O setor varejista brasileiro encerrou 2021 com desempenho misto. Embora alguns indicadores tenham mostrado vendas acima do esperado em momentos pontuais, como na Black Friday e no Natal, a combinação de inflação elevada e juros altos segue como o principal desafio para o consumo das famílias e deve limitar o crescimento do setor ao longo de 2022.
O ano de 2021 foi marcado por uma forte alta dos preços. O IPCA, índice oficial de inflação do Brasil, fechou o ano em 10,06%, o maior patamar desde 2015. Os grupos de alimentação e bebidas, transportes e habitação foram os que mais pressionaram o índice, com destaque para o aumento dos combustíveis e da energia elétrica. Essa alta generalizada de preços reduziu significativamente o poder de compra das famílias, especialmente as de menor renda.
O aperto monetário e o crédito mais caro
Para conter a inflação, o Banco Central deu início a um agressivo ciclo de aperto monetário ainda em 2021. A taxa Selic, que havia sido reduzida a 2% ao ano durante a pandemia, subiu progressivamente e chegou a 9,25% ao ano na primeira reunião de 2022, com sinalização de novos aumentos. O encarecimento do crédito afeta diretamente o varejo, uma vez que grande parte das compras de maior valor — como móveis, eletrodomésticos e veículos — é feita a prazo ou com financiamento.
O crédito mais caro também impacta o capital de giro das empresas varejistas, que passam a enfrentar custos financeiros mais elevados para manter seus estoques e operações. Pequenos e médios varejistas são os mais afetados, por terem menor poder de negociação com instituições financeiras.
Vendas acima do esperado: o que dizem os números
Apesar do cenário adverso, o varejo brasileiro mostrou resiliência em alguns momentos. De acordo com dados do IBGE, o volume de vendas do comércio varejista restrito cresceu 1,8% em 2021 na comparação com 2020. O resultado ficou dentro do esperado pelo mercado, mas alguns meses surpreenderam positivamente.
A Black Friday de 2021, por exemplo, registrou crescimento nominal expressivo nas vendas, impulsionada pelo comércio eletrônico e por estratégias agressivas de desconto dos varejistas. As vendas de Natal também superaram as expectativas iniciais, beneficiadas pela liberação de recursos do FGTS e pelo pagamento do 13º salário.
O e-commerce, que havia explodido durante os meses mais críticos da pandemia, manteve-se em crescimento, embora em ritmo menor. O faturamento do comércio eletrônico brasileiro em 2021 foi estimado em mais de R$ 160 bilhões, segundo dados da ABComm (Associação Brasileira de Comércio Eletrônico).
Impacto diferenciado entre segmentos
Nem todos os segmentos do varejo são afetados da mesma forma pela inflação e pelos juros altos. Setores de consumo essencial, como supermercados, farmácias e lojas de produtos de higiene e limpeza, tendem a ser mais resilientes, já que o consumidor não pode postergar essas compras.
Por outro lado, segmentos de bens discricionários — como vestuário, calçados, móveis, eletrodomésticos e materiais de construção — sofrem maior pressão. Com o orçamento apertado, as famílias tendem a adiar ou cancelar a compra desses itens, priorizando gastos essenciais.
O setor de veículos também enfrenta desafios adicionais, com a escassez de componentes semicondutores afetando a produção e elevando os preços dos automóveis novos e usados.
Endividamento das famílias preocupa
Um dos principais fatores de risco para o varejo em 2022 é o elevado nível de endividamento das famílias brasileiras. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o endividamento atingiu níveis recordes no final de 2021, com cerca de 75% das famílias brasileiras com algum tipo de dívida.
O comprometimento da renda com o pagamento de dívidas reduz a margem para novos gastos e aumenta a inadimplência, o que, por sua vez, leva os bancos a restringirem ainda mais a oferta de crédito.
Perspectivas para o varejo em 2022
As projeções para o varejo brasileiro em 2022 indicam crescimento moderado, com estimativas de expansão entre 1% e 2% no volume de vendas, segundo a maioria dos analistas. A trajetória da inflação será determinante: se o IPCA começar a dar sinais de arrefecimento no segundo semestre, impulsionado por uma safra agrícola favorável e pela queda nos preços das commodities, o consumidor pode recuperar parte do poder de compra.
O mercado de trabalho também será um fator-chave. A taxa de desemprego, que ainda se mantinha em dois dígitos no início de 2022, precisa cair de forma consistente para que a renda das famílias se recupere e o consumo ganhe fôlego.
Além disso, as eleições presidenciais marcadas para outubro de 2022 trazem incertezas adicionais para a economia, que podem influenciar as decisões de consumo e investimento ao longo do ano.
Perguntas frequentes
Como a inflação afeta o varejo?
A inflação reduz o poder de compra das famílias, fazendo com que os consumidores gastem mais com itens essenciais (alimentos, energia, combustíveis) e tenham menos renda disponível para bens não essenciais, como roupas, calçados e eletrodomésticos.
Por que os juros altos impactam o consumo?
Juros mais altos encarecem o crédito ao consumidor, reduzindo a demanda por financiamentos e compras a prazo. Como grande parte do varejo brasileiro depende do crédito para impulsionar as vendas, isso afeta diretamente o faturamento do setor.
Quais segmentos do varejo são mais resilientes?
Supermercados, farmácias e lojas de produtos de primeira necessidade tendem a ser mais resilientes durante períodos de crise econômica, pois vendem itens essenciais que o consumidor não pode deixar de comprar.
O comércio eletrônico continua crescendo?
Sim, embora em ritmo menor do que durante o pico da pandemia. O e-commerce brasileiro continua expandindo sua participação no varejo total, impulsionado pela conveniência e por investimentos dos varejistas em canais digitais.
O que pode melhorar o cenário para o varejo em 2022?
A redução da inflação, a queda da taxa de desemprego, a recuperação da renda das famílias e um ambiente de juros estáveis seriam fatores positivos para o setor. A liberação de recursos extras, como o FGTS e o PIS/Pasep, também pode dar algum alívio ao consumo.
Fonte: InfoMoney