O mercado financeiro global opera em ritmo de cautela nesta quarta-feira, 29 de junho de 2022, com investidores atentos a uma série de fatores que influenciam o humor dos mercados. As bolsas mundiais registram quedas, enquanto o mercado acompanha as falas de dirigentes do Federal Reserve (Fed), o andamento da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Combustíveis no Congresso brasileiro e indicadores econômicos relevantes. O cenário é de aversão a risco, com impactos sobre moedas, juros e commodities.

Mercados globais em queda

As principais bolsas de valores do mundo operam em terreno negativo nesta sessão. Em Wall Street, os índices S&P 500, Dow Jones e Nasdaq registram perdas, refletindo o temor dos investidores com o aperto monetário agressivo nos Estados Unidos e os sinais de desaceleração econômica global. O mercado de renda variável tem sido pressionado pela expectativa de juros mais altos por mais tempo, o que reduz o apetite por ativos de risco e favorece a busca por renda fixa e ativos considerados mais seguros.

Na Europa, os índices também acompanham o movimento de baixa, influenciados pela alta da inflação — que atinge níveis recordes em diversos países — e pela crise energética decorrente do conflito entre Rússia e Ucrânia. O índice Stoxx 600 opera em queda, com perdas generalizadas entre os setores, especialmente os mais cíclicos. Na Ásia, os mercados fecharam em terreno negativo, com destaque para as perdas em Xangai e Hong Kong, impactadas pelas preocupações com a economia chinesa e as medidas de lockdown devido à COVID-19, que afetam a atividade industrial e o consumo no país.

Falas do Federal Reserve

Os discursos de autoridades do Federal Reserve estão no centro das atenções dos investidores nesta quarta-feira. O presidente do banco central americano, Jerome Powell, participa de painel no Fórum do Banco Central Europeu em Sintra, Portugal, e suas declarações são minuciosamente analisadas em busca de sinais sobre os próximos passos da política monetária dos Estados Unidos.

Powell reafirmou o compromisso do Fed em conter a inflação, que atingiu os maiores níveis em quatro décadas no país. O chair do Fed sinalizou que a instituição continuará elevando os juros de forma agressiva, mesmo que isso possa desacelerar a economia e aumentar o risco de recessão. A mensagem foi interpretada pelo mercado como uma confirmação de que o ciclo de aperto monetário não arrefece tão cedo, e que o banco central está disposto a tolerar algum arrefecimento da atividade econômica para garantir a estabilidade de preços.

A expectativa majoritária entre os investidores é de nova alta de 0,75 ponto percentual na reunião de julho do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), após a elevação da mesma magnitude em junho — o maior aumento desde 1994. Os investidores também monitoram falas de outros dirigentes do Fed, como James Bullard (St. Louis) e Loretta Mester (Cleveland), que têm adotado posturas hawkish em suas comunicações recentes, defendendo juros mais altos para conter a inflação.

PEC dos Combustíveis no Brasil

No cenário doméstico, a PEC dos Combustíveis é o principal foco de atenção do mercado financeiro brasileiro. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC 123/2022) visa limitar a cobrança do ICMS sobre combustíveis, energia elétrica, comunicações e transporte coletivo, classificando esses itens como essenciais. O objetivo declarado é reduzir o preço final ao consumidor em meio à escalada inflacionária que pressiona o orçamento das famílias brasileiras.

O impacto fiscal da medida é amplamente debatido entre analistas e investidores. As estimativas de perda de arrecadação dos estados variam conforme o cenário de preços e consumo, e o mercado acompanha de perto as negociações políticas em torno das possíveis compensações financeiras da União aos entes federativos. A aprovação da PEC é vista como uma tentativa do governo de aliviar a pressão inflacionária sobre a população em ano eleitoral, mas gera preocupações quanto à sustentabilidade fiscal de médio e longo prazo, especialmente em um ambiente já marcado por incertezas quanto ao teto de gastos.

A tramitação no Congresso envolve articulações políticas complexas, com negociações entre governo, líderes partidários e governadores. O texto já foi aprovado na Câmara dos Deputados e segue para análise do Senado Federal, onde pode sofrer alterações. O mercado monitora cada etapa do processo legislativo para avaliar o impacto final nas contas públicas e o efeito sobre a trajetória da dívida pública.

Mercado brasileiro e Ibovespa

O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, opera pressionado pelo cenário externo adverso e pelas incertezas fiscais domésticas. As ações de empresas ligadas a commodities metálicas e petrolíferas acompanham a queda dos preços internacionais, enquanto os papéis de empresas mais expostas ao consumo interno refletem as preocupações com a inflação elevada e a manutenção da taxa Selic em patamar restritivo. O índice busca se firmar em meio a um ambiente de aversão a risco que domina os mercados globais.

