Em janeiro de 2021, o governo da Índia anunciou a suspensão das exportações da vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a AstraZeneca e produzida em massa pelo Serum Institute of India (SII). A medida foi tomada em meio a um aumento expressivo de casos da doença no país asiático, que buscava garantir doses suficientes para vacinar sua própria população antes de enviar remessas ao exterior. A decisão gerou apreensão em diversos países, incluindo o Brasil, que dependia do imunizante para dar início ao seu plano de vacinação. O Itamaraty, então, iniciou tratativas urgentes com autoridades indianas para assegurar o cumprimento dos contratos e a liberação das doses já adquiridas pelo governo brasileiro.
Contexto da decisão indiana
A Índia enfrentava, no início de 2021, uma segunda onda de Covid-19 que sobrecarregava seu sistema de saúde. O país produzia grande parte das vacinas do mundo, mas precisava priorizar a imunização de seus mais de 1,3 bilhão de habitantes. O Serum Institute, maior fabricante de vacinas do mundo em volume, era o principal produtor da vacina de Oxford/AstraZeneca. Com a alta demanda global, o governo indiano decidiu restringir as exportações para assegurar o abastecimento interno, afetando países que haviam firmado contratos de fornecimento.
Impacto no plano de vacinação brasileiro
O Brasil havia assinado um acordo com o Serum Institute para a aquisição de 2 milhões de doses prontas da vacina de Oxford/AstraZeneca, com previsão de entrega ainda em janeiro. Além disso, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mantinha um contrato de encomenda tecnológica que previa a produção local de até 100 milhões de doses do imunizante, o que tornava a parceria com a Índia estratégica para o Programa Nacional de Imunizações (PNI). A suspensão das exportações colocou em risco o calendário de vacinação e gerou incertezas sobre o início da campanha no Brasil.
A atuação do Itamaraty
O Ministério das Relações Exteriores mobilizou sua embaixada em Nova Déli e estabeleceu contato direto entre o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, e o governo indiano. As negociações envolveram não apenas o aspecto comercial, mas também a dimensão diplomática, reforçando os laços históricos entre os dois países. O governo brasileiro argumentou que a liberação das doses era essencial para o enfrentamento da pandemia no Brasil, que já registrava mais de 8 milhões de casos e 200 mil mortes. A pressão diplomática foi acompanhada de gestos de boa vontade, como a oferta de cooperação em outras áreas.
Liberação das doses e chegada ao Brasil
Após intensas conversas, o governo indiano autorizou a exportação de 2 milhões de doses da vacina ao Brasil. As doses chegaram ao Aeroporto de Guarulhos no final de janeiro de 2021 em uma aeronave da Força Aérea Brasileira. A remessa foi recebida como um alívio pelas autoridades sanitárias, que puderam dar continuidade à campanha de vacinação iniciada dias antes. A liberação foi vista como um sinal de boa vontade da Índia e um exemplo de cooperação internacional em meio à pandemia.
A produção local pela Fiocruz
Além das doses prontas, o Brasil buscava acelerar a transferência de tecnologia para produzir o imunizante localmente. A Fiocruz já havia iniciado o processo de envase e finalização do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) enviado pela Índia. Ao longo de 2021, a fundação passou a produzir integralmente a vacina no Rio de Janeiro, garantindo o abastecimento do PNI sem depender exclusivamente de importações. A produção local foi fundamental para que o Brasil pudesse vacinar sua população em larga escala ao longo do ano.
Importância da vacina de Oxford/AstraZeneca
A vacina de Oxford/AstraZeneca se mostrou uma das principais ferramentas no combate à Covid-19 no Brasil. Com eficácia global de cerca de 70% e proteção contra formas graves da doença, ela foi amplamente utilizada na campanha de vacinação, especialmente para adultos e idosos. Sua logística, que permite armazenamento em refrigeradores comuns (entre 2°C e 8°C), facilitou a distribuição em todo o território nacional, inclusive em regiões remotas da Amazônia e do Nordeste. A vacina também foi aplicada como dose de reforço em milhões de brasileiros.
Lições para o futuro
O episódio destacou a fragilidade da dependência externa de insumos farmacêuticos e a importância de investimentos em capacidade produtiva local. O Brasil, que já possuía uma estrutura de produção de vacinas por meio da Fiocruz e do Instituto Butantan, viu a necessidade de ampliar a autonomia tecnológica. A crise também reforçou o papel da diplomacia na garantia de acesso a vacinas durante emergências sanitárias globais, evidenciando a necessidade de mecanismos multilaterais como o Covax.
Resumo dos principais pontos
- A Índia suspendeu exportações da vacina Oxford/AstraZeneca em janeiro de 2021 para priorizar sua própria população.
- O Brasil tinha acordo de 2 milhões de doses prontas e contrato para produção local de 100 milhões de doses.
- O Itamaraty negociou diretamente com o governo indiano a liberação das doses.
- 2 milhões de doses chegaram ao Brasil no final de janeiro de 2021.
- A Fiocruz acelerou a produção local da vacina, garantindo o abastecimento do PNI.
- A vacina de Oxford/AstraZeneca foi essencial para a imunização da população brasileira.
- O caso evidenciou a importância da autonomia produtiva e da cooperação internacional.
Perguntas frequentes
- Por que a Índia suspendeu as exportações da vacina?
- Devido ao aumento de casos de Covid-19 na Índia, que precisava garantir a vacinação prioritária de sua própria população.
- Quantas doses o Brasil havia contratado com a Índia?
- O contrato inicial previa 2 milhões de doses prontas, além de um acordo para transferência de tecnologia e produção local de até 100 milhões de doses pela Fiocruz.
- Como o Itamaraty conseguiu reverter a suspensão?
- Por meio de contatos diplomáticos diretos, incluindo conversas entre os chanceleres e a embaixada em Nova Déli, que argumentaram a importância das doses para o Brasil.
- As doses realmente chegaram ao Brasil?
- Sim, 2 milhões de doses chegaram no final de janeiro de 2021, transportadas pela Força Aérea Brasileira.
- Qual foi o papel da Fiocruz nesse processo?
- A Fiocruz foi responsável por envasar e finalizar o IFA importado e, posteriormente, produzir integralmente a vacina no Brasil, garantindo a autossuficiência.
- A vacina de Oxford/AstraZeneca é segura e eficaz?
- Sim, estudos clínicos comprovaram sua eficácia global de cerca de 70% e proteção contra casos graves e óbitos, sendo aprovada pela ANVISA e pela OMS.
- O que é o Covax?
- O Covax Facility é um mecanismo global de acesso equitativo a vacinas, coordenado pela OMS, que busca garantir que países de baixa renda também tenham acesso aos imunizantes.