Em setembro de 2021, o Ministério da Saúde alterou a orientação sobre a vacinação de adolescentes contra a Covid-19, horas após o presidente Jair Bolsonaro questionar a imunização desse público durante uma transmissão ao vivo nas redes sociais. A mudança gerou confusão entre estados e municípios e foi amplamente criticada por entidades médicas e gestores estaduais de saúde, que classificaram a decisão como um retrocesso científico.

Contexto da vacinação de adolescentes no Brasil

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) havia autorizado em junho de 2021 o uso da vacina da Pfizer para adolescentes a partir de 12 anos. A decisão seguiu a avaliação de estudos clínicos que demonstraram a segurança e a eficácia do imunizante nessa faixa etária, com respaldo de agências reguladoras internacionais como o FDA (Estados Unidos) e a EMA (Europa).

Com base nessa autorização, o Ministério da Saúde incluiu os adolescentes no Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19, permitindo inicialmente a imunização de todos os jovens de 12 a 17 anos. Diversos estados e municípios já haviam iniciado a vacinação desse público seguindo as recomendações da própria pasta, e mais de 3 milhões de adolescentes já tinham recebido ao menos a primeira dose do imunizante.

A declaração do presidente

Durante uma live realizada no dia 15 de setembro de 2021, Bolsonaro afirmou que o Ministério da Saúde "estava estudando" a vacinação de adolescentes e que era preciso "ter cuidado". O presidente mencionou relatos de supostos efeitos colaterais graves — sem apresentar evidências concretas que os sustentassem — e disse que pais que levassem seus filhos para se vacinar estariam "brincando com a vida deles".

A declaração ocorreu em meio a tensões crescentes entre o governo federal e gestores estaduais sobre as estratégias de enfrentamento à pandemia, incluindo medidas de distanciamento social, uso de máscaras e a própria campanha de vacinação. A fala do presidente foi transmitida ao vivo e rapidamente repercutiu em todo o país.

A nova orientação do Ministério da Saúde

No dia seguinte à declaração, 16 de setembro, o Ministério da Saúde publicou a Nota Técnica nº 2/2021, que alterava as recomendações anteriores. Pela nova orientação, a vacinação de adolescentes passava a ser recomendada apenas para aqueles com comorbidades, deficiência permanente ou que estivessem privados de liberdade. A pasta também orientava que os municípios aguardassem a conclusão da vacinação dos adultos antes de iniciar a imunização de adolescentes sem comorbidades.

A mudança foi justificada pelo ministério como baseada em "evidências científicas" e na "segurança dos adolescentes", mas não foram apresentados dados novos ou estudos que justificassem a alteração repentina. A nota técnica não foi precedida de consulta à Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização (CTAI) nem a outras entidades científicas independentes, o que gerou questionamentos sobre os critérios técnicos da decisão.

Reações de entidades médicas

A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) divulgou nota pública repudiando a mudança, classificando-a como "retrocesso" e "desrespeito à ciência". A entidade destacou que a vacinação de adolescentes era segura e necessária para reduzir a circulação do vírus e proteger a população como um todo.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) também se manifestou, reforçando que os benefícios da vacinação superavam os riscos e que a imunização de adolescentes era uma recomendação de organismos internacionais de saúde. A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) igualmente criticou a decisão, apontando interferência política nas políticas de saúde pública.

Especialistas em saúde pública e infectologistas de diversas instituições do país também se posicionaram contra a mudança, ressaltando que não havia qualquer sinal de alerta que justificasse a alteração na estratégia de vacinação.

Posicionamento dos estados e municípios

Diversos estados e capitais brasileiras anunciaram, logo após a publicação da nota técnica, que manteriam a vacinação de adolescentes conforme o planejamento anterior, ignorando a nova orientação federal. Secretarias estaduais de saúde argumentaram que a decisão do Ministério da Saúde não tinha respaldo científico e que as vacinas disponíveis eram seguras para o público adolescente.

O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) também criticaram a mudança, defendendo a autonomia dos entes federativos na execução das políticas de vacinação. A situação evidenciou o conflito federativo que marcou a gestão da pandemia no Brasil.

Dados e segurança da vacinação

Até aquele momento, mais de 3 milhões de adolescentes já haviam sido vacinados contra a Covid-19 no Brasil. Segundo dados do próprio Ministério da Saúde, os eventos adversos registrados estavam dentro do esperado para qualquer vacina, sem sinais de alerta que justificassem a suspensão ou alteração da estratégia de vacinação.

Internacionalmente, países como Estados Unidos, Canadá, Alemanha, França e Itália já vacinavam adolescentes de forma ampla, com base em recomendações de suas respectivas agências reguladoras. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também recomendava a vacinação de adolescentes como parte da estratégia global de controle da pandemia, especialmente para reduzir a transmissão comunitária e proteger grupos vulneráveis.

Repercussão política

O episódio foi amplamente coberto pela imprensa nacional e internacional como mais um exemplo da interferência política nas políticas de saúde pública durante a pandemia. Parlamentares da oposição criticaram a mudança e anunciaram medidas para garantir a continuidade da vacinação dos adolescentes. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos também manifestou preocupação com as declarações do presidente e com a alteração abrupta das diretrizes de imunização.

Pontos-chave

  • O Ministério da Saúde alterou a orientação sobre vacinação de adolescentes um dia após declaração do presidente Jair Bolsonaro
  • A nova orientação restringiu a vacinação a adolescentes com comorbidades, deficiência permanente ou privados de liberdade
  • Entidades médicas como SBIm, SBP e Abrasco criticaram a mudança e classificaram como retrocesso científico
  • Diversos estados e municípios anunciaram que manteriam a vacinação conforme o plano original, ignorando a nota técnica
  • Mais de 3 milhões de adolescentes já haviam sido vacinados sem registro de eventos adversos graves em proporção superior ao esperado
  • A comunidade científica internacional e a OMS recomendavam a vacinação ampla de adolescentes

Perguntas frequentes sobre a vacinação de adolescentes

Adolescentes podem se vacinar contra a Covid-19?
Sim. A vacinação de adolescentes de 12 a 17 anos foi autorizada pela Anvisa e é considerada segura e eficaz por entidades médicas e científicas nacionais e internacionais.

O que mudou na orientação do Ministério da Saúde em setembro de 2021?
O Ministério da Saúde passou a recomendar a vacinação apenas de adolescentes com comorbidades, deficiência permanente ou privados de liberdade, alterando a orientação anterior que previa a imunização de todos os adolescentes.

Por que o ministério mudou a orientação?
A mudança ocorreu após o presidente Jair Bolsonaro questionar a vacinação de adolescentes durante uma live, levantando suspeitas sobre possíveis efeitos colaterais — suspeitas que não foram corroboradas por evidências científicas.

A vacina é segura para adolescentes?
Sim. A vacina da Pfizer foi testada e aprovada para adolescentes a partir de 12 anos por agências reguladoras no Brasil e no exterior. Estudos clínicos demonstraram segurança e eficácia, e a vacinação em massa de adolescentes em diversos países não apontou riscos elevados.

Os estados seguiram a nova orientação do Ministério da Saúde?
Não. Diversos estados e municípios decidiram manter a vacinação de adolescentes conforme o planejamento anterior, ignorando a nota técnica do ministério e defendendo a autonomia dos entes federativos na execução das políticas de saúde.