Laudos periciais divulgados nesta quinta-feira (25) indicam que as vítimas da operação policial no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, Rio de Janeiro, foram atingidas por disparos de arma de fogo em regiões como o olho e as costas, além de apresentarem múltiplas fraturas no crânio. Os documentos, obtidos pelo G1, reforçam as suspeitas de que pode ter havido uso excessivo da força durante a ação, que resultou na morte de diversos moradores da comunidade. Os peritos do Instituto Médico Legal (IML) descreveram lesões compatíveis com tiros à queima-roupa em alguns corpos, o que levanta questionamentos sobre a versão oficial de confronto armado.

Operação no Complexo do Salgueiro

O Complexo do Salgueiro é formado por um conjunto de comunidades na Zona Norte de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. A operação ocorreu na semana anterior à divulgação dos laudos, quando equipes da Polícia Civil e da Polícia Militar realizaram uma incursão para cumprir mandados de prisão e apreensão contra suspeitos de envolvimento com o tráfico de drogas. Moradores relataram que o tiroteio começou ainda de madrugada e se estendeu por horas, com uso de helicópteros e blindados. Testemunhas afirmam que alguns dos mortos tentavam se render ou estavam desarmados no momento dos disparos. A versão policial, divulgada pela assessoria de imprensa, alega que os agentes foram recebidos a tiros e que as mortes ocorreram em confronto.

Detalhes dos laudos periciais

Os laudos do IML, a que o G1 teve acesso, trazem descrições minuciosas das lesões. Entre os achados mais preocupantes estão marcas de tiros na região dos olhos e nas costas, padrões que, segundo especialistas, são incomuns em confrontos abertos e podem indicar execuções sumárias. As fraturas cranianas descritas são múltiplas e compatíveis com projéteis de alta energia, e em pelo menos três corpos foram identificados sinais de disparos efetuados a curta distância. Os peritos também anotaram a ausência de pólvora ao redor de alguns ferimentos, sugerindo que os tiros podem ter sido dados com o cano da arma já muito próximo ou encostado na vítima. A documentação pericial será anexada ao inquérito do Ministério Público, que investiga se houve abuso por parte dos policiais.

Repercussão e investigações em andamento

O caso ganhou grande repercussão na mídia nacional e nas redes sociais, com ativistas de direitos humanos, lideranças comunitárias e familiares das vítimas cobrando justiça. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) instaurou um inquérito civil para apurar a conduta dos agentes envolvidos e determinou a realização de novas diligências, incluindo a oitiva de testemunhas e a análise de imagens de câmeras de segurança. A Defensoria Pública também ingressou com uma representação, pedindo a apuração de possíveis violações de direitos humanos. A Polícia Civil, por meio de nota, informou que abriu um procedimento interno para investigar o ocorrido e que colabora integralmente com as investigações do MPRJ. Até o momento, nenhum policial foi afastado.

Contexto da violência policial no Brasil

O Brasil figura entre os países com maior número de mortes decorrentes de intervenções policiais no mundo. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que, somente em 2020, mais de 6 mil pessoas foram mortas pela polícia em todo o país, sendo a maioria negra e moradora de periferias. Especialistas apontam que a falta de transparência nas apurações e a baixa punição dos agentes envolvidos contribuem para a repetição de episódios violentos. O caso do Complexo do Salgueiro se soma a outras tragédias recentes, como as chacinas do Jacarezinho e de Vila Cruzeiro, que reacendem o debate sobre a necessidade de reformas estruturais na segurança pública e de um controle externo mais efetivo da atividade policial.

Principais pontos dos laudos

  • Vítimas alvejadas por tiros no olho e nas costas
  • Fraturas cranianas múltiplas, compatíveis com projéteis de alta energia
  • Marcas de tiros à queima-roupa em vários corpos
  • Ausência de resíduos de pólvora em alguns ferimentos
  • Operação ocorreu no Complexo do Salgueiro, São Gonçalo, RJ
  • MPRJ investiga suspeitas de execução sumária

Perguntas frequentes sobre o caso

O que os laudos mostram de mais grave?
Os laudos indicam que as vítimas foram baleadas em regiões como olho e costas, com fraturas cranianas e possíveis sinais de execução. A localização dos ferimentos e a distância dos disparos levantam dúvidas sobre a legalidade da ação.

Quantas pessoas morreram?
O número oficial de vítimas não foi divulgado oficialmente, mas relatos de moradores e da imprensa dão conta de pelo menos cinco mortos durante a operação. O total exato depende da conclusão do inquérito.

O que diz a polícia sobre o ocorrido?
A Polícia Civil afirma que abriu procedimento interno e que as ações foram realizadas dentro dos parâmetros legais. A versão oficial sustenta que os agentes foram recebidos a tiros e agiram em legítima defesa.

O que é o Complexo do Salgueiro?
É um conjunto de comunidades localizado em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio de Janeiro. A região é marcada por ocupações informais e pela presença do tráfico de drogas, sendo frequentemente alvo de operações policiais.

Quem investiga o caso e quais os próximos passos?
O Ministério Público do Rio de Janeiro e a Corregedoria da Polícia Civil instauraram inquéritos para apurar as circunstâncias das mortes. Nas próximas semanas, devem ser ouvidas testemunhas e analisadas provas periciais para determinar se houve abuso de poder.