O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, enfrenta novas e graves acusações de que seu gabinete promovia "happy hours" semanais no jardim de Downing Street durante o lockdown de maio de 2020. Na época, as regras do governo britânico determinavam que encontros ao ar livre entre pessoas de diferentes domicílios estavam limitados a no máximo duas pessoas, e a orientação era para que todos evitassem contato desnecessário. Segundo reportagem do jornal The Guardian publicada na sexta-feira (14), e-mails internos obtidos pelo jornal mostram que funcionários do governo convidavam colegas para "reuniões sociais" no jardim da residência oficial, com bebidas e petiscos.

As mensagens indicam que cerca de 40 pessoas participavam dos encontros. Uma delas, enviada pelo principal secretário particular de Johnson, Martin Reynolds, em 20 de maio de 2020, convidava os funcionários para "aproveitar o clima" e "trazer sua própria bebida". No mesmo dia, o Reino Unido registrava centenas de mortes diárias por COVID-19 e o país ainda estava sob restrições severas, com a população proibida de se reunir em grupos maiores.

O escândalo, apelidado de "Partygate", já havia ganhado força em dezembro de 2021 com a divulgação de uma foto de uma confraternização de Natal em Downing Street, quando as regras também proibiam encontros internos entre diferentes famílias. A nova revelação do The Guardian sugere que as festas não foram um evento isolado, mas sim uma prática regular – quase um ritual – no gabinete do premiê.

Reações políticas

A oposição britânica classificou as revelações como "ultrajantes" e renovou os pedidos de renúncia do primeiro-ministro. Keir Starmer, líder do Partido Trabalhista, afirmou que Johnson "mentiu repetidamente" ao Parlamento e ao público sobre seu conhecimento e participação. "O país merece um governo que cumpra as regras que impõe", disse Starmer. Ed Davey, líder dos Liberais Democratas, também exigiu a saída de Johnson, afirmando que o premiê perdeu toda a credibilidade.

Mesmo dentro do Partido Conservador, crescem as vozes de insatisfação. Alguns parlamentares conservadores já se manifestaram publicamente pedindo uma investigação mais profunda e a renúncia de Johnson caso se prove que ele mentiu. O escândalo ameaça a liderança de Johnson, que já enfrentava quedas nas pesquisas de aprovação devido à economia e ao serviço de saúde.

Investigações em andamento

O governo anunciou uma investigação interna liderada por Sue Gray, secretária-adjunta do gabinete, que analisará todos os eventos de confraternização ocorridos durante o lockdown. A Polícia Metropolitana de Londres também avalia se as festas violaram as normas sanitárias, o que poderia resultar em multas para os envolvidos.

Até o momento, Boris Johnson pediu desculpas pelo ocorrido, mas disse que não acredita que as regras foram quebradas, pois os encontros seriam "eventos de trabalho". No entanto, as evidências – incluindo o e-mail que convidava para "reuniões sociais" – contradizem essa versão. Se for constatado que Johnson mentiu ao Parlamento, ele pode ser forçado a deixar o cargo, conforme as regras do chamado "Ministerial Code".

A expectativa é que o relatório de Sue Gray seja concluído nas próximas semanas. A oposição e parte da imprensa pressionam pela divulgação completa do relatório, sem edições.

Linha do tempo dos principais eventos do "Partygate"

  • Maio de 2020: E-mail de Martin Reynolds convida para happy hour no jardim de Downing Street.
  • 8 de dezembro de 2021: Vídeo vazado mostra funcionários rindo e simulando uma entrevista coletiva sobre uma festa de Natal.
  • 10 de janeiro de 2022: ITV News divulga e-mails sobre a festa de maio de 2020.
  • 12 de janeiro de 2022: Governo admite que a reunião ocorreu, mas nega irregularidade.
  • 14 de janeiro de 2022: The Guardian revela que os happy hours eram semanais. Johnson pede desculpas novamente em entrevista.
  • 15 de janeiro de 2022: Escândalo domina as manchetes; oposição exige renúncia.

Perguntas frequentes

O que é o "Partygate"?
É o nome dado pela imprensa ao escândalo de festas realizadas no gabinete do primeiro-ministro britânico durante os lockdowns da COVID-19, que violaram as restrições impostas pelo próprio governo.
Por que o happy hour violava as regras?
Em maio de 2020, as regras do governo britânico permitiam contato ao ar livre apenas entre pessoas da mesma família, ou no máximo entre duas pessoas de domicílios diferentes se mantida distância. Reunir cerca de 40 pessoas para beber e petiscar no jardim claramente descumpria essas regras.
Boris Johnson sabia e participou?
As evidências sugerem que ele compareceu a pelo menos uma das confraternizações. Johnson afirmou que achava tratar-se de um evento de trabalho e que não tinha conhecimento de que as regras seriam violadas.
Quais as possíveis consequências?
A oposição exige sua renúncia. A investigação de Sue Gray pode resultar em multas ou sanções disciplinares. Se ficar provado que Johnson mentiu ao Parlamento, ele pode ser destituído ou forçado a renunciar. O escândalo também mina sua autoridade política e pode levar a uma moção de desconfiança dentro do Partido Conservador.
O que diz a população?
Pesquisas de opinião mostram que a maioria dos britânicos acredita que Johnson deveria renunciar. A confiança no governo caiu drasticamente, e o episódio é visto como exemplo de hipocrisia.

O caso "Partygate" continua a evoluir, com novos detalhes surgindo a cada semana. O primeiro-ministro luta para manter seu cargo, enquanto a opinião pública e a imprensa cobram transparência e responsabilidade.

Fonte: G1