Em meio à pandemia de Covid-19, o Brasil deu um passo importante na busca por vacinas. No dia 13 de janeiro de 2021, um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) decolou com destino à Índia para buscar 2 milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca. O anúncio foi feito pelo ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que afirmou que a aeronave partiu naquela quarta-feira.

A operação, batizada de "Operação Vacina", envolveu uma logística especial para transporte de imunizantes em condições controladas de temperatura. O voo, realizado por um KC-390, partiu da Base Aérea de Brasília e seguiu para Mumbai, na Índia, onde o Serum Institute produzia as vacinas sob licença da AstraZeneca.

O Serum Institute of India, maior fabricante de vacinas do mundo, havia fechado um acordo com a AstraZeneca para produzir 1 bilhão de doses para países em desenvolvimento. O Brasil foi um dos primeiros a receber remessas do laboratório indiano. As 2 milhões de doses transportadas neste voo representavam apenas o início de uma parceria maior: o contrato entre a Fiocruz e a AstraZeneca previa a transferência de tecnologia para a produção nacional do imunizante, com a chegada de Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) para a fabricação de até 100 milhões de doses ao longo de 2021.

A escolha do KC-390 — aeronave multimissão projetada pela Embraer — foi estratégica: a cabine pressurizada permitia controle de temperatura entre 2 °C e 8 °C durante todo o trajeto, fundamental para preservar as vacinas. A aeronave tem capacidade de carga de até 23 toneladas e autonomia para voos diretos de longa distância, tornando-se ideal para missões desse porte.

Na época, o Brasil vivia um momento crítico da pandemia, com mais de 200 mil mortes registradas e o sistema de saúde sob pressão. A aprovação emergencial das vacinas Oxford/AstraZeneca e CoronaVac pela Anvisa no dia 17 de janeiro de 2021 abriu caminho para a imunização em massa. A vacina de Oxford, com eficácia global de 70,4% e armazenamento em refrigeradores comuns, foi vista como a principal aposta para acelerar a campanha.

Pazuello destacou o esforço diplomático para garantir as doses. "Temos uma parceria sólida com o governo da Índia e com o Serum Institute. A decolagem de hoje é fruto de negociações intensas", afirmou em coletiva de imprensa. A aeronave deveria retornar ao Brasil ainda na sexta-feira, 15 de janeiro, com as vacinas acondicionadas em contêineres térmicos especiais.

A chegada das doses foi recebida com otimismo por autoridades de saúde e pela população. O plano nacional de vacinação priorizava profissionais de saúde, idosos e povos indígenas na primeira fase. A expectativa era de que, com as 2 milhões de doses, fosse possível iniciar a imunização logo após a autorização da Anvisa.

Este episódio marcou um momento de cooperação internacional em meio ao nacionalismo vacinal que dominava o cenário global. Enquanto países ricos estocavam doses, a Índia desempenhava um papel crucial como fornecedora para dezenas de países, até que a variante Delta interrompesse suas exportações em março de 2021. O voo do KC-390 foi, portanto, um símbolo da corrida global por vacinas e da esperança de controle da pandemia.