No final de 2021, o estado do Rio de Janeiro foi fortemente impactado por uma epidemia antecipada e intensa de gripe, causada principalmente pelo vírus Influenza A H3N2. Diferindo do padrão sazonal histórico, que geralmente concentra os casos entre os meses de abril e setembro, o surto começou a ganhar força em novembro e se intensificou drasticamente em dezembro, surpreendendo autoridades de saúde, gestores hospitalares e a população em geral que já lidava com o cansaço da pandemia de COVID-19.

A chegada da nova cepa H3N2 (linhagem Darwin)

Um dos principais fatores técnicos apontados por epidemiologistas foi a chegada ao Brasil de uma nova subcepa do vírus H3N2, conhecida como linhagem Darwin (3C.2a1b.2a). Esta variante genética apresentava mutações significantes em suas proteínas de superfície, o que a diferenciava da cepa utilizada na vacina contra a gripe distribuída na campanha nacional de 2021. Essa diferença resultou em um fenômeno conhecido como "fuga imunológica" parcial. Isso significava que mesmo as pessoas que haviam se vacinado poderiam apresentar uma proteção reduzida contra a infecção sintomática, embora a vacina ainda fosse eficaz para prevenir a forma grave da doença, hospitalizações e óbitos.

Baixa cobertura vacinal em 2021

A baixa adesão à campanha de vacinação contra a gripe em 2021 foi outro fator determinante para a magnitude do surto. A campanha nacional atingiu índices de cobertura abaixo da meta estipulada pelo Ministério da Saúde em diversos estados, e o Rio de Janeiro não foi exceção. A "hesitação vacinal", agravada pelo cansaço da população com as sucessivas campanhas de saúde pública durante a pandemia de coronavírus, contribuiu significativamente para que um grande número de pessoas, especialmente adultos jovens e de meia-idade, ficasse totalmente vulnerável ao vírus Influenza. A falta de procura pela vacina nos postos de saúde criou uma grande bolsa de suscetíveis na população.

Flexibilização das medidas de prevenção

O progressivo relaxamento das medidas não farmacológicas de prevenção, adotadas rigorosamente contra a COVID-19, também teve um papel crucial na dinâmica do surto. Com o avanço da vacinação contra o coronavírus, o uso de máscaras em locais públicos e o distanciamento social foram gradualmente abandonados. A retomada das atividades sociais, a volta ao trabalho presencial e, especialmente, as aglomerações típicas das festas de Natal e Ano Novo criaram o ambiente perfeito para a transmissão acelerada e descontrolada do vírus da gripe, que se espalhou rapidamente entre famílias e em eventos sociais.

Sobrecarga do sistema de saúde

O impacto no sistema de saúde foi imediato, severo e expôs fragilidades estruturais. Hospitais públicos e privados do Rio de Janeiro registraram um aumento explosivo na procura por atendimento, resultando em longas filas em emergências e unidades de pronto atendimento (UPAs). Pacientes com sintomas respiratórios graves lotaram as portas dos hospitais. A alta demanda por testes RT-PCR e antígeno para diferenciar a gripe da COVID-19 também pressionou fortemente a rede de laboratórios e farmácias, gerando escassez pontual de insumos. O surto serviu como um alerta sobre a capacidade do sistema de absorver picos sazonais de doenças respiratórias, ainda mais em um contexto de pandemia coexistente.

Diferenças entre os sintomas da gripe H3N2 e da COVID-19

A grande similaridade entre os sintomas da gripe H3N2 e da COVID-19 representou um enorme desafio diagnóstico para os médicos. Febre alta, tosse seca ou produtiva, dores no corpo (mialgia), dor de garganta, coriza e cansaço extremo são manifestações clínicas comuns a ambas as infecções virais, tornando o diagnóstico clínico puro quase impossível. A perda súbita de olfato (anosmia) e paladar (ageusia), mais característica da COVID-19, e a intensidade e velocidade de instalação da febre, geralmente mais alta e abrupta na gripe, serviram como pistas, mas a testagem laboratorial se tornou essencial para a confirmação etiológica e para as decisões de isolamento e tratamento.

Prevenção e tratamento

O tratamento para a gripe H3N2 é majoritariamente sintomático, baseado em repouso, hidratação abundante e medicamentos antitérmicos e analgésicos para controle da febre e das dores (como paracetamol e dipirona). Em casos graves ou em pacientes pertencentes a grupos de risco (gestantes, idosos, crianças pequenas e imunossuprimidos), o antiviral Oseltamivir (Tamiflu) pode ser prescrito para reduzir a duração e a gravidade dos sintomas, preferencialmente nas primeiras 48 horas. A principal forma de prevenção continua sendo a vacinação anual contra a gripe, que é reformulada a cada ano para incluir as cepas com maior potencial de circulação. Além disso, medidas simples como lavar as mãos frequentemente, utilizar máscaras em locais fechados e mal ventilados, evitar tocar o rosto e manter os ambientes arejados são altamente eficazes para reduzir o risco de contágio.

Por que a epidemia de gripe no Rio de Janeiro foi tão intensa em 2021?

A combinação de baixa cobertura vacinal contra a gripe, surgimento de uma nova subcepa do vírus Influenza A (H3N2 Darwin), que escapava parcialmente à resposta imune induzida pela vacina, relaxamento das medidas de prevenção contra a COVID-19 e aglomerações típicas do fim de ano criou um cenário ideal para a rápida disseminação do vírus.

A vacina da gripe aplicada em 2021 protegia contra a H3N2?

Oferecia proteção, mas em menor grau contra a infecção sintomática pela nova subcepa Darwin. No entanto, ela continuava eficaz para prevenir o agravamento da doença, hospitalizações e mortes. A vacina também protegia contra outros subtipos de Influenza que circulavam.

Quais foram os principais sintomas do surto de H3N2?

Os sintomas mais comuns foram febre alta (acima de 38°C), tosse intensa, dores musculares e articulares (mialgia), dor de garganta, coriza, dor de cabeça e fadiga extrema.

Como diferenciar os sintomas da gripe H3N2 dos da COVID-19?

A perda súbita de olfato e paladar é um sinal muito mais frequente na COVID-19. Na gripe, a febre alta costuma ser o primeiro sintoma e se apresenta de forma mais abrupta. O teste laboratorial é a única forma confiável de distinguir com certeza.

Quais medidas posso tomar para me prevenir?

Vacinação anual contra a gripe é a medida mais eficaz. Higiene das mãos, uso de máscaras em locais fechados e com aglomeração, e evitar contato próximo com pessoas doentes também são medidas importantes.