Uma equipe de reportagem da TV argentina que cobria a concentração do Boca Juniors na véspera de uma partida importante registrou uma reclamação incomum: fogos de artifício disparados nas proximidades do hotel da delegação durante a madrugada. O repórter, claramente irritado, afirmou que a situação já se tornou corriqueira. "Sempre fazem isso. Não é novidade. Toda vez que o Boca vai jogar uma partida decisiva, os torcedores adversários vêm para perto do hotel soltar fogos", disse o jornalista.

O incidente ocorreu na noite de terça-feira, 12 de janeiro de 2021, quando o elenco do Boca Juniors se preparava para um confronto válido pela Copa Libertadores da América. De acordo com relatos, um grupo de torcedores do time adversário se posicionou em frente ao hotel e acionou artefatos pirotécnicos por aproximadamente 40 minutos, impedindo que jogadores e comissão técnica tivessem uma noite de sono adequada.

Este tipo de estratégia, conhecida informalmente como "guerra de fogos" ou "apronto", é uma prática antiga no futebol sul-americano. Torcedores utilizam rojões, morteiros e outros fogos de artifício para criar barulho intenso durante a madrugada, na esperança de prejudicar o desempenho físico e mental dos atletas adversários. Embora não haja contato físico, o impacto psicológico e a privação de sono podem influenciar o rendimento em campo.

A Argentina, em particular, tem um histórico de episódios envolvendo fogos em hotéis de clubes rivais. Em 2019, antes da final da Copa Libertadores entre Flamengo e River Plate, torcedores do River acenderam fogos próximo ao hotel do Flamengo no Rio de Janeiro. Em 2020, o Santos também reportou situação semelhante quando enfrentou o Boca Juniors na semifinal da competição. Na ocasião, o técnico santista reclamou publicamente do barulho.

A TV argentina, que preferiu não se identificar para evitar retaliações, destacou que a segurança do hotel foi acionada, mas os torcedores dispersaram antes da chegada da polícia. "É frustrante. A gente sabe que vai acontecer, mas não tem como impedir. Os caras vêm, soltam os fogos e vão embora. A polícia nunca chega a tempo", completou o repórter.

O Boca Juniors, por meio de sua assessoria de imprensa, não se manifestou oficialmente sobre o ocorrido. No entanto, internamente, o departamento de futebol já teria solicitado às autoridades locais um reforço na segurança durante as concentrações, especialmente em jogos decisivos.

Especialistas em segurança esportiva apontam que a utilização de fogos de artifício como forma de pressão psicológica é difícil de coibir, pois os torcedores agem rapidamente e em locais de difícil acesso. "A solução passa por um policiamento ostensivo nas imediações dos hotéis e por campanhas de conscientização da torcida", afirmou um analista de segurança ouvido pela reportagem.

Do ponto de vista legal, a perturbação do sossego é considerada contravenção penal no Brasil e também na Argentina, com penas que variam de multa a detenção. Contudo, na prática, raramente os responsáveis são identificados e punidos. A impunidade estimula a repetição da prática.

A prática de usar fogos para perturbar adversários não é exclusividade do futebol argentino. No Brasil, há registros de episódios semelhantes envolvendo clubes como Flamengo, Palmeiras, Corinthians e Grêmio. Em 2018, antes de um jogo decisivo do Campeonato Brasileiro, torcedores de um grande clube paulista acenderam fogos próximo ao hotel do time visitante durante toda a noite. O fato gerou protestos da diretoria visitante e ampla cobertura da imprensa.

A Conmebol, entidade máxima do futebol sul-americano, já se manifestou em algumas ocasiões repudiando esse tipo de comportamento, mas não há medidas específicas de punição aos clubes cujos torcedores pratiquem esses atos. A responsabilidade acaba recaindo sobre as autoridades locais e a segurança privada dos hotéis.

Para o jogo que se aproxima, o Boca Juniors mantém a rotina de concentração, mas com um reforço na segurança particular. A delegação optou por mudar de hotel em algumas oportunidades no passado, mas a logística nem sempre permite. Enquanto isso, a TV argentina segue cobrindo os bastidores, agora com um olhar ainda mais atento para a questão dos fogos.

Outros casos semelhantes

  • 2019 – Torcedores do River Plate soltam fogos no hotel do Flamengo antes da final da Libertadores em Lima.
  • 2020 – Torcedores do Boca Juniors são acusados de perturbar o hotel do Santos na semifinal da Libertadores.
  • 2018 – Torcedores do Palmeiras acionam fogos no hotel do Corinthians antes do clássico.
  • 2017 – Torcedores do Grêmio reclamam de fogos no hotel do time adversário em Porto Alegre.

Perguntas frequentes sobre fogos em concentrações

Por que os torcedores usam fogos para atrapalhar os adversários?

A principal motivação é prejudicar o descanso dos jogadores, afetando seu desempenho físico e mental na partida. O barulho intenso durante a madrugada dificulta o sono e pode gerar estresse adicional.

Essa prática é proibida?

Sim. A perturbação do sossego é uma contravenção penal prevista no código de cada país, podendo resultar em multa e até detenção. Além disso, o uso de fogos de artifício em áreas residenciais sem autorização também infringe normas de segurança.

O que os clubes podem fazer para se proteger?

Os clubes podem solicitar reforço policial nos arredores dos hotéis, contratar segurança privada adicional e, em alguns casos, mudar o local de concentração. Medidas de isolamento acústico nos quartos também podem ajudar, mas não eliminam o problema.

A Conmebol ou as federações punem os clubes por esses atos?

Não há uma punição direta prevista nos regulamentos da Conmebol para casos de fogos em hotéis. A responsabilidade é geralmente atribuída às autoridades locais. No entanto, a entidade já emitiu notas de repúdio em situações anteriores.

Enquanto o futebol busca maneiras de coibir essas práticas, a reclamação da TV argentina serve como mais um alerta sobre a necessidade de respeito e fair play dentro e fora de campo. Os torcedores, por sua vez, são incentivados a apoiar suas equipes sem recorrer a métodos que comprometam a integridade da competição.