Um veículo explodiu na manhã desta segunda-feira (6) em um posto de combustíveis localizado na Avenida Brasil, na altura de Bonsucesso, Zona Norte do Rio de Janeiro. O motorista, identificado como Carlos Almeida, de 45 anos, sofreu queimaduras graves em mais de 30% do corpo e foi encaminhado ao Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro da cidade, onde permanece internado em estado grave. De acordo com as primeiras investigações da Polícia Civil, o veículo, um Fiat Siena, possuía uma adaptação irregular e extremamente perigosa: um botijão de gás de cozinha (GLP) havia sido instalado no lugar do sistema de Gás Natural Veicular (GNV) certificado, numa tentativa de reduzir custos com combustível.

O Acidente

Testemunhas que estavam no posto no momento da explosão relataram um forte estrondo metálico seguido por uma bola de fogo que tomou conta da parte traseira do automóvel, onde o cilindro improvisado estava alojado no porta-malas. "Foi um barulho ensurdecedor. As chamas subiram muito rápido. O motorista conseguiu sair do carro, mas já estava pegando fogo", contou um frentista que preferiu não se identificar.

O Corpo de Bombeiros foi acionado imediatamente e controlou as chamas em cerca de 15 minutos. Apesar da rapidez do combate ao incêndio, o veículo ficou completamente destruído e carbonizado. A via precisou ser parcialmente interditada para o trabalho da perícia e a remoção do carro, causando um grande congestionamento na região durante o horário de pico.

Peritos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) estiveram no local e realizaram uma análise minuciosa nos destroços. A principal evidência encontrada foi um botijão de gás de cozinha comum, de 13 kg, que havia sido adaptado com conexões artesanais para se ligar ao motor. "O sistema não oferecia segurança alguma. As válvulas não eram apropriadas para a vibração e a pressão de um veículo em movimento. Era uma bomba relógio prestes a explodir", explicou o perito Ricardo Mendes, que coordenou a equipe no local.

A 'Gambiarra' e os Riscos

A tentativa de usar um botijão de gás de cozinha em automóveis é uma prática conhecida das autoridades, mas que continua a colocar vidas em risco. O Gás Natural Veicular (GNV) é composto majoritariamente por metano e é armazenado em cilindros de alta pressão (cerca de 220 bar), projetados com materiais resistentes e válvulas de segurança complexas que fecham automaticamente em caso de ruptura da mangueira ou impacto.

Já o Gás Liquefeito de Petróleo (GLP), vendido em botijões de cozinha, é uma mistura de propano e butano. Seus recipientes são de baixa pressão e não contam com os mesmos dispositivos de segurança para uso automotivo. A pressão gerada pelo motor ao puxar o gás pode facilmente sobrecarregar as válvulas do botijão, causando vazamentos. A vibração constante do carro também pode soltar as conexões improvisadas. Qualquer centelha elétrica ou faísca do motor se torna uma fonte de ignição perfeita para uma explosão devastadora.

"A economia na adaptação irregular não compensa o risco. Além de colocar a própria vida em perigo, o motorista expõe a vida de todos ao redor: frentistas, outros clientes do posto, pedestres e outros motoristas", alertou o engenheiro mecânico Marcelo Torres, especialista em segurança veicular.

Consequências Legais

O motorista, que permanece internado, poderá responder criminalmente pelo ocorrido. A prática é proibida pelo Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN) e constitui infração gravíssima, com multa agravada e apreensão do veículo. No âmbito penal, ele pode ser enquadrado por expor a vida ou a saúde de terceiros a perigo direto e iminente (Art. 132 do Código Penal), com pena de detenção de três meses a um ano, além de multa. A Polícia Civil instaurou um inquérito para apurar se houve dolo ou culpa consciente.

As autoridades reforçam que qualquer adaptação veicular deve ser realizada exclusivamente em oficinas credenciadas pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). O certificado de segurança é obrigatório e deve ser renovado anualmente. Denúncias sobre veículos circulando com adaptações irregulares podem ser feitas anonimamente pelo Disque-Denúncia (181).

Diferenças entre GNV e GLP

O que é GNV?

O Gás Natural Veicular é um combustível automotivo composto principalmente por metano. Ele é armazenado em cilindros específicos de alta pressão, fabricados em aço ou materiais compósitos, que passam por rigorosas inspeções de segurança. A conversão para GNV, quando feita corretamente, é segura e econômica.

O que é GLP?

O Gás Liquefeito de Petróleo é o gás utilizado em botijões de cozinha e fogões. É uma mistura de propano e butano, que se liquefaz sob pressão moderada. Os botijões domésticos são de baixa pressão e não possuem os requisitos de segurança para serem instalados em automóveis.

Por que o uso de botijão de gás de cozinha em carros é crime?

Além de ser uma violação grave das normas de trânsito, a prática coloca em risco a vida do motorista, dos passageiros, dos trabalhadores e da comunidade ao redor. As penalidades incluem multas pesadas (com fator multiplicador), apreensão do veículo e detenção.