A televisão estatal norte-coreana, Korean Central Television (KCTV), transformou o lançamento do mais recente míssil balístico intercontinental do país em um verdadeiro espetáculo cinematográfico. Com enquadramentos dramáticos, câmera lenta, edição ágil e trilha sonora orquestral, a transmissão deste mês de março de 2022 foi comparada a um trailer de filme de ação por analistas ocidentais.

A reportagem da KCTV não se limitou a mostrar o foguete subindo ao céu. Ela construiu uma narrativa visual que exalta a tecnologia militar do país e a figura do líder Kim Jong-un. Desde os preparativos do lançamento até a explosão controlada do estágio, cada cena foi pensada para gerar impacto e orgulho nacional.

O estilo cinematográfico da KCTV

Nos últimos anos, a emissora estatal adotou um estilo de produção que beira o cinema blockbuster. As imagens dos lançamentos de mísseis passaram a incluir múltiplos ângulos de câmera, alguns posicionados a poucos metros do local de lançamento, outros capturando o míssil em pleno voo a partir de drones. A edição utiliza cortes sincronizados com a música, transições em velocidade variável e closes nos rostos concentrados dos cientistas e militares.

A crítica especializada aponta que a KCTV se inspirou em produções de Hollywood e em vídeos promocionais de empresas aeroespaciais para criar um produto audiovisual que ultrapassa a simples cobertura jornalística. O objetivo é claro: vender a imagem de uma Coreia do Norte forte, tecnologicamente avançada e preparada para se defender.

O lançamento do míssil de 25 de março de 2022

No dia 25 de março de 2022, a Coreia do Norte realizou o teste de um ICBM — identificado por agências internacionais como Hwasong-17. A KCTV acompanhou todas as etapas: o transporte do míssil até a plataforma, o processo de abastecimento, a contagem regressiva e a decolagem. As câmeras registraram o momento exato em que o motor se acendeu e o míssil subiu lentamente, ganhando velocidade até desaparecer nas nuvens.

Destaque para a sequência em que Kim Jong-un aparece observando o lançamento de um bunker de vidro, com expressão séria e confiante. A imagem foi capturada em contraluz, com uma iluminação artificial que realçava sua silhueta — uma composição visual digna de um pôster de cinema. A edição intercalou planos detalhados do líder com imagens do míssil em diferentes estágios, reforçando a associação entre sua figura e o sucesso do programa armamentista.

A transmissão também incluiu gráficos computadorizados mostrando a trajetória do míssil, além de um mapa da península coreana com o alcance estimado. Tudo isso ao som de uma trilha orquestral épica, com crescendos que acompanhavam os momentos de maior tensão.

Propaganda e consolidação do poder

Especialistas em comunicação política afirmam que a KCTV usa o cinema como instrumento de propaganda. O tratamento cinematográfico não apenas informa a população sobre os feitos militares, mas também cria uma mitologia em torno do regime. Cada lançamento é apresentado como uma vitória do povo coreano e uma prova da genialidade de seu líder.

A produção elaborada também tem como alvo a audiência internacional. O regime sabe que as imagens serão repercutidas por veículos do mundo inteiro, e capricha na estética para passar uma mensagem de poder e determinação. É uma forma de comunicação estratégica que mistura orgulho nacional, dissuasão militar e construção de imagem.

Reação internacional

Veículos de imprensa dos Estados Unidos, Europa e Brasil destacaram a qualidade incomum das imagens. A Associated Press classificou a transmissão como "uma produção digna de Hollywood". A revista Time comparou os ângulos de câmera aos do filme "Dunkirk", de Christopher Nolan. Já analistas de defesa apontaram que, por trás do espetáculo visual, o teste representou mais um passo no desenvolvimento de um míssil capaz de atingir qualquer ponto do território continental dos EUA.

A ONU e governos ocidentais condenaram o lançamento, reforçando sanções, mas a Coreia do Norte segue investindo no programa balístico e na comunicação grandiosa de seus feitos militares.

Perguntas frequentes (FAQ)

Por que a Coreia do Norte produz esse tipo de conteúdo cinematográfico?

O regime norte-coreano utiliza a televisão estatal como principal canal de propaganda para a população e para o mundo. Ao produzir conteúdo com alta qualidade estética, busca projetar superioridade tecnológica, coesão nacional e força militar, ao mesmo tempo em que alimenta o culto à personalidade de Kim Jong-un.

Qual a audiência dessas transmissões?

Dentro da Coreia do Norte, a KCTV é o principal veículo de comunicação e atinge a maioria dos lares. No exterior, as imagens são republicadas por agências de notícias e canais oficiais, alcançando milhões de espectadores. O regime também mantém canais no YouTube e em outras plataformas, embora sofram remoções frequentes.

Como a mídia ocidental reage a esse estilo?

A cobertura ocidental geralmente destaca o contraste entre a estética impressionante e a realidade política e econômica do país. Muitos jornalistas e analistas apontam o uso do cinema como ferramenta de propaganda, enquanto outros reconhecem a evolução técnica da produção audiovisual norte-coreana.