18 de março de 2023

O governo chinês fez uma série de pedidos ao Palácio do Planalto para definir a pauta da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China. Diante das demandas, a equipe presidencial brasileira optou por enxugar a agenda, priorizando temas comerciais e de investimento e adiando discussões geopolíticas consideradas sensíveis para o momento político doméstico.

Contexto da visita

A relação entre Brasil e China é uma das mais importantes do cenário global. A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009, com um fluxo de comércio bilateral que ultrapassa US$ 100 bilhões anuais. O Brasil exporta principalmente soja, minério de ferro, petróleo e celulose, enquanto importa manufaturados, eletrônicos e insumos industriais. Em 2023, a guerra na Ucrânia e a competição estratégica entre Estados Unidos e China tornaram a parceria ainda mais relevante para ambos os lados.

O presidente Lula, em seu terceiro mandato, busca reposicionar o Brasil no cenário internacional, e a China é peça-chave nessa estratégia. A visita oficial, a primeira de Lula à China desde seu retorno ao poder, foi inicialmente agendada para o final de março de 2023, mas acabou remarcada para abril após um breve adiamento. A comitiva brasileira incluiria uma ampla delegação de ministros e empresários, sinalizando a importância econômica do encontro.

Chanceleres dos dois países vinham negociando os termos da visita desde o início do ano, com o Itamaraty buscando equilibrar as expectativas chinesas com a necessidade de evitar desgastes no Congresso e na opinião pública brasileira. A China, por sua vez, via na visita uma oportunidade de consolidar sua influência na América Latina e de avançar em projetos da Nova Rota da Seda.

As demandas chinesas

De acordo com informações divulgadas pela imprensa, o governo chinês apresentou uma lista ampla de temas que gostaria de ver discutidos durante o encontro bilateral. Entre os pontos de interesse estavam:

  • Cooperação em ciência e tecnologia, com ênfase em 5G, inteligência artificial e computação em nuvem;
  • Investimentos em infraestrutura, incluindo ferrovias, portos e energia renovável;
  • Acordos comerciais para ampliar as exportações chinesas de manufaturados e tecnologia;
  • Discussões geopolíticas, como a guerra na Ucrânia e o papel da China na mediação de conflitos;
  • Posicionamento conjunto em organismos multilaterais, como a ONU e o BRICS;
  • Cooperação espacial e em biotecnologia, áreas nas quais a China tem investido pesadamente.

Os chineses também demonstraram interesse em abordar temas sensíveis, como direitos humanos e a situação em Taiwan, o que gerou cautela no Planalto. O governo brasileiro, por sua vez, buscava evitar que a visita fosse interpretada como um alinhamento automático às posições de Pequim em questões geopolíticas delicadas.

Além disso, havia pressão de setores empresariais chineses para que o Brasil facilitasse a entrada de produtos de alta tecnologia, como equipamentos de telecomunicações da Huawei e veículos elétricos da BYD. Essas demandas esbarravam em resistências de setores da indústria nacional e em preocupações com segurança cibernética.

A decisão do Planalto

Diante da extensa lista de demandas, o Palácio do Planalto decidiu enxugar a pauta da visita. A estratégia foi focar em temas com maior potencial de resultado imediato e evitar assuntos que pudessem gerar desgaste político ou controvérsias internas.

O que foi priorizado:

  • Acordos comerciais e de investimento, com anúncios de parcerias em infraestrutura e energia;
  • Cooperação científica em áreas não sensíveis, como agricultura, saúde e ciência básica;
  • Facilitação de comércio e redução de barreiras tarifárias para produtos brasileiros, como carne bovina e soja;
  • Memorandos de entendimento em educação e turismo.

O que foi cortado ou adiado:

  • Discussões sobre tecnologia 5G e inteligência artificial, consideradas prematuras ou estratégicas demais para serem tratadas em curto prazo;
  • Temas geopolíticos divisivos, como a posição em relação à Rússia e à Ucrânia e a eventual adesão do Brasil ao projeto chinês da Nova Rota da Seda;
  • Qualquer menção a Taiwan ou direitos humanos, para evitar atritos com o Congresso e a opinião pública brasileira, que acompanha com atenção as ações de Pequim.

