A Rússia anunciou oficialmente sua intenção de se retirar da Estação Espacial Internacional (ISS) após 2024, pondo fim a mais de duas décadas de cooperação espacial ininterrupta com os Estados Unidos e outros países. O anúncio foi feito pelo diretor-geral da Roscosmos, Yuri Borisov, em reunião com o presidente Vladimir Putin no dia 26 de julho de 2022. Borisov afirmou que a Rússia precisa concentrar seus recursos no desenvolvimento de seu próprio programa espacial, incluindo a criação de uma estação orbital nacional. A decisão representa o maior abalo na parceria espacial desde o fim da Guerra Fria.
Contexto histórico da cooperação
A parceria entre Rússia e Estados Unidos na área espacial remonta à década de 1990, quando os dois países concordaram em unir esforços para construir a ISS. O módulo russo Zarya foi o primeiro componente da estação a ser lançado, em 1998. Desde então, a cooperação se manteve mesmo em momentos de tensão política, como a Guerra da Ossétia do Sul (2008) e a anexação da Crimeia (2014). A ISS tornou-se um símbolo da possibilidade de colaboração internacional no espaço, envolvendo também as agências ESA, JAXA e CSA.
Os detalhes do anúncio
Borisov afirmou que a Rússia cumprirá todas as suas obrigações contratuais antes de formalizar a saída, prevista para ocorrer após 2024. A decisão, embora esperada por alguns analistas, pegou a NASA de surpresa. A agência espacial americana declarou que não recebeu uma notificação formal e que continua comprometida com a segurança da ISS. O porta-voz da NASA, Josh Finch, disse que a agência está avaliando as implicações da decisão russa e que continuará trabalhando com todos os parceiros para garantir a operação segura da estação.
O impacto das sanções geopolíticas
As sanções impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia contra a indústria espacial russa, em resposta à invasão da Ucrânia em 2022, criaram um ambiente insustentável para a parceria. A Rússia perdeu contratos de lançamento comerciais e o acesso à tecnologia ocidental. Em represália, a Roscosmos suspendeu o fornecimento de motores RD-180 para foguetes Atlas V e interrompeu as operações de lançamento da Soyuz no Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa. Essas medidas tornaram a continuidade da cooperação na ISS cada vez mais inviável politicamente.
Os desafios técnicos para a ISS sem a Rússia
A saída russa representa um desafio crítico para a manutenção da estação. O módulo russo Zvezda é responsável pela propulsão principal da ISS, realizando manobras de correção orbital e desvio de detritos espaciais. Além disso, os módulos russos fornecem parte do oxigênio, água e capacidade de acoplamento para naves de carga e tripuladas. Os principais pontos de atenção são:
- Propulsão: Sem os propulsores do Zvezda, a ISS precisará de uma alternativa para manter a altitude e evitar a reentrada na atmosfera.
- Detritos espaciais: Manobras para evitar colisões com lixo orbital são essenciais e atualmente dependem de empuxo russo.
- Suprimentos: O sistema de geração de oxigênio Elektron, localizado no módulo Zvezda, é vital para a respiração da tripulação.
- Acoplamento: As naves russas Progress e Soyuz utilizam o sistema de acoplamento automático Kurs, que não é compatível com todos os portos americanos.
- Atitude: O controle de orientação da ISS é feito por giroscópios americanos e propulsores russos; a perda destes últimos exigirá ajustes no software de controle.
O projeto da Estação Orbital Russa (ROSS)
A Roscosmos planeja concentrar seus esforços na construção da Estação Orbital Russa (ROSS), que será montada em uma órbita polar com inclinação de 96 graus. Ao contrário da ISS, que orbita a 51,6 graus, a ROSS cobrirá todo o território russo, incluindo a passagem pela Rota do Mar do Norte, permitindo monitoramento climático e de navegação. O primeiro módulo, chamado NEM (Módulo de Energia e Ciência), tem lançamento previsto para 2028. O projeto inclui módulos como o Prichal (nó) e o NEM-2 (laboratório). A ROSS poderá operar de forma autônoma ou eventualmente ser ampliada com módulos de parceiros internacionais.
Reações internacionais e planos de contingência
A NASA anunciou que está desenvolvendo um sistema de propulsão independente para a ISS, em parceria com a SpaceX e outras empresas. A cápsula Dragon pode ser utilizada para correções de órbita, como já demonstrado em missões anteriores. A ESA (Agência Espacial Europeia) expressou "profundo pesar" pela decisão russa, mas reafirmou seu compromisso com a ISS. O Canadá e o Japão também se disseram dispostos a contribuir com recursos adicionais. A Rússia, por sua vez, indicou que pode negociar uma extensão da participação até 2028, desde que as sanções sejam aliviadas.
Impacto na pesquisa científica e no futuro da exploração
A ISS realiza experimentos em microgravidade que não podem ser replicados na Terra. Estudos sobre crescimento de proteínas, comportamento de fluidos, efeitos da radiação em organismos e testes de tecnologias para missões de longa duração estão entre os mais importantes. Com a saída russa, alguns experimentos que dependem de módulos russos podem ser interrompidos ou transferidos. Entretanto, a NASA planeja expandir a capacidade dos módulos americanos (Destiny, Tranquility, Node 2) para compensar.
A longo prazo, a saída russa acelera a transição para estações espaciais comerciais, como a Axiom Space (que já instalou seu primeiro módulo na ISS), a Orbital Reef (Blue Origin e Sierra Space) e a Starlab (Nanoracks e Voyager Space). A expectativa é que por volta de 2030 a ISS seja desativada e substituída por um ecossistema de estações privadas, mantendo a presença humana em órbita baixa.
Principais dúvidas sobre a saída russa da ISS
A ISS pode continuar funcionando sem a Rússia?
Sim, mas exigirá investimentos e adaptações. A propulsão alternativa deve estar disponível até 2025.
Os astronautas russos serão retirados imediatamente?
Não. As tripulações permanecem até o final da participação, que deve ser negociada caso a caso.
O que acontece com os experimentos russos na ISS?
Os equipamentos podem ser transferidos para a ROSS ou mantidos até o descomissionamento.
Quando a ISS será desativada?
O plano atual da NASA é operar a ISS até 2030. A saída russa pode acelerar o cronograma, mas não há data definida.
Há possibilidade de reversão da decisão?
Sim. A decisão é política e pode ser revista se as condições geopolíticas mudarem. Histórico de ameaças anteriores indica que a cooperação espacial é resiliente.
O que significa isso para o espaço brasileiro?
O Brasil não possui voos tripulados à ISS, mas a saída russa pode abrir oportunidades de colaboração com novos parceiros e estações comerciais.