Em dezembro de 2020, a comunidade científica foi alertada para a emergência de duas novas linhagens do SARS-CoV-2: a B.1.1.7, detectada no Reino Unido, e a 501Y.V2 (B.1.351), identificada na África do Sul. Ambas compartilham a mutação N501Y na proteína spike, que parece aumentar a afinidade do vírus pelo receptor ACE2, tornando-as potencialmente mais transmissíveis. No entanto, cada uma apresenta um conjunto distinto de mutações que podem influenciar sua propagação, resposta imunológica e impacto nas estratégias de controle. Este artigo reúne o que se sabe até o início de janeiro de 2021, com base em estudos preliminares, comunicações de centros de pesquisa e posicionamentos de agências reguladoras como a OMS e a Anvisa.
Variante B.1.1.7 (Reino Unido)
A linhagem B.1.1.7, também conhecida como VOC 202012/01, foi identificada pela primeira vez em Kent, no sudeste da Inglaterra, em setembro de 2020. Em poucas semanas, ela se tornou a variante dominante no Reino Unido, com um crescimento exponencial nos casos. Estudos do Imperial College London e do Public Health England apontaram que sua transmissibilidade é entre 40% e 70% maior do que as cepas previamente circulantes. O aumento da transmissão parece estar associado não apenas à mutação N501Y, mas também à deleção H69-V70 na proteína spike, que possivelmente confere vantagem replicativa.
Embora a variante seja mais contagiosa, análises preliminares não detectaram aumento na gravidade da doença nem na taxa de letalidade. No entanto, o crescimento rápido no número de casos levou a um aumento de hospitalizações, sobrecarregando sistemas de saúde. Testes de PCR com detecção do gene S (target failure) permitiram que a variante fosse monitorada de forma eficiente, já que a deleção H69-V70 causa falha na amplificação do gene S em alguns kits.
Em resposta à rápida disseminação, dezenas de países impuseram restrições de viagem ao Reino Unido. A OMS classificou a B.1.1.7 como “Variante de Preocupação” (VOC) em 18 de dezembro de 2020. Até o início de janeiro de 2021, casos já haviam sido confirmados em mais de 50 países, incluindo Brasil, Estados Unidos, Alemanha, França, Japão e Austrália.
Variante 501Y.V2 (África do Sul)
A variante 501Y.V2, designada posteriormente como B.1.351, foi detectada por cientistas do Network for Genomic Surveillance na África do Sul em outubro de 2020, com rápida expansão nas províncias do Cabo Oriental, Cabo Ocidental e KwaZulu-Natal. Além da mutação N501Y, essa linhagem carrega mutações importantes como K417N e E484K na proteína spike. A mutação E484K gerou preocupação especial por estar localizada no domínio de ligação ao receptor (RBD) e ser capaz de reduzir a neutralização por anticorpos de indivíduos previamente infectados ou vacinados.
Estudos conduzidos pelo National Institute for Communicable Diseases (NICD) da África do Sul indicaram que a variante pode estar associada a uma maior carga viral e a um risco aumentado de reinfecção. Um estudo de laboratório mostrou que o soro de pacientes convalescentes tinha capacidade reduzida de neutralizar a 501Y.V2 em comparação com as cepas anteriores. Esse achado reacendeu o debate sobre a possibilidade de que a imunidade natural ou induzida por vacinas pudesse ser contornada.
Assim como no caso do Reino Unido, diversos países suspenderam voos da África do Sul. A OMS classificou a 501Y.V2 como VOC em 30 de dezembro de 2020. Até janeiro de 2021, a variante já havia sido identificada em pelo menos 20 países, incluindo França, Alemanha, Suíça, Japão, Coréia do Sul e Brasil (em viajantes).
Diferenças e semelhanças entre as variantes
Ambas as variantes compartilham a mutação N501Y, que aumenta a afinidade da proteína spike pelo receptor ACE2, facilitando a entrada do vírus. No entanto, a B.1.1.7 apresenta além disso a deleção H69-V70, enquanto a B.1.351 possui mutações adicionais no RBD (K417N, E484K). A mutação E484K na variante sul-africana é particularmente alarmante, pois pode escapar parcialmente da imunidade humoral. Já a variante britânica não mostrou evidências de escape imunológico significativo até o momento.
Uma diferença importante é a velocidade de disseminação: a B.1.1.7 rapidamente se tornou dominante no Reino Unido e em outros países, enquanto a B.1.351 manteve uma distribuição mais concentrada, embora também tenha se mostrado capaz de substituir linhagens anteriores na África do Sul.
Impacto nas vacinas e tratamentos
As fabricantes de vacinas realizaram testes para avaliar a eficácia de seus imunizantes contra as novas variantes. A Pfizer/BioNTech, em estudos in vitro publicados em janeiro de 2021, relatou que sua vacina de mRNA (BNT162b2) ainda neutralizava a B.1.1.7 e a 501Y.V2, embora com uma redução de cerca de dois terços nos títulos de anticorpos para a cepa sul-africana. A empresa afirmou que acreditava que a vacina continuava eficaz e que estava pronta para ajustar o imunizante em seis semanas, se necessário.
