O volume de vendas do comércio varejista no Brasil cresceu 0,6% em novembro de 2021 na comparação com o mês anterior, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado, no entanto, veio acompanhado de um alerta: o impacto tradicional da Black Friday sobre o consumo foi significativamente menor do que em anos anteriores, indicando uma mudança no comportamento do consumidor e um cenário macroeconômico mais restritivo.

Realizada em 26 de novembro, a Black Friday de 2021 não gerou o pico de vendas concentrado observado em 2019 e 2020. A combinação de inflação elevada, com o IPCA acumulado em 12 meses superando os 10%, e o ciclo de aperto monetário promovido pelo Banco Central (a taxa Selic havia subido de 2% para 9,25% ao ano) reduziu o poder de compra das famílias e encareceu o crédito. Muitos consumidores optaram por antecipar compras ou adquiriram produtos de menor valor, diluindo o efeito da data ao longo do mês.

Na análise por setores, a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) mostrou crescimento em cinco dos oito segmentos pesquisados. O destaque positivo ficou com o setor de equipamentos e material para escritório, informática e comunicação, que registrou alta de 2,1% em relação a outubro. Tecidos, vestuário e calçados avançaram 1,8%, enquanto outros artigos de uso pessoal e doméstico tiveram alta de 0,8%. Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo cresceram 0,7%, e artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, perfumaria e cosméticos subiram 0,5%.

Por outro lado, o segmento de móveis e eletrodomésticos, historicamente o grande motor da Black Friday, praticamente estagnou, com variação positiva de apenas 0,1%. O setor de livros, jornais, revistas e papelaria registrou queda de 1,8% no período. O resultado reforça a tese de que o consumidor priorizou itens de necessidade básica e adiou compras de maior valor agregado.

Na comparação com novembro de 2020, as vendas do varejo restrito tiveram alta de 2,4%. No acumulado dos onze primeiros meses de 2021, o crescimento foi de 5,1%, sinalizando uma recuperação gradual do setor após o tombo de 2020. O varejo ampliado, que inclui veículos e material de construção, também mostrou resiliência: veículos e motos subiram 1,5% e material de construção avançou 1,2% na comparação mensal.

Para os analistas, a Black Friday de 2021 serviu como um termômetro do consumo para o Natal. A expectativa era de um fim de ano moderado, com as famílias usando o 13º salário prioritariamente para quitar dívidas. O endividamento das famílias brasileiras atingiu níveis recordes em 2021, com mais de 70% das famílias declarando algum tipo de dívida. Nesse contexto, o crédito mais caro e a inflação pressionando o orçamento doméstico limitaram o espaço para consumo adicional.

O comportamento do e-commerce também mudou. As promoções da Black Friday foram menos agressivas em alguns segmentos, e o consumidor se mostrou mais seletivo, comparando preços com maior frequência e denunciando maquiagens de desconto. O Pix consolidou-se como meio de pagamento, mas o parcelamento no cartão de crédito, muito utilizado em compras de alto valor, perdeu força com o aumento dos juros rotativos.

Perguntas frequentes sobre o varejo e a Black Friday

Por que o efeito da Black Friday foi menor em 2021?
O enfraquecimento do efeito Black Friday está diretamente ligado à inflação alta e aos juros elevados no Brasil. A renda das famílias foi comprimida, e o crédito ficou mais caro, fazendo com que o consumidor reduzisse o impulso de compra e buscasse promoções de forma mais moderada.

O comércio varejista está se recuperando da pandemia?
Sim, a recuperação é visível nos números acumulados do ano (alta de 5,1%), mas ela ocorre de forma desigual entre os setores e ainda é ameaçada pelo cenário de juros e inflação para 2022.

Qual foi o setor que mais se destacou em novembro?
O setor de equipamentos de informática e comunicação liderou as altas, seguido por vestuário. Já o setor de móveis e eletrodomésticos, que costuma ser o carro-chefe da Black Friday, registrou estabilidade.

O e-commerce superou as vendas físicas na Black Friday de 2021?
O e-commerce manteve sua relevância, mas o crescimento foi menor do que em 2020, quando o isolamento social impulsionou as compras online. O consumidor migrou para canais digitais, mas com um ticket médio mais baixo.

Como a inflação impacta as vendas do comércio?
A inflação corrói o poder de compra da população. Com os preços mais altos, a mesma quantidade de dinheiro compra menos produtos, o que se reflete em um volume de vendas menor ou em uma migração para marcas e produtos mais baratos.