O dólar comercial oscila frente ao real, influenciado tanto pelo movimento global de busca por ativos seguros (flight to quality) quanto pelas questões fiscais brasileiras. A moeda americana reflete o ambiente de aversão a risco global e as incertezas em torno do cenário político-econômico doméstico, com investidores monitorando de perto as pesquisas eleitorais e as discussões sobre o Orçamento de 2023.

As taxas dos contratos de juros futuros (DI) operam em alta na B3, precificando o aperto monetário em curso e os riscos fiscais associados à PEC dos Combustíveis e ao cenário eleitoral. O mercado de renda fixa segue volátil, com os investidores ajustando suas posições diante das novas informações sobre a trajetória esperada da política monetária e do quadro fiscal.

Cenário macroeconômico e commodities

No front macroeconômico, os investidores digerem dados de inflação ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, o índice PCE (Personal Consumption Expenditures), medida de inflação preferida do Fed, segue em patamares elevados, reforçando a necessidade de aperto monetário. Na Europa, a inflação ao consumidor atinge recordes na zona do euro, pressionando o Banco Central Europeu a adotar uma postura mais dura e iniciar seu ciclo de alta de juros ainda neste ano.

No Brasil, o IPCA-15 de junho, divulgado recentemente, sinaliza que a inflação segue alta, mas com sinais de arrefecimento em alguns componentes, como alimentação no domicílio. O mercado também acompanha a divulgação de indicadores de atividade econômica, como a Pesquisa Industrial Mensal e o volume de serviços, para avaliar o ritmo da recuperação pós-pandemia e os impactos do aperto monetário sobre a economia real.

O mercado de commodities opera com volatilidade, influenciado pelas preocupações com a demanda global e pelo fortalecimento do dólar. O petróleo Brent recua, refletindo os temores de desaceleração econômica que podem reduzir a demanda por combustíveis, ainda que a oferta permaneça restrita devido às sanções à Rússia. O minério de ferro também opera em queda na China, impactado pelas incertezas sobre a retomada da economia chinesa e as medidas de estímulo do governo. As commodities agrícolas, como soja e milho, acompanham o movimento de baixa, com investidores monitorando as condições climáticas e as safras no hemisfério norte.

Perguntas frequentes

1. Por que as bolsas mundiais estão caindo?
As bolsas caem devido à combinação de aperto monetário global para conter a inflação — com elevação de juros pelos principais bancos centrais —, temores de recessão econômica nos Estados Unidos e na Europa, incertezas geopolíticas decorrentes da guerra na Ucrânia e preocupações com a desaceleração da economia chinesa. O ambiente de aversão a risco reduz o apetite por ativos de bolsa e favorece a alocação em renda fixa e ativos considerados mais seguros.

2. O que é a PEC dos Combustíveis e como afeta o mercado?
A PEC dos Combustíveis (PEC 123/2022) é uma proposta de emenda à Constituição que limita a alíquota do ICMS sobre combustíveis, energia elétrica, comunicações e transporte coletivo. O mercado monitora seu impacto fiscal, já que a redução da arrecadação estadual pode exigir compensações da União, afetando o equilíbrio das contas públicas. A tramitação e as eventuais compensações são acompanhadas de perto pelos agentes financeiros.

3. Quais são as expectativas para os juros nos Estados Unidos?
O mercado espera que o Fed continue elevando os juros nas próximas reuniões, com alta de 0,75 ponto percentual em julho amplamente precificada. A trajetória dos juros dependerá da evolução da inflação e dos dados econômicos, como o relatório de empregos (payroll) e os índices de preços ao consumidor. A comunicação do Fed segue sendo monitorada de perto para ajuste de expectativas.

4. Como o investidor brasileiro deve se posicionar?
Em cenário de alta volatilidade, especialistas recomendam cautela e diversificação. A renda fixa atrelada ao CDI e aos juros futuros pode oferecer boas oportunidades em um ambiente de Selic elevada, enquanto a renda variável exige seleção criteriosa de ativos com fundamentos sólidos. O cenário fiscal e eleitoral adiciona camadas de incerteza que recomendam atenção redobrada ao noticiário político e econômico.

5. Qual a perspectiva para o câmbio?
O dólar deve seguir volátil, influenciado pelo cenário externo — com apreciação global da moeda americana devido ao aperto monetário do Fed — e doméstico, com destaque para o risco fiscal, o calendário eleitoral e o fluxo comercial brasileiro. A tendência de curto prazo dependerá da evolução desses fatores e da comunicação das autoridades econômicas.