 conduzidos em diversos países, incluindo o Egito, que participou ativamente dos testes em parceria com o Grupo G42, dos Emirados Árabes Unidos.

Os resultados dos testes indicaram uma eficácia geral de 86% contra a infecção sintomática pelo SARS-CoV-2 e uma eficácia de 100% na prevenção de casos graves e hospitalizações. Com base nesses dados, a EDA concedeu a autorização para uso emergencial no dia 3 de janeiro.

Distribuição e logística

O primeiro lote de doses da vacina Sinopharm chegou ao Egito em dezembro de 2020, como parte de um acordo de fornecimento entre o governo egípcio e a China. A campanha de vacinação foi iniciada em 24 de janeiro de 2021, priorizando os profissionais de saúde que atuavam na linha de frente do combate à pandemia.

O governo egípcio estabeleceu centros de vacinação em todas as províncias do país, utilizando a rede de atenção primária à saúde. A vacinação era gratuita e voluntária. Idosos, pessoas com doenças crônicas (como diabetes, hipertensão e doenças cardíacas) e funcionários de serviços essenciais foram os grupos prioritários seguintes.

Validação internacional e impacto

A aprovação da vacina da Sinopharm pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 7 de maio de 2021 foi um marco importante. A OMS incluiu o imunizante em sua Lista de Uso Emergencial (EUL), o que permitiu sua aquisição e distribuição global por meio do mecanismo COVAX, garantindo acesso equitativo para países de baixa e média renda.

A decisão do Egito de aprovar e utilizar a vacina da Sinopharm fortaleceu os laços de cooperação em saúde com a China, no âmbito da Iniciativa do Cinturão e Rota da Saúde. A experiência egípcia com o imunizante também contribuiu para o acervo global de evidências sobre o desempenho das vacinas de vírus inativado em condições reais de uso.

Desafios e legado

A campanha de vacinação no Egito enfrentou desafios significativos, incluindo a hesitação vacinal, alimentada por desinformação sobre a segurança e eficácia dos imunizantes. Para combater esse fenômeno, o Ministério da Saúde lançou campanhas de conscientização pública, destacando a importância da vacinação para a proteção individual e coletiva.

A logística de distribuição em áreas remotas do deserto e no sul do país foi outro desafio superado graças às características de armazenamento da vacina. A experiência egípcia demonstrou a viabilidade do uso de vacinas de vírus inativado em larga escala em países com infraestrutura logística diversa.

A aprovação da vacina Sinopharm foi um passo fundamental para que o Egito pudesse dar início à sua campanha de vacinação em massa, que ao longo do ano de 2021 vacinou milhões de cidadãos e contribuiu para a redução do número de casos graves e mortes pela Covid-19.

Perguntas Frequentes

  • A vacina Sinopharm é segura para uso emergencial? Sim. A vacina foi aprovada por diversas agências reguladoras nacionais rigorosas, incluindo a Autoridade Nacional de Produtos Médicos da China (NMPA) e a Agência Reguladora de Medicamentos do Egito (EDA), além de ter recebido a validação da OMS para uso emergencial.
  • Quantas doses são necessárias para a imunização completa? O esquema vacinal completo consiste em duas doses, administradas com um intervalo recomendado de 21 a 28 dias entre a primeira e a segunda aplicação.
  • Quais foram os principais efeitos colaterais relatados? Os efeitos colaterais mais comuns foram leves a moderados, incluindo dor no local da injeção, fadiga, dor de cabeça, dores musculares e febre baixa. Eventos adversos graves foram extremamente raros.
  • A vacina protege contra as variantes do coronavírus? Estudos de efetividade do mundo real indicaram que a vacina manteve proteção robusta contra hospitalização e morte para a maioria das variantes que circularam durante seu período de uso principal, embora a eficácia contra infecção sintomática tenha sido menor para a variante Ômicron.
  • A vacina pode ser armazenada em geladeiras comuns? Sim. Uma das grandes vantagens da vacina é sua estabilidade térmica, podendo ser armazenada em temperaturas entre 2°C e 8°C, o mesmo que uma geladeira comum, simplificando a logística de distribuição.