Um ranking recente de transparência pública, amplamente repercutido pelo portal UOL Confere, escancarou um déficit de transparência no Poder Legislativo estadual brasileiro. Das 27 Assembleias Legislativas do país, apenas quatro atingiram um nível de classificação considerado positivo nos critérios de acesso à informação e prestação de contas. O resultado acende um alerta sobre a dificuldade que o cidadão tem para fiscalizar o trabalho dos seus representantes e acompanhar a destinação dos recursos públicos.
Metodologia do Ranking de Transparência
A avaliação foi conduzida com base nos parâmetros da Lei de Acesso à Informação (LAI - Lei 12.527/2011) e em boas práticas de governo aberto. Foram analisados diversos aspectos dos portais oficiais das assembleias, incluindo:
- Conteúdo: Disponibilidade de informações institucionais, agenda dos deputados, projetos de lei em tramitação e diário oficial.
- Prestação de Contas: Divulgação de receitas, despesas, licitações, contratos e salários dos servidores de forma atualizada e detalhada.
- Usabilidade: Facilidade de navegação, existência de buscadores internos, acessibilidade para pessoas com deficiência e uso de linguagem cidadã.
- Interatividade: Presença de ouvidoria ativa, canais de denúncia e ferramentas que permitam a participação popular nas decisões.
O ranking atribuiu pontuações que variavam entre "baixa", "média", "regular boa" e "ótima". Apenas as assembleias que atingiram as duas últimas classificações foram consideradas bem avaliadas, demonstrando um nível satisfatório de conformidade com a LAI.
As Quatro Exceções: Características dos Destaques
As quatro Assembleias Legislativas que se destacaram positivamente no levantamento compartilham características importantes. Elas investiram em portais da transparência robustos, com dados abertos e de fácil compreensão. Os principais pontos em comum foram:
- Atualização em Tempo Real: Dados orçamentários e financeiros eram disponibilizados quase que instantaneamente, permitindo um acompanhamento preciso da gestão fiscal.
- Navegação Intuitiva: Os sites eram estruturados de forma lógica, com menus claros e ferramentas de busca eficientes, facilitando a localização de informações mesmo para cidadãos sem conhecimento técnico em administração pública.
- Transparência Ativa: As informações eram publicadas de forma proativa, sem que o cidadão precisasse fazer um pedido formal de acesso à informação, seguindo o princípio de que a publicidade é a regra e o sigilo, a exceção.
- Ouvidoria Eficiente: Canais de atendimento ao cidadão bem divulgados, com respostas dentro do prazo legal e relatórios de gestão disponíveis para consulta.
Esses exemplos mostram que é possível cumprir a LAI e oferecer um serviço de qualidade ao contribuinte, servindo de modelo para as demais casas legislativas que desejam melhorar seus índices de transparência.
O Retrato da Maioria: Problemas Recorrentes
A grande maioria das Assembleias Legislativas, no entanto, apresentou desempenho classificado como "baixo" ou "médio". Os problemas mais frequentemente identificados pelos avaliadores foram:
- Informações Desatualizadas: Dados de licitações e folhas de pagamento com meses ou até anos de atraso, o que inviabiliza qualquer controle social efetivo sobre os gastos públicos.
- Falta de Dados Essenciais: Ausência de informações sobre diárias de viagens, contratos de emergência ou a agenda pública dos deputados estaduais.
- Má Estrutura dos Portais: Sites confusos, com links quebrados, formatos de arquivo não padronizados (dificultando a análise) e falta de acessibilidade para pessoas com deficiência.
- Resistência à Padronização: Enquanto algumas assembleias fornecem dados em formatos abertos (CSV, JSON), outras se limitam a imagens de documentos escaneados, impossibilitando o tratamento automatizado das informações.
A situação revela uma resistência de muitos gestores em abrir os dados para a sociedade, contrariando o espírito da LAI e dificultando a missão do jornalismo investigativo e dos órgãos de controle.
Impactos da Falta de Transparência para a Sociedade
A opacidade no Legislativo estadual tem consequências diretas na vida do cidadão. Sem acesso a informações claras, o eleitor não consegue avaliar o desempenho do seu deputado, identificar desvios de conduta ou cobrar a correta aplicação dos recursos públicos. A falta de transparência é um terreno fértil para a corrupção, o superfaturamento de contratos e o desperdício de dinheiro público.
Além disso, a transparência é um pilar fundamental para a democracia. Assembleias que escondem seus atos minam a confiança da população na política e nos representantes eleitos, alimentando o descrédito e a apatia política. O cidadão que não consegue acompanhar os gastos e as votações de sua assembleia tende a se sentir excluído do processo político, o que enfraquece a própria legitimidade das instituições. Rankings como o do UOL Confere funcionam como um "termômetro" da saúde democrática em cada unidade da federação.
Caminhos para a Melhoria dos Índices de Transparência
Especialistas em transparência pública apontam que a melhoria dos portais legislativos não depende apenas de investimento financeiro, mas principalmente de vontade política e gestão profissionalizada. Algumas medidas sugeridas incluem:
- Capacitação de Servidores: Treinar as equipes técnicas e administrativas para compreender e aplicar corretamente a LAI, mudando a cultura do sigilo para a cultura da publicidade.
- Adoção de Padrões Abertos: Utilizar formatos de dados que permitam a reutilização e o cruzamento de informações (CSV, JSON, XML) em vez de PDFs escaneados.
- Tecnologia da Informação: Investir em sistemas modernos de gestão pública que já nasçam com a preocupação de gerar dados transparentes e em tempo real.
- Participação Social: Criar conselhos ou comitês com a participação da sociedade civil para monitorar a qualidade dos dados publicados e sugerir prioridades.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O que é a Lei de Acesso à Informação (LAI)?
A Lei 12.527/2011 regulamenta o direito constitucional de acesso às informações públicas. Ela obriga os órgãos públicos a divulgarem informações de interesse geral (transparência ativa) e a atenderem pedidos específicos de cidadãos (transparência passiva), em um prazo determinado.
Como posso cobrar transparência da minha Assembleia Legislativa?
Você pode fazer um pedido de informação com base na LAI diretamente pelo site ou e-mail da assembleia. Se o pedido não for respondido no prazo, é possível recorrer à Controladoria-Geral da União (CGU) ou acionar o Ministério Público Estadual. Audiências públicas e canais de ouvidoria também são ferramentas importantes.
Por que a transparência no Legislativo é tão importante?
Porque o Legislativo é a instância que aprova o orçamento e fiscaliza o Executivo. Se a própria casa legislativa não é transparente, ela perde a autoridade moral para cobrar transparência de outros poderes. O cidadão precisa saber como o dinheiro público está sendo gasto dentro da própria assembleia para exercer o controle social.
O ranking de transparência é feito todos os anos?
Diversas organizações, como a Associação Contas Abertas, a Transparência Brasil e o Ministério Público Federal, realizam rankings periódicos sobre transparência pública. A periodicidade varia, mas a tendência é que o monitoramento se torne cada vez mais constante e rigoroso com o avanço das ferramentas digitais.
Em suma, o ranking que avaliou as Assembleias Legislativas brasileiras expõe uma realidade que precisa ser urgentemente mudada. A transparência não é um favor do gestor público, mas um direito do cidadão e um requisito essencial para o fortalecimento da democracia no Brasil. Apenas com informações claras, acessíveis e atualizadas o eleitor poderá fazer escolhas conscientes e cobrar a correta aplicação dos recursos que financiam todo o sistema público.