Uma menina de 6 anos de Alagoas entrou em coma após uma reação grave à covid-19. O caso foi divulgado pelo site Alagoas 24 Horas e gerou comoção. A mãe da criança, que acreditava inicialmente se tratar de catapora, relatou os sintomas e a rápida deterioração do quadro. O episódio reforça a necessidade de atenção aos sinais atípicos da doença em crianças.

De acordo com a mãe, a menina começou com febre alta e manchas avermelhadas pelo corpo. Como a catapora é comum na infância e causa lesões semelhantes, a família pensou que fosse uma varicela. No entanto, em poucos dias o estado piorou: a criança passou a ter dificuldade para respirar, cansaço extremo e queda da saturação de oxigênio. Levada a uma unidade de saúde, foi internada imediatamente na UTI, onde precisou ser intubada e sedada, entrando em coma induzido. Exames laboratoriais confirmaram infecção pelo SARS-CoV-2 e descartaram o vírus da varicela.

Casos como esse, embora raros, acenderam um alerta na comunidade médica sobre a capacidade do novo coronavírus de desencadear respostas inflamatórias severas em crianças, mesmo naquelas sem condições preexistentes. A identificação precoce desses quadros é fundamental para evitar desfechos fatais e minimizar sequelas.

Reações graves à covid-19 em crianças

A maioria das crianças infectadas pelo SARS-CoV-2 apresenta sintomas leves ou é assintomática. No entanto, uma minoria desenvolve quadros graves, como a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (MIS-C), que foi descrita pela primeira vez em meados de 2020. A MIS-C é caracterizada por febre persistente, inflamação generalizada e disfunção de múltiplos órgãos, podendo levar ao choque e à necessidade de suporte intensivo. Embora rara, a condição requer atenção especial dos pediatras.

A MIS-C geralmente se manifesta de duas a seis semanas após a infecção aguda, podendo ocorrer mesmo em crianças que tiveram sintomas leves ou foram assintomáticas. Os principais critérios diagnósticos incluem febre alta (≥38°C) por mais de três dias, marcadores inflamatórios elevados (PCR, VHS), disfunção cardíaca, renal ou respiratória, e evidência de infecção recente por SARS-CoV-2. O tratamento inicial é feito com imunoglobulina intravenosa e corticosteroides, e a maioria das crianças responde bem, embora algumas necessitem de cuidados intensivos prolongados. O acompanhamento cardiológico após a alta é recomendado devido ao risco de miocardite e aneurismas coronarianos.

Além da MIS-C, a covid-19 grave em crianças pode se manifestar como pneumonia bilateral, síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) e miocardite. No caso da menina alagoana, a evolução para coma foi consequência da resposta inflamatória descontrolada, que exigiu sedação profunda e ventilação mecânica para proteger o cérebro e manter a oxigenação adequada.

Complicações neurológicas da covid-19 em crianças

O coma da menina de 6 anos também acende o alerta para as complicações neurológicas que o coronavírus pode causar em crianças. Estudos indicam que o SARS-CoV-2 pode invadir o sistema nervoso central, provocando encefalite, meningite e síndromes desmielinizantes. Embora raras, essas complicações estão associadas a quadros graves e exigem acompanhamento neurológico especializado. A recuperação pode ser lenta e requer reabilitação multidisciplinar.

Crianças com comprometimento neurológico podem apresentar convulsões, alteração do nível de consciência, confusão mental e déficits motores ou cognitivos temporários. O coma induzido, neste caso, foi necessário para reduzir o consumo de oxigênio pelo cérebro e controlar a inflamação. Após a estabilização, a criança precisará de fisioterapia motora, terapia ocupacional, fonoaudiologia e acompanhamento psicológico para recuperar as funções afetadas. A literatura mostra que a maioria dos pacientes pediátricos se recupera totalmente, mas alguns podem apresentar sequelas de longo prazo, como dificuldades de aprendizado ou distúrbios do humor.