A decisão de enxugar a pauta foi tomada em conjunto pelos ministros das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e da Casa Civil, Rui Costa, com a aprovação do presidente Lula. O cálculo político levou em conta a necessidade de manter boas relações com a China sem gerar ruídos desnecessários com os Estados Unidos e com a base conservadora do Congresso.

Expectativas para a visita

Apesar do enxugamento, a visita é considerada de alto significado estratégico. O Brasil espera anunciar pacotes de investimentos chineses em ferrovias, portos e projetos de energia solar e eólica. Além disso, deve ser assinado um acordo para a retomada das exportações de carne bovina brasileira para a China, suspensas após um caso atípico de encefalopatia espongiforme bovina (mal da vaca louca) em 2023.

A comitiva brasileira incluirá ministros das pastas de Agricultura, Minas e Energia, Desenvolvimento, e Ciência e Tecnologia, além de uma delegação de empresários dos setores de agronegócio, mineração e infraestrutura. Do lado chinês, o presidente Xi Jinping deve receber Lula no Grande Palácio do Povo, em Pequim, com honras de Estado. A agenda inclui ainda reuniões com o primeiro-ministro chinês e participação em fóruns de negócios.

Analistas apontam que a visita, mesmo com pauta reduzida, representa um gesto importante de aproximação entre os dois países. A China busca diversificar suas fontes de alimentos e energia, enquanto o Brasil quer garantir acesso ao mercado chinês e atrair investimentos para infraestrutura. A expectativa é que a visita ocorra entre abril e maio de 2023, abrindo caminho para novas rodadas de negociação.

Repercussão no Brasil

No Brasil, o anúncio da viagem e dos ajustes na pauta gerou reações mistas. Entidades do agronegócio comemoraram a prioridade dada à agenda comercial, especialmente a retomada das exportações de carne. Já setores da indústria e do Congresso manifestaram preocupação com a possibilidade de o Brasil se tornar excessivamente dependente da China, tanto como comprador de commodities quanto como fornecedor de tecnologia.

O governo, no entanto, defendeu a abordagem pragmática. Em declarações à imprensa, o ministro das Relações Exteriores afirmou que a visita ocorre em um momento de "reorganização da economia global" e que o Brasil precisa estar aberto a parcerias que gerem emprego e renda. O Planalto também procurou ressaltar que a pauta enxuta não significa alinhamento automático às posições chinesas em todos os temas.

Perguntas frequentes

Por que o Planalto enxugou a pauta?

Para evitar temas polêmicos e focar em resultados concretos de comércio e investimento, além de evitar desgaste político com setores do Congresso e da opinião pública que enxergam com reservas uma aproximação excessiva com a China em temas geopolíticos.

Quais foram os principais pedidos da China?

A China pediu inclusão de temas tecnológicos (5G, IA), geopolíticos (Ucrânia, Taiwan) e comerciais, além de cooperação em infraestrutura e energia. O governo brasileiro considerou alguns desses temas excessivos ou sensíveis para o momento.

A visita foi adiada?

Sim, a visita inicialmente prevista para março foi adiada para abril de 2023, após ajustes de agenda por ambas as partes e após Lula ter contraído uma pneumonia leve, o que exigiu repouso médico e reorganização da programação.

O que o Brasil espera ganhar com a visita?

O Brasil espera anunciar investimentos chineses em infraestrutura, retomar as exportações de carne bovina e fortalecer a cooperação em agricultura e energia. Além disso, a visita serve para reposicionar o país como ator global relevante após anos de isolamento diplomático.

Houve críticas à decisão de cortar temas geopolíticos?

Sim. Parte da imprensa e de diplomatas de carreira consideraram que o Brasil perdeu a oportunidade de discutir temas de relevância global, como a guerra na Ucrânia, o que poderia fortalecer o papel do país como mediador. O governo, porém, avaliou que esses temas não trariam ganhos imediatos e poderiam gerar atritos desnecessários.