A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) anunciou nesta quarta-feira (23 de março de 2022) o reforço imediato de sua presença militar no flanco leste da Europa, em resposta direta à invasão da Ucrânia pela Rússia, que completa exatamente um mês desde seu início. A decisão foi tomada durante uma cúpula de emergência de líderes da aliança em Bruxelas, na Bélgica, onde os chefes de estado e governo aprovaram um novo pacote de medidas de dissuasão e defesa. O objetivo declarado é proteger os países membros da Otan que fazem fronteira com a Rússia, a Ucrânia e Belarus, diante do que a aliança classifica como a maior crise de segurança no continente desde a Segunda Guerra Mundial.

O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, detalhou o plano em entrevista coletiva após a reunião. A aliança vai estabelecer quatro novos grupos de batalha multinacionais na Bulgária, Hungria, Romênia e Eslováquia. Estes grupos se somarão aos quatro já existentes na Estônia, Letônia, Lituânia e Polônia, totalizando oito forças multinacionais ao longo de toda a fronteira leste da aliança. "Estamos falando de dezenas de milhares de tropas em prontidão, além de um aumento significativo em capacidades navais e aéreas", afirmou Stoltenberg. Os Estados Unidos, que já haviam mobilizado milhares de soldados para a Europa nas semanas anteriores ao conflito, também anunciaram o envio de contingentes adicionais, incluindo sistemas antimísseis e aeronaves de combate de última geração. O Reino Unido, o Canadá, a Alemanha e a França também se comprometeram a contribuir com tropas e equipamentos pesados para o esforço de reforço.

A invasão russa, iniciada em 24 de fevereiro de 2022, serviu como um catalisador definitivo para a mudança de postura da Otan. Durante anos, a aliança manteve uma presença rotativa e relativamente modesta nos países do leste, por receio de violar o Ato Fundador Otan-Rússia de 1997, que visava construir confiança mútua. No entanto, a guerra na Ucrânia levou os aliados a reconsiderar fundamentalmente essa abordagem. O presidente dos EUA, Joe Biden, presente na cúpula, foi enfático ao reafirmar o compromisso inabalável dos Estados Unidos com a defesa coletiva prevista no Artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte. "A Otan é uma aliança defensiva. Não buscamos conflito com a Rússia. Mas estamos preparados e defenderemos cada centímetro do território da Otan", declarou Biden, em um recado direto a Moscou.

A reação do Kremlin foi imediata e contundente. O porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, afirmou que o reforço da Otan no flanco leste representa uma "ameaça direta" à segurança nacional da Rússia. "A Otan está acumulando forças em nossas fronteiras. Isso prova que a aliança é uma estrutura hostil e agressiva", declarou Peskov. Ele afirmou que a Rússia será forçada a tomar "medidas adicionais de natureza técnico-militar" para neutralizar o que considera um cerco crescente. Analistas internacionais apontam que a escalada na retórica e o aumento da presença militar de ambos os lados aumentam os riscos de um confronto direto não intencional, embora tanto a Otan quanto a Rússia afirmem publicamente não desejar um conflito armado aberto entre si.

Enquanto os líderes mundiais se reuniam em Bruxelas, a guerra na Ucrânia prosseguia com intensidade. As forças russas continuavam o cerco a cidades estratégicas como Mariupol, Kharkiv e a capital Kiev. O número de refugiados ucranianos que fugiram do país para escapar dos combates ultrapassou a marca de 3,6 milhões, segundo os dados mais recentes do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). A Ucrânia renovou seu pedido por uma zona de exclusão aérea sobre seu território, uma demanda que a Otan rejeita repetidamente, argumentando que isso levaria a uma escalada direta com a Rússia e a uma guerra muito mais ampla. Em vez disso, os aliados continuam a fornecer assistência militar defensiva e ofensiva de forma bilateral, incluindo sistemas antitanque Javelin e mísseis antiaéreos Stinger, que têm se mostrado eficazes no campo de batalha.

A cúpula de Bruxelas também serviu para que os líderes discutissem um novo plano de contingência para o Leste Europeu e a redução da dependência energética do gás russo, um tema central para a segurança futura do continente. A guerra na Ucrânia, que completa um mês, não mostra sinais de arrefecimento, e o reforço da Otan no flanco leste sinaliza que a aliança se prepara para um cenário de longo prazo, com uma Rússia cada vez mais isolada diplomaticamente, mas militarmente ativa em sua vizinhança imediata. A decisão histórica representa a maior reorganização das defesas da Otan desde o fim da Guerra Fria.

Perguntas Frequentes

O que exatamente a Otan decidiu na cúpula de Bruxelas?

A Otan decidiu criar quatro novos grupos de batalha multinacionais na Bulgária, Hungria, Romênia e Eslováquia, dobrando sua presença militar no flanco leste. Além disso, a aliança aumentou o nível de prontidão de suas forças de resposta rápida e posicionou equipamentos pesados na região.

Por que a Otan está reforçando suas tropas na Europa Oriental?

A decisão é uma resposta direta à invasão da Ucrânia pela Rússia, considerada pela aliança como uma ameaça existencial à segurança europeia e uma violação flagrante do direito internacional. O reforço visa dissuadir qualquer possível agressão contra os países membros da Otan.

A Ucrânia é membro da Otan?

Não. A Ucrânia é um país parceiro da aliança, mas não integra a organização militar. A Otan tem deixado claro que não intervirá militarmente diretamente no conflito Ucrânia-Rússia para evitar uma escalada que poderia levar a uma guerra generalizada na Europa.

Qual a diferença entre a 'presença avançada' antiga e a 'postura de dissuasão' atual?

A presença avançada (eFP) era uma força rotativa e limitada, focada principalmente em exercícios e demonstração de solidariedade. A nova postura de dissuasão envolve tropas permanentemente posicionadas ou com capacidade de rotação ultrarrápida, equipamento pré-posicionado, comando e controle integrados e um nível de prontidão muito mais elevado para o combate.

Como a Rússia reagiu ao anúncio?

O Kremlin criticou duramente a decisão, chamando-a de "acúmulo de forças hostil" e uma ameaça direta à segurança nacional russa. A Rússia prometeu adotar "medidas de retaliação técnico-militares" para reequilibrar o que chama de violação de compromissos anteriores pela Otan.