Principais pontos
- Arthur do Val (União Brasil) teve o mandato cassado pela Alesp com 73 votos a favor e 4 contra.
- A cassação foi motivada por áudios misóginos sobre mulheres ucranianas refugiadas.
- Deputadas como Isa Penna (PSOL) destacaram o caráter histórico da decisão contra a violência política de gênero.
- Com a perda do mandato, o ex-deputado fica inelegível por 8 anos.
- O caso é considerado um precedente importante no combate à misoginia na política brasileira.
A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) cassou o mandato do deputado estadual Arthur do Val (União Brasil) na noite desta quarta-feira (18), por quebra de decoro parlamentar. A decisão, tomada por ampla maioria, foi motivada pelo vazamento de áudios em que o ex-parlamentar faz comentários misóginos sobre mulheres ucranianas refugiadas. A sessão foi marcada por discursos contundentes de deputadas que celebraram a decisão como uma vitória contra a violência política de gênero.
Contexto da cassação
Conhecido como "Mamãe Falei", Arthur do Val construiu sua carreira política em cima de uma persona agressiva nas redes sociais. Os áudios, gravados durante uma viagem à Ucrânia em março de 2022, revelaram um discurso particular repleto de machismo e desprezo pelas vítimas da guerra. Nas gravações, ele afirmou que as mulheres ucranianas eram "fáceis" por serem "pobres" e que "um brasileiro educado pegaria elas fácil". O teor das declarações gerou uma crise imediata em seu partido e na sua base de apoio, resultando na abertura de um processo disciplinar no Conselho de Ética da Alesp.
Reação das deputadas
Diversas parlamentares, de diferentes espectros políticos, subiram à tribuna para demonstrar solidariedade às mulheres ucranianas e repudiar a atitude do colega. A deputada Isa Penna (PSOL), conhecida por sua luta contra a violência política de gênero, fez um discurso emocionado que ecoou no plenário. "Ele usou o mandato que recebeu do povo de São Paulo para despejar ódio contra mulheres que já estavam em uma situação de extrema vulnerabilidade. Hoje, a Alesp corrige esse erro e mostra que misoginia tem consequências", discursou. Mônica Seixas (PSOL) também celebrou a decisão: "Hoje, a Alesp mostra que está do lado certo da história, punindo um caso explícito de violência política de gênero. Que este seja um precedente para que outros casos não fiquem impunes."
A cassação foi aprovada por 73 votos favoráveis, 4 contrários e 2 abstenções, refletindo uma união rara entre partidos de situação e oposição em torno da defesa do decoro parlamentar e do respeito às mulheres. Apenas uma pequena bancada de aliados próximos ao ex-deputado tentou minimizar a gravidade do ato, argumentando que a punição era desproporcional.
Consequências políticas
"Mamãe, fui cassado", frase dita por Arthur do Val ao deixar o plenário, tornou-se imediatamente um dos assuntos mais comentados nas redes sociais. A ironia de sua própria expressão de efeito, que o tornou famoso na internet, agora se voltava contra ele, marcando o fim de sua trajetória política meteórica. O ex-deputado deixou o prédio da Alesp sem falar com a imprensa, enquanto grupos de manifestantes comemoravam a decisão do lado de fora.
Com a perda do mandato, Arthur do Val fica inelegível por oito anos, de acordo com a Lei da Ficha Limpa. O processo foi célere: o Conselho de Ética foi instalado em 29 de março, e o relatório final foi aprovado em menos de dois meses. A agilidade foi vista como um recado da classe política de que a violência contra a mulher não seria tolerada, especialmente em um ano eleitoral. O movimento político "Mamãe Falei" perdeu força e o influenciador se afastou da vida pública.
O caso Arthur do Val tornou-se um marco na luta contra a violência política de gênero no Brasil, servindo como precedente para inspirar outras casas legislativas a agirem com mais rigor em casos similares. A decisão da Alesp foi elogiada por entidades como a ONU Mulheres e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). A frase "Mamãe, fui cassado" entrou para o vocabulário político nacional como símbolo da queda de um discurso misógino e arrogante que, por muito tempo, foi disfarçado de "liberdade de expressão" nas redes sociais.
Fonte: CartaCapital