A Moderna publicou dados semelhantes: sua vacina mRNA-1273 induziu títulos de anticorpos contra a B.1.351, mas com uma queda de aproximadamente 6 vezes em comparação com a cepa original. A empresa anunciou que desenvolveu uma dose de reforço específica para a variante sul-africana e iniciou testes clínicos.
A Universidade de Oxford, em parceria com a AstraZeneca, divulgou que sua vacina ChAdOx1 nCoV-2019 era eficaz contra a B.1.1.7, mas apresentou eficácia significativamente reduzida para casos leves e moderados causados pela B.1.351 em um estudo realizado na África do Sul. Apesar disso, não houve casos de hospitalização ou óbito entre os participantes vacinados, sugerindo a manutenção da proteção contra formas graves.
No campo dos tratamentos, a mutação E484K mostrou resistência a alguns anticorpos monoclonais, especialmente ao bamlanivimabe, exigindo combinações de anticorpos. As autoridades de saúde passaram a recomendar a combinação de anticorpos monoclonais ou o uso de alternativas como o Regeneron para garantir eficácia contra essa variante.
Cenário no Brasil
O Brasil, que já enfrentava uma segunda onda impulsionada pela variante P.1 (B.1.1.28.1) identificada em Manaus, registrou a entrada das variantes B.1.1.7 e B.1.351 no final de dezembro de 2020 e início de janeiro de 2021. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu recomendações para que as companhias aéreas e viajantes apresentassem exames negativos de covid-19 e implementou barreiras sanitárias nos principais aeroportos. O Ministério da Saúde ampliou o sequenciamento genômico para monitorar a circulação das novas linhagens.
Especialistas alertaram que, com a alta de casos no país, a introdução de variantes mais transmissíveis poderia agravar ainda mais a situação, pressionando o sistema de saúde. A vacinação, que começava a ser realizada em janeiro de 2021 com a CoronaVac e a Oxford/AstraZeneca, foi apontada como crucial para reduzir hospitalizações e mortes.
Perguntas frequentes
As variantes são mais letais?
Não há evidências sólidas de que as variantes B.1.1.7 ou 501Y.V2 causem maior letalidade. Estudos iniciais não mostraram aumento na gravidade da doença para pacientes infectados por essas linhagens. O maior número de mortes observado em alguns locais deve-se ao aumento do número total de casos.
Posso ser reinfectado por uma variante?
Sim. Há relatos de reinfecção pela variante B.1.351 em pessoas que já haviam contraído o coronavírus. A mutação E484K está associada a uma redução na capacidade de neutralização por anticorpos pré-existentes. Por isso, mesmo quem já teve covid-19 deve manter todas as medidas de prevenção.
As vacinas atuais protegem contra as variantes?
Sim, as vacinas continuam protegendo contra formas graves da covid-19, mesmo para as variantes britânica e sul-africana. Embora a eficácia contra casos leves e moderados possa ser reduzida para a B.1.351, a proteção contra hospitalização e morte foi mantida nos estudos.
Os testes RT-PCR detectam as variantes?
A maioria dos testes RT-PCR continua detectando a presença do vírus, independentemente da variante. No entanto, alguns testes podem apresentar falha na amplificação do gene S para a variante B.1.1.7, o que, paradoxalmente, se tornou um marcador útil para rastrear sua disseminação.
As vacinas precisarão ser atualizadas?
Sim, as farmacêuticas já se preparam para criar versões atualizadas das vacinas, caso a eficácia contra variantes diminua significativamente. A Moderna e a Pfizer anunciaram que poderiam modificar suas vacinas de mRNA em poucas semanas, e a OMS estabeleceu diretrizes para a atualização periódica dos imunizantes.
O que as pessoas devem fazer para se proteger?
As recomendações permanecem as mesmas: usar máscaras cobrindo nariz e boca, lavar as mãos com frequência, manter distanciamento físico, evitar aglomerações e ambientes fechados, e vacinar-se assim que elegível.
Como as autoridades estão monitorando as variantes?
O sequenciamento genômico é a principal ferramenta para identificar novas linhagens e monitorar sua propagação. Países como Reino Unido, África do Sul e Brasil intensificaram a vigilância genômica. A OMS recomenda que todos os países aumentem sua capacidade de sequenciamento e compartilhem dados em plataformas abertas, como a GISAID.
Resumo dos pontos principais
- Variante B.1.1.7 (Reino Unido): 40-70% mais transmissível, sem evidência de maior gravidade; vacinas com eficácia mantida.
- Variante 501Y.V2 (África do Sul): mutação E484K associada a escape imunológico; risco de reinfecção; vacinas têm eficácia reduzida para casos leves, mas proteção contra casos graves.
- Ambas as variantes foram classificadas como preocupantes pela OMS e detectadas em diversos países, incluindo o Brasil.
- Medidas preventivas e vacinação em massa continuam sendo as principais estratégias para conter a pandemia.
Embora as variantes representem um novo desafio na pandemia, o conhecimento científico acumulado desde o início da crise e a capacidade de adaptação rápida das vacinas trazem esperança. A combinação de vacinação, sequenciamento genômico e continuidade das medidas não farmacológicas é o caminho mais eficaz para superar essa fase.
Fonte: VivaBem