No dia 24 de novembro de 2021, a Suécia viveu um dia de contrastes na política. Magdalena Andersson, líder do Partido Social-Democrata, foi eleita a primeira mulher primeira-ministra do país — um marco histórico. Horas depois, ela renunciou ao cargo. Em uma nova reviravolta, o presidente do Parlamento sueco anunciou que Andersson terá uma segunda chance para tentar formar um governo estável.

Este episódio, que durou menos de um dia, expôs as fragilidades do sistema de coalizão sueco e a crescente polarização no parlamento. Ao mesmo tempo, demonstrou a capacidade de adaptação do regime parlamentarista, que permite que novas soluções sejam rapidamente construídas.

Entenda o caso

Magdalena Andersson foi eleita pela manhã pelo Parlamento (Riksdag), sucedendo Stefan Löfven, que havia renunciado em agosto após uma moção de desconfiança. A votação do orçamento geral do estado para 2022, no entanto, representou o primeiro grande teste de sua liderança recém-empossada. A oposição, composta por Moderados, Democratas Cristãos e Democratas da Suécia, uniu-se para aprovar seu próprio orçamento, rejeitando a proposta do governo. Para o Partido Verde, aliado de coalizão, este orçamento alternativo era inaceitável, especialmente por conter cortes em áreas ambientais e sociais.

Em uma decisão drástica, o Partido Verde anunciou sua saída do governo, deixando Andersson sem a base parlamentar necessária para governar. Segundo as regras constitucionais suecas, um governo pode cair se perder o apoio de um partido da coalizão ou se o orçamento for rejeitado. Diante da impossibilidade de manter a coalizão e da falta de apoio suficiente no parlamento, Andersson optou por renunciar ao cargo de primeira-ministra no mesmo dia, cerca de oito horas após ter sido empossada. Foi o mandato mais curto da história moderna do país.

A segunda chance

Após a renúncia, o presidente do Parlamento, Andreas Norlén, iniciou imediatamente uma nova rodada de negociações com os líderes partidários. Norlén consultou todos os partidos para avaliar se havia uma base para um novo governo. A solução encontrada foi dar a Andersson uma nova oportunidade para formar um governo de partido único, composto exclusivamente pelo Partido Social-Democrata. Esta administração minoritária precisaria negociar apoio parlamentar para cada projeto de lei, um cenário conhecido como "governo de minoria".

A Esquerda (Partido Vänster) sinalizou que poderia apoiar a medida desde que houvesse garantias de votações separadas para o orçamento no futuro. Norlén deu a ela o prazo de uma semana para apresentar sua nova proposta de governo ao Parlamento. O processo foi acompanhado de perto pela imprensa internacional, que viu ali um teste para a democracia sueca.

Contexto político na Suécia

A crise política expõe a fragmentação do cenário partidário sueco. O avanço dos Democratas da Suécia (extrema-direita) tornou a formação de maiorias estáveis mais complexa. Desde 2010, o partido vem crescendo em popularidade, atraindo eleitores insatisfeitos com a imigração e a segurança pública. Andersson, como sucessora de Löfven, herdou um parlamento dividido em oito blocos, onde nenhuma força tem maioria absoluta.

A saída do Partido Verde e a rejeição do orçamento foram o estopim para a crise, que reflete as dificuldades de governar em um ambiente político polarizado. O episódio, embora breve, destacou a resiliência do sistema parlamentarista sueco, que permite que soluções sejam rapidamente negociadas. A imprensa internacional acompanhou de perto o caso, tratando a "premier relâmpago" como um exemplo das complexidades da governança na Europa moderna. Jornais como The Guardian e Le Monde destacaram a rapidez com que a crise foi contornada.

O desfecho: o novo governo de Andersson

Em 29 de novembro de 2021, Magdalena Andersson foi eleita novamente pelo Parlamento, desta vez como primeira-ministra de um governo social-democrata minoritário. Ela recebeu 101 votos a favor, 75 abstenções e 173 contra. Pela constituição sueca, um governo pode assumir se a maioria dos parlamentares não votar contra — o chamado "parlamentarismo negativo". Assim, mesmo com mais votos contrários, Andersson conseguiu formar o novo executivo.

O novo governo enfrentou desafios imediatos: aprovar o orçamento, lidar com a pandemia de Covid-19 e preparar o país para as eleições de 2022. A coalizão informal com a Esquerda e o apoio pontual de partidos menores permitiu que Andersson governasse até setembro de 2022. Nas eleições daquele ano, a centro-direita venceu e Ulf Kristersson (Moderado) tornou-se primeiro-ministro com apoio dos Democratas da Suécia.

Perguntas e respostas sobre a crise

  • Quem é Magdalena Andersson? Economista de formação, foi ministra das Finanças da Suécia de 2014 a 2021, antes de se tornar líder do Partido Social-Democrata e a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra no país.
  • Por que o governo durou apenas algumas horas? Devido à rejeição de seu orçamento no Parlamento e ao consequente abandono da coalizão pelo Partido Verde, o que tornou inviável a continuidade do governo conforme as regras constitucionais suecas.
  • O que significou a "segunda chance"? O presidente do Parlamento a convidou a tentar formar um novo governo, agora como um governo de partido único minoritário, sem a participação formal do Partido Verde, mas com negociações pontuais com outras legendas para aprovar projetos específicos.
  • Como funciona a formação de governo na Suécia? Na Suécia, o primeiro-ministro é nomeado pelo presidente do Parlamento após consultas partidárias. O governo pode assumir se não houver maioria de votos contrários (parlamentarismo negativo). Governos minoritários são comuns e precisam negociar apoio caso a caso.
  • Qual foi o papel do Partido Verde na crise? O Partido Verde era parceiro de coalizão dos social-democratas. Ao considerar o orçamento alternativo da oposição inaceitável, o partido optou por deixar o governo, precipitando a renúncia de Andersson. Posteriormente, o Partido Verde passou a apoiar externamente o novo governo minoritário.
  • Qual foi o desfecho do caso? Magdalena Andersson conseguiu formar um governo minoritário que governou até as eleições de setembro de 2022, quando foi sucedida pelo conservador Ulf Kristersson. O episódio de oito horas tornou-se um marco na história política sueca e um exemplo de instabilidade gerada pela fragmentação partidária.