O Irã anunciou no início de janeiro de 2021 que retomou o enriquecimento de urânio a 20%, o nível mais alto desde a assinatura do acordo nuclear de 2015. A decisão representa mais uma violação do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA) e acirra as tensões com os Estados Unidos e aliados europeus, que buscam preservar o pacto. O anúncio ocorre em meio à aprovação de uma lei pelo parlamento iraniano que exige medidas retaliatórias caso as sanções não sejam aliviadas.

Contexto do acordo nuclear

O JCPOA, firmado em 2015 entre o Irã e o grupo P5+1 (EUA, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha), impôs limites rigorosos ao programa nuclear iraniano em troca do alívio de sanções econômicas. O tratado permitia o enriquecimento a até 3,67%, com estoque máximo de 300 kg de hexafluoreto de urânio. Centrífugas avançadas foram limitadas e a instalação subterrânea de Fordow foi convertida em centro de pesquisa. Em 2018, o então presidente Donald Trump retirou os EUA do acordo e reimpôs sanções severas, levando o Irã a se afastar gradualmente de seus compromissos a partir de 2019.

Escalonamento progressivo

Desde 2019, o Irã ultrapassou os limites de estoque e pureza permitidos. Primeiro, elevou o enriquecimento para 4,5%, depois para 20% — um nível que não alcançava desde antes do acordo. Embora o urânio enriquecido a 20% esteja longe do teor necessário para armas nucleares (acima de 90%), o passo preocupa por encurtar o tempo necessário para produzir material físsil e por sinalizar o contínuo enfraquecimento do pacto. Em Fordow, centrífugas IR-6 passaram a operar, reduzindo o ciclo de enriquecimento. A AIEA monitora as atividades, mas o acesso da agência foi limitado após a aprovação da nova lei iraniana.

Lei aprovada pelo parlamento iraniano

Em dezembro de 2020, o parlamento iraniano aprovou uma lei que determina a retomada do enriquecimento a 20% e a suspensão das inspeções da AIEA caso as sanções não fossem suspensas. O governo do presidente Hassan Rohani, inicialmente relutante, acabou implementando a medida após forte pressão de setores conservadores. A lei também exige a produção de pelo menos 120 kg de urânio enriquecido por ano e a instalação de centrífugas mais modernas. Para Teerã, a legislação é uma resposta à pressão máxima exercida por Washington desde 2018.

Reação internacional

A AIEA confirmou que o Irã iniciou o enriquecimento a 20% em Fordow e solicitou acesso total para verificação, mas encontrou resistência. A União Europeia manifestou grande preocupação e pediu que o Irã revertesse a medida, alertando para o risco de colapso definitivo do acordo. Os Estados Unidos, sob a nova administração de Joe Biden, indicaram disposição para retornar ao JCPOA, mas condicionaram o alívio de sanções à volta do Irã ao cumprimento pleno. O governo iraniano exige o fim imediato das sanções como condição para recuar. Israel classificou a decisão como "ameaça grave" e afirmou que não permitirá que o Irã obtenha capacidade nuclear, aumentando o risco de confronto militar na região.

Implicações para o acordo e o cenário regional

A retomada do enriquecimento a 20% complica os esforços diplomáticos. Analistas consideram que a medida pode ser uma estratégia de Teerã para aumentar seu poder de barganha com a nova administração americana, mas também arrisca uma escalada militar se Israel ou os EUA considerarem ação preventiva. A Europa tenta mediar, mas a janela para salvar o acordo se estreita. Biden sinalizou disposição ao reengajamento, mas ambos os lados mantêm posições firmes. Especialistas apontam que o Irã busca consolidar fatos no terreno antes de qualquer negociação, elevando o custo de um eventual recuo. A instabilidade na região, que já envolve conflitos no Iêmen, Síria e Líbano, pode se agravar com a percepção de que o programa nuclear iraniano avança sem barreiras efetivas.

Pontos-chave

  • Irã enriquece urânio a 20% em Fordow, violando o JCPOA.
  • País já havia superado os limites de estoque e pureza desde 2019.
  • Lei aprovada pelo parlamento iraniano exige medidas retaliatórias contra sanções.
  • AIEA monitora, mas tem acesso limitado às instalações.
  • Joe Biden assume a presidência dos EUA com promessa de reavaliar a política nuclear.
  • União Europeia tenta mediar retorno ao acordo, mas sem avanços concretos.
  • Israel considera a medida uma ameaça existencial e promete agir se necessário.
  • Urânio a 20% reduz o tempo de enriquecimento para nível militar, mas ainda é insuficiente para uma bomba.
  • Perspectivas de restauração do acordo permanecem incertas.

Perguntas frequentes (FAQ)

O que é o JCPOA?

O JCPOA (Joint Comprehensive Plan of Action) é o acordo nuclear firmado em 2015 entre o Irã e o grupo P5+1. Ele limitava o programa nuclear iraniano em troca da suspensão de sanções econômicas. Com a saída dos EUA em 2018, o Irã começou a descumprir gradualmente os limites.

Por que o enriquecimento a 20% é significativo?

O urânio enriquecido a 20% está muito acima dos 3,67% permitidos pelo acordo e reduz significativamente o tempo necessário para alcançar o teor de 90% (grau militar). Embora não seja diretamente usado em armas, o material a 20% é considerado um passo crítico, pois, uma vez produzido, o salto para 90% pode ser feito em questão de dias.

O Irã está perto de ter uma bomba atômica?

Segundo a AIEA, o Irã ainda não possui urânio enriquecido a 90% nem um dispositivo nuclear pronto. Especialistas estimam que, com o urânio a 20%, o país poderia produzir material físsil suficiente para uma ogiva em algumas semanas, se decidisse fazê-lo. No entanto, a construção de uma arma funcional exigiria mais tempo e não há evidências de que o Irã tenha tomado a decisão de fabricar uma bomba.

Quais as chances de o acordo ser restaurado?

As chances dependem da disposição de ambas as partes. O governo Biden sinalizou interesse em retornar ao JCPOA, mas exige que o Irã volte a cumprir os limites. O Irã, por sua vez, insiste no fim imediato de todas as sanções. As negociações indiretas em Viena ao longo de 2021 mostraram avanços, mas o impasse persistiu. A retomada do enriquecimento a 20% tornou a restauração mais complexa.