No início de janeiro de 2021, enquanto o Brasil ainda se preparava para iniciar a vacinação contra a Covid-19, um movimento inusitado ganhou destaque: clínicas privadas brasileiras iniciaram negociações para adquirir diretamente da Índia doses da vacina Covaxin, desenvolvida pelo laboratório Bharat Biotech. A informação, divulgada pelo InfoMoney, acendeu um debate sobre o papel da iniciativa privada na imunização da população. A proposta envolvia a compra de até 10 milhões de doses para aplicação em beneficiários de planos de saúde, o que poderia acelerar a imunização de milhões de brasileiros antes do início da campanha oficial.

O que é a Covaxin?

A Covaxin é uma vacina de vírus inativado contra a Covid-19, desenvolvida pela Bharat Biotech em parceria com o Indian Council of Medical Research (ICMR). Trata-se de uma tecnologia tradicional, semelhante à usada em vacinas contra a gripe. Em janeiro de 2021, a Covaxin já havia recebido autorização emergencial na Índia, com estudos de fase 3 ainda em andamento. Os primeiros resultados indicavam eficácia superior a 80%, embora os dados completos só tenham sido divulgados posteriormente. A vacina exigia armazenamento entre 2°C e 8°C, o que facilitava a logística de distribuição, e seu custo de produção era relativamente baixo, fatores que atraíram o interesse de compradores internacionais.

As negociações com a Índia

De acordo com a apuração do InfoMoney, representantes de associações de clínicas particulares, como a Abramge (Associação Brasileira de Medicina de Grupo) e a Fenasaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar), mantiveram contatos com intermediários indianos para viabilizar a compra de lotes da Covaxin. O valor estimado por dose girava entre US$ 10 e US$ 15, valor superior ao das vacinas negociadas pelo governo federal, mas considerado viável pelo setor privado. As clínicas argumentavam que a iniciativa poderia reduzir a pressão sobre o sistema público de saúde, permitindo que o SUS focasse nos grupos prioritários. As tratativas avançaram durante a primeira semana de janeiro, com reuniões entre executivos de operadoras de saúde e representantes do laboratório indiano. A expectativa era fechar um contrato preliminar ainda naquele mês, mas a complexidade regulatória e a ausência de um canal oficial de importação frearam o processo.

Reação da Anvisa e do Ministério da Saúde

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reagiu com cautela. Em nota, afirmou que qualquer vacina utilizada no Brasil precisaria passar por análise rigorosa de segurança e eficácia, e que até aquele momento não havia recebido pedido formal de autorização para a Covaxin. O Ministério da Saúde reforçou que a vacinação seria prioritariamente realizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), seguindo o Plano Nacional de Imunização (PNI), e que a compra privada poderia desorganizar a logística da campanha oficial. A negociação gerou preocupação também entre especialistas em saúde pública, que temiam que o acesso à vacina se tornasse desigual, privilegiando quem pudesse pagar.

O cenário da vacinação no Brasil

No início de janeiro de 2021, o Brasil enfrentava uma das piores fases da pandemia, com recordes de casos e mortes. O governo federal havia firmado acordos para aquisição da CoronaVac (Sinovac/Butantan) e da vacina de Oxford/AstraZeneca (Fiocruz), mas nenhuma delas tinha ainda autorização para uso emergencial. A demora na aprovação e distribuição gerava ansiedade na população e levou à busca por alternativas no exterior. A campanha nacional de vacinação só começou em 17 de janeiro, após a Anvisa conceder o uso emergencial às duas vacinas. Até lá, a ideia de que clínicas privadas pudessem importar vacinas ganhou força entre os que desejavam se imunizar mais rapidamente.

Desfecho das negociações

Apesar do avanço inicial das conversas, a compra da Covaxin por clínicas privadas não se concretizou. As barreiras regulatórias, a falta de autorização da Anvisa e a mudança no cenário global de vacinas — com a aceleração da produção nacional e a chegada de novos imunizantes — fizeram com que o projeto perdesse força. Em março de 2021, o Ministério da Saúde chegou a negociar diretamente com a Bharat Biotech a compra de 20 milhões de doses da Covaxin, em um contrato que mais tarde seria alvo de investigações na CPI da Covid, mas essa transação ocorreu na esfera pública, sem participação do setor privado. A experiência, no entanto, expôs a falta de coordenação entre os setores público e privado e a necessidade de mecanismos legais claros para situações de emergência sanitária.

Perguntas frequentes

Por que clínicas particulares queriam comprar vacinas diretamente?

As clínicas buscavam antecipar a imunização de seus clientes em um momento de incerteza sobre o cronograma oficial de vacinação, especialmente diante da demora na aprovação e distribuição das vacinas no Brasil. A expectativa era de que milhões de doses pudessem chegar antes do início da campanha do SUS.

A vacina indiana Covaxin era segura?

A Covaxin havia recebido autorização emergencial na Índia, mas ainda não tinha aprovação da Anvisa. A agência brasileira exigia a apresentação de dados completos de eficácia e segurança antes de autorizar seu uso no país. Estudos posteriores confirmaram a eficácia da vacina, mas à época as informações ainda eram parciais.

A vacinação privada foi permitida no Brasil?

Na época, o governo federal defendia que a vacinação deveria ser prioritariamente pública e coordenada pelo SUS. A compra privada de vacinas estrangeiras não foi explicitamente proibida, mas esbarrava em exigências regulatórias da Anvisa e na falta de definição legal, o que inviabilizou as negociações das clínicas.

A Covaxin chegou a ser usada no Brasil?

A Covaxin não chegou a ser aplicada em larga escala no Brasil. O contrato firmado pelo Ministério da Saúde em março de 2021 foi suspenso após suspeitas de irregularidades, e apenas uma pequena quantidade de doses foi importada para uso em estudos clínicos. A vacina não integrou a campanha nacional de imunização.