Vinte anos após os ataques de 11 de setembro de 2001, que mataram milhares de pessoas nos Estados Unidos e desencadearam a invasão do Afeganistão, o cenário geopolítico mudou drasticamente. Com a retirada das tropas americanas em 2021 e o retorno do Talebã ao poder, surge uma possibilidade que parecia impensável há duas décadas: uma aliança entre os EUA e o Talebã no combate ao terrorismo. Quem levanta essa hipótese é um ex-analista do FBI, em entrevista ao G1. Este artigo analisa as razões, os desafios e as implicações dessa possível aproximação.

O legado do 11 de Setembro

Os atentados de 11 de setembro de 2001 foram um marco na história contemporânea. A Al-Qaeda, liderada por Osama bin Laden, foi a responsável, e o Talebã, que governava o Afeganistão, negou-se a extraditar bin Laden, resultando na invasão liderada pelos EUA em outubro de 2001. O regime talibã foi rapidamente deposto, mas nos 20 anos seguintes os EUA enfrentaram uma longa insurgência. O Talebã nunca foi derrotado militarmente; em vez disso, reorganizou-se e gradualmente retomou o controle de áreas rurais, enquanto o governo afegão apoiado pelos EUA se mostrava frágil e corrupto.

A retirada dos EUA e o retorno do Talebã

Em abril de 2021, o presidente Joe Biden anunciou a retirada completa das tropas americanas até setembro. Em agosto, com as forças afegãs em colapso, o Talebã tomou Cabul praticamente sem resistência. O presidente afegão Ashraf Ghani fugiu, e o Talebã estabeleceu um governo interino. A comunidade internacional reagiu com cautela, condenando as violações de direitos humanos, mas muitos países, incluindo China e Rússia, sinalizaram disposição para dialogar com o novo governo.

O inimigo comum: Estado Islâmico (ISIS-K)

Desde o retorno do Talebã, o grupo Estado Islâmico do Khorasan (ISIS-K) emergiu como a maior ameaça à segurança no Afeganistão. O ISIS-K realizou atentados suicidas contra mesquitas xiitas, patrulhas talibãs e até mesmo contra o aeroporto de Cabul durante a evacuação americana, matando dezenas de pessoas. Para os EUA, o ISIS-K representa um risco de ataques contra o Ocidente; para o Talebã, é um rival que desafia seu monopólio do poder e a estabilidade do país. Essa convergência de interesses cria uma base para cooperação, mesmo que não declarada.

A declaração do ex-analista do FBI

Em entrevista ao portal G1, um ex-analista do FBI, que pediu anonimato, afirmou: "É provável que, em algum nível, Estados Unidos e Talebã acabem se aliando contra o terrorismo, especialmente contra o ISIS-K". Segundo ele, os EUA já demonstraram capacidade de fazer acordos pragmáticos com antigos inimigos quando há interesses estratégicos comuns. "O contexto é diferente de 2001; o Talebã mudou, aprendeu que o terrorismo transnacional pode prejudicar sua própria governança", disse. O analista também ressaltou que qualquer cooperação seria inicialmente tácita, focada em inteligência, e não uma aliança formal.

Desafios e obstáculos

Apesar das possibilidades teóricas, uma cooperação explícita entre Washington e o Talebã enfrenta enormes desafios políticos e éticos. O Talebã continua a impor um regime repressivo, especialmente contra mulheres e jornalistas, e mantém laços históricos com a Al-Qaeda. Para o governo Biden, qualquer sinal de legitimação ao Talebã seria impopular internamente e poderia gerar críticas da comunidade internacional. Além disso, o Talebã não é um ator monolítico; diferentes facções dentro do grupo podem ter visões distintas sobre a cooperação com os EUA. Especialistas acreditam que, no máximo, haverá acordos informais de não agressão e compartilhamento de informações, sem contato diplomático oficial.

Reações internacionais

A possibilidade de uma aliança EUA-Talebã gerou debate entre analistas. Enquanto alguns consideram a ideia improvável, outros apontam que a realpolitik pode levar a aproximações pontuais. A China, que já possui relações com o Talebã, vê com bons olhos a estabilização do Afeganistão para seus investimentos. A Rússia também mantém canais abertos. O Brasil, por sua vez, segue a posição da ONU, que não reconhece o governo talibã e impõe sanções. O Itamaraty monitora a situação, mas não há indicativos de mudança de postura.

Perguntas Frequentes

Por que os EUA considerariam uma aliança com o Talebã?

Devido ao interesse comum em neutralizar o ISIS-K, que representa uma ameaça imediata tanto aos interesses americanos quanto à estabilidade do governo talibã.

O Talebã realmente combate o terrorismo?

O Talebã tem combatido o ISIS-K militarmente, mas sua relação com outros grupos como a Al-Qaeda permanece ambígua. O grupo afirma que não permitirá que o Afeganistão seja usado para ataques contra outros países, mas a comunidade internacional permanece cética.

Como o Brasil é afetado?

O Brasil não tem envolvimento direto, mas monitora a situação para proteger sua diáspora e evitar o fluxo de extremismo. A posição oficial é de não reconhecimento do governo talibã até que haja garantias de direitos humanos.

Essa aliança já está em andamento?

Não há confirmação oficial. Fontes do governo americano negam qualquer cooperação, mas especula-se que possa haver troca de informações de inteligência em níveis operacionais.

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