A Finlândia e a Suécia anunciaram em maio de 2022 a intenção de ingressar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), rompendo com décadas de neutralidade militar. A decisão, histórica para os dois países nórdicos, foi motivada pela invasão russa da Ucrânia iniciada em fevereiro do mesmo ano. No entanto, o processo de adesão esbarrou em uma resistência inesperada: a Turquia, membro da aliança desde 1952, bloqueou o início das negociações formais. Este artigo explica as razões históricas, políticas e estratégicas por trás da posição turca.

A relação da Turquia com a Otan

A Turquia integra a Otan desde 1952 e possui o segundo maior exército da aliança, atrás apenas dos Estados Unidos. Sua localização geoestratégica — na confluência da Europa com a Ásia, com controle sobre os estreitos do Bósforo e dos Dardanelos, que ligam o Mar Negro ao Mediterrâneo — a torna um membro de importância singular para a segurança do flanco sul da aliança.

Nos últimos anos, no entanto, o governo do presidente Recep Tayyip Erdogan tem adotado uma política externa cada vez mais autônoma, que inclui a aproximação com a Rússia em temas como energia e defesa. A compra do sistema de defesa antimísseis S-400 da Rússia em 2017 gerou forte atrito com os Estados Unidos, que excluíram a Turquia do programa do caça F-35. Apesar das tensões, Ancara mantém seu papel central na Otan, especialmente em relação à segurança do Mar Negro e ao conflito na Síria.

A questão curda como entrave central

O principal ponto de discórdia entre a Turquia e os candidatos nórdicos é a questão curda. Ancara acusa a Finlândia e a Suécia de abrigarem membros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), organização considerada terrorista pela Turquia, pelos Estados Unidos e pela União Europeia. O PKK trava uma insurgência contra o Estado turco desde 1984, conflito que já causou dezenas de milhares de mortes.

Além do PKK, a Turquia também exige que os países nórdicos adotem uma postura mais dura em relação às Unidades de Proteção Popular (YPG), milícia curda síria que Ancara considera uma extensão do PKK. A Suécia e a Finlândia, por sua vez, historicamente adotaram uma política mais aberta em relação a refugiados e exilados políticos curdos, o que inclui membros e simpatizantes desses grupos.

A Turquia alega que a adesão dos dois países à Otan sem contrapartidas concretas no combate ao terrorismo fortaleceria grupos que representam uma ameaça direta à sua segurança nacional. Para Ancara, a aliança não pode abrigar países que ofereçam refúgio a organizações que atacam um de seus membros.

O embargo de armas como agravante

Outro fator que contribuiu para a posição turca foi o embargo de armas imposto pela Suécia e pela Finlândia à Turquia em 2019, em resposta à ofensiva militar turca no norte da Síria contra as YPG. Embora a Suécia tenha começado a rever as restrições em 2022, Ancara queria garantias formais e vinculantes de que o embargo seria totalmente suspenso como condição para apoiar a adesão.

A Turquia argumentava que era contraditório que dois países que desejam ingressar na Otan mantivessem restrições à venda de equipamentos de defesa a um membro da aliança. A exigência de que o embargo fosse levantado tornou-se uma das condições centrais de Ancara para desbloquear o processo de adesão.

As exigências formais da Turquia

Durante as negociações, a Turquia apresentou um conjunto claro de exigências aos dois países nórdicos:

  1. Extradição de suspeitos de terrorismo: Ancara pediu a extradição de dezenas de pessoas que considera ameaças à segurança, incluindo membros do PKK e seguidores do clérigo Fethullah Gülen, acusado por Erdogan de orquestrar a tentativa de golpe de Estado em 2016.
  2. Compromissos concretos antiterrorismo: A Turquia exigiu que Finlândia e Suécia adotassem medidas mais rigorosas contra o PKK e suas ramificações, incluindo as YPG na Síria.
  3. Fim do embargo de armas: Ancara pediu a suspensão total e imediata de todas as restrições à venda de armas impostas pelos dois países.
  4. Cooperação em segurança e inteligência: A Turquia queria acordos bilaterais para compartilhamento de informações e cooperação em operações antiterrorismo.

O acordo tripartite de Madri

Após semanas de negociações diplomáticas intensas, mediadas pela secretária-geral adjunta da Otan, Finlândia, Suécia e Turquia assinaram um memorando de entendimento tripartite durante a cúpula da aliança em Madri, em junho de 2022. Pelo acordo:

  • Finlândia e Suécia se comprometeram a acelerar o processamento dos pedidos de extradição de suspeitos ligados ao PKK e a outras organizações consideradas terroristas pela Turquia.
  • Os dois países nórdicos concordaram em levantar as restrições à exportação de armas para a Turquia.
  • Estabeleceu-se um mecanismo de consulta e cooperação regular em questões de segurança e combate ao terrorismo.
  • Finlândia e Suécia se comprometeram a apoiar a Turquia em iniciativas antiterrorismo no âmbito da Otan.

Com o acordo, a Turquia suspendeu seu veto e permitiu a abertura formal das negociações de adesão. O processo de ratificação, no entanto, levou quase dois anos para ser concluído. A Turquia aprovou a adesão da Finlândia em março de 2023 e da Suécia em janeiro de 2024, após novos desdobramentos, incluindo queimas do Alcorão em Estocolmo que geraram nova crise diplomática.

Perguntas frequentes

Por que a Finlândia e a Suécia decidiram ingressar na Otan?

A invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022 provocou uma mudança histórica na política de segurança dos dois países. A Finlândia, que compartilha uma fronteira de 1.340 km com a Rússia, e a Suécia, que não participava de alianças militares desde o início do século XIX, viram na Otan a garantia de segurança necessária diante da agressividade russa.

A Turquia pode vetar a entrada de novos membros na Otan?

Sim. As decisões da Otan são tomadas por consenso, o que significa que todos os membros existentes precisam aprovar a adesão de novos países. Isso dá a cada Estado-membro, incluindo a Turquia, poder de veto efetivo sobre expansões da aliança.

O que a Turquia ganhou com o acordo?

A Turquia obteve concessões importantes em três áreas: compromissos reforçados de combate ao terrorismo por parte de Finlândia e Suécia, aceleração dos processos de extradição e o fim do embargo de armas. Além disso, Ancara fortaleceu sua posição como ator central dentro da Otan, demonstrando sua capacidade de influenciar decisões estratégicas da aliança.