Catapora ou covid-19? Entenda as diferenças

A catapora, causada pelo vírus varicela-zóster, é caracterizada por vesículas que coçam e evoluem para crostas, surgindo em surtos (mácula → pápula → vesícula → crosta). Já as erupções cutâneas da covid-19 são mais variadas, podendo ser máculas, pápulas, urticária ou lesões vasculares, e costumam ser transitórias, sem um padrão específico. Ambas podem vir acompanhadas de febre, mas a catapora raramente causa dificuldade respiratória. O diagnóstico diferencial é feito por exames laboratoriais (RT-PCR para SARS-CoV-2, sorologia ou pesquisa de varicela).

Outra diferença importante é o período de incubação: a catapora leva de 10 a 21 dias para se manifestar, enquanto a covid-19 costuma aparecer de 2 a 14 dias após a exposição. Além disso, a catapora é altamente contagiosa pelo ar e pelo contato com as lesões; a covid-19 também é contagiosa, principalmente por gotículas respiratórias. Na dúvida, é essencial buscar avaliação médica para evitar confusões e garantir o tratamento adequado.

Sinais de alerta em crianças

Os pais e responsáveis devem ficar atentos aos seguintes sinais que indicam a necessidade de atendimento médico urgente:

  • Febre persistente (acima de 38,5°C) por mais de 3 dias, principalmente se associada a prostração
  • Dificuldade para respirar (respiração rápida, esforço, batimento de asas nasais)
  • Sonolência excessiva ou irritabilidade intensa
  • Manchas ou erupções na pele que não somem
  • Olhos vermelhos (conjuntivite) sem secreção purulenta
  • Lábios rachados, língua em framboesa ou inchaço em mãos e pés (sinais de Kawasaki-like)
  • Dor abdominal intensa, vômitos ou diarreia persistentes
  • Recusa em se alimentar ou sinais de desidratação
  • Confusão mental, convulsão ou alteração do nível de consciência
  • Lábios ou extremidades arroxeados (cianose)

Perguntas frequentes sobre covid-19 em crianças

O que é a Síndrome Inflamatória Multissistêmica (MIS-C)?

É uma complicação grave da covid-19 que ocorre semanas após a infecção, mesmo em crianças que tiveram sintomas leves. Os sintomas incluem febre prolongada, erupções cutâneas, olhos vermelhos, dor abdominal e inflamação generalizada. Exige atendimento urgente e tratamento com imunomoduladores.

Como proteger as crianças da covid-19?

Na época do caso, em janeiro de 2021, a vacinação infantil ainda não estava disponível no Brasil. As medidas de prevenção incluíam higiene das mãos, uso de máscaras para maiores de 2 anos, distanciamento social e isolamento de casos suspeitos. Posteriormente, a vacinação infantil foi aprovada pela Anvisa e incorporada ao calendário nacional, tornando-se a principal ferramenta para prevenir formas graves da doença.

Quais são os primeiros passos se eu suspeitar que meu filho tem covid-19 grave?

Ao notar sinais de alerta, como febre alta persistente, dificuldade respiratória, sonolência excessiva ou lesões na pele, procure imediatamente um pronto-socorro. Não medique a criança por conta própria. Informe ao médico os sintomas e o histórico de contato com pessoas infectadas. O diagnóstico precoce e o suporte intensivo aumentam as chances de recuperação sem sequelas.

A covid-19 em crianças pode deixar sequelas de longo prazo?

A maioria das crianças se recupera totalmente, mas algumas podem apresentar sintomas persistentes como fadiga, dores musculares, dificuldade de concentração (chamada de "covid longa") ou complicações cardíacas após a MIS-C. O acompanhamento pediátrico multidisciplinar é essencial para identificar precocemente qualquer alteração e garantir o desenvolvimento saudável.

Tratamento e reabilitação após o coma

O tratamento da forma grave da covid-19 em crianças exige internação em UTI, com suporte respiratório (ventilação mecânica), sedação contínua, monitorização hemodinâmica e controle da inflamação com medicamentos como imunoglobulina e corticosteroides. Após a fase crítica, a criança é gradualmente desmamada da sedação e da ventilação, iniciando fisioterapia respiratória e motora. A reabilitação pode envolver também terapia ocupacional, fonoaudiologia e apoio psicológico, tanto para a criança quanto para a família. O tempo de recuperação varia de semanas a meses, dependendo da gravidade do quadro e das sequelas. O acompanhamento pediátrico regular é fundamental para garantir que o desenvolvimento neurológico e físico siga dentro do esperado.