O presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou que a decisão da Finlândia de abandonar sua neutralidade histórica e solicitar a adesão à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) é um "erro". A declaração foi feita durante conversa telefônica com o presidente finlandês, Sauli Niinistö, no dia 14 de maio de 2022, dia em que a Finlândia formalizou seu pedido de ingresso na aliança militar ocidental.
O que disse Putin
De acordo com o Kremlin, Putin disse a Niinistö que a Finlândia estava cometendo um "erro" ao abandonar sua política de neutralidade militar, mantida por décadas. O líder russo afirmou que não havia "ameaças" à segurança da Finlândia e que a decisão era desnecessária. Segundo a nota oficial russa, Putin alertou que a adesão finlandesa à Otan teria um "impacto negativo" nas relações bilaterais entre os dois países.
Putin também argumentou que a Rússia não tinha "problemas" com a Finlândia antes do pedido de adesão e que a expansão da Otan para o norte da Europa representava uma "mudança na situação geopolítica" que exigiria uma resposta russa. O presidente russo mencionou que eventuais "medidas de retaliação" poderiam incluir o reforço militar na fronteira com a Finlândia, que se estende por mais de 1.300 quilômetros.
A neutralidade finlandesa
A Finlândia adotou uma política de neutralidade militar após o fim da Segunda Guerra Mundial, sob a chamada doutrina Paasikivi-Kekkonen. Durante a Guerra Fria, o país conseguiu manter um equilíbrio entre as potências ocidentais e a União Soviética, evitando aderir a qualquer aliança militar e mantendo boas relações comerciais com ambos os lados.
Após o colapso da União Soviética em 1991, a Finlândia aproximou-se gradualmente do Ocidente, ingressando na União Europeia em 1995, mas manteve sua neutralidade militar. O país nunca havia buscado a adesão à Otan, pois a neutralidade era considerada um pilar da identidade nacional e uma garantia de estabilidade nas relações com a Rússia.
Por que a Finlândia mudou de posição
A invasão russa da Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022 foi o catalisador para a mudança histórica na política externa finlandesa. O ataque a um país vizinho, que também não era membro da Otan, gerou um sentimento de vulnerabilidade na Finlândia. O apoio popular à adesão à Otan, que historicamente girava em torno de 20% a 30%, saltou para mais de 70% nas pesquisas realizadas após o início da guerra.
Em 12 de maio de 2022, o presidente Sauli Niinistö e a primeira-ministra Sanna Marin emitiram uma declaração conjunta defendendo que a Finlândia deveria solicitar a adesão à Otan "sem demora". O parlamento finlandês debateu a questão e aprovou a solicitação com ampla maioria: 188 votos a favor e apenas 8 contra.
Para o governo finlandês, a adesão à Otan oferece a proteção do Artigo 5º do tratado, que estabelece que um ataque a um membro é um ataque a todos. A neutralidade, que por décadas foi vista como suficiente para garantir a segurança finlandesa, não parecia mais oferecer as mesmas garantias diante do comportamento agressivo da Rússia na Europa.
A reação da Rússia
Além da declaração de Putin classificando a decisão como "erro", a Rússia anunciou que tomaria "medidas de retaliação" para responder ao que chamou de "expansão da Otan para as fronteiras russas". O Ministério das Relações Exteriores russo afirmou que a adesão finlandesa "viola o princípio de indivisibilidade da segurança" e que a Rússia seria "forçada a tomar medidas de caráter técnico-militar" para garantir sua própria segurança.
Entre as medidas anunciadas pela Rússia estavam o fortalecimento das forças militares no Distrito Militar Ocidental e a possível instalação de sistemas de mísseis na região do Mar Báltico. A Rússia também alertou que poderia revisar sua política em relação ao status de ilhas no Mar Báltico.
Análise: a declaração de Putin no contexto
A afirmação de Putin de que a Finlândia cometeu um "erro" precisa ser contextualizada. A decisão finlandesa não ocorreu em um vácuo geopolítico. Foi uma resposta direta à invasão russa da Ucrânia, que começou em fevereiro de 2022. O próprio Putin, ao argumentar que não havia ameaça à Finlândia, ignora que a ação militar contra a Ucrânia foi o motivo central da mudança de posição finlandesa.
Analistas internacionais apontam que a declaração russa tenta deslocar a responsabilidade pela expansão da Otan para os próprios países que buscam adesão, quando na verdade a agressão russa foi o fator determinante. A Finlândia exerceu seu direito soberano de buscar garantias de segurança em uma aliança defensiva, direito que não é contestado nem mesmo pela Rússia em termos formais.
Repercussão internacional
O pedido de adesão da Finlândia à Otan foi amplamente apoiado pelos países membros da aliança. O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, afirmou que a Finlândia e a Suécia seriam "bem-vindas" e que o processo de adesão seria "ágil". Os Estados Unidos, o Reino Unido e outros países da Otan ofereceram garantias de segurança à Finlândia durante o período entre a solicitação e a ratificação.
A Suécia também anunciou sua intenção de aderir à Otan no mesmo período, abandonando sua neutralidade de mais de 200 anos. Ambos os países nórdicos haviam mantido uma política de não alinhamento militar por décadas, e a decisão simultânea representou uma das maiores mudanças na arquitetura de segurança europeia desde o fim da Guerra Fria.
Perguntas frequentes
Por que a Finlândia decidiu entrar na Otan?
A decisão foi motivada principalmente pela invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022. O governo e a população finlandesa passaram a ver a adesão à Otan como a melhor garantia de segurança diante de uma Rússia que demonstrou disposição de usar a força militar contra países vizinhos.
Putin ameaçou a Finlândia?
Putin afirmou que a Rússia tomaria "medidas de retaliação", mas não especificou uma ameaça militar direta à Finlândia. As medidas mencionadas incluíam reforço militar na região do Mar Báltico e na fronteira com a Finlândia.
O que muda com a Finlândia na Otan?
A fronteira entre a Otan e a Rússia mais que dobrou, passando a incluir mais de 2.500 quilômetros de extensão. O Mar Báltico tornou-se praticamente um "lago da Otan", com todos os países da região, exceto a Rússia, sendo membros da aliança.
Fonte: UOL Confere