A Justiça do Trabalho de Minas Gerais determinou, na noite de sexta-feira (30 de junho), a suspensão imediata da greve dos enfermeiros de Belo Horizonte, que já durava cinco dias. A decisão liminar do desembargador plantonista do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região (TRT-MG) atendeu a um pedido da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), que alegou prejuízo à população e abuso no exercício do direito de greve. A paralisação, iniciada em 26 de junho, foi organizada pelo Sindicato dos Enfermeiros do Estado de Minas Gerais (SEEMG) e afetou diretamente o atendimento nas unidades básicas de saúde e UPAs da capital mineira.

Contexto da greve

A categoria dos enfermeiros de Belo Horizonte reivindica o cumprimento integral do piso salarial nacional da enfermagem, instituído pela Lei 14.434/2022, que estabelece o valor mínimo de R$ 4.750 para enfermeiros em todo o país. Segundo o sindicato, a PBH não efetuou o pagamento do novo piso de forma completa, o que motivou uma série de assembleias e negociações que se arrastaram por meses. Além do piso, os profissionais denunciam a defasagem salarial histórica, a sobrecarga de trabalho e a falta de insumos básicos, como luvas, seringas e medicamentos, nas unidades de saúde. "A categoria está no limite. Trabalhamos em condições precárias e ainda não recebemos o que a lei determina", afirmou a presidente do SEEMG.

A PBH, por sua vez, argumenta que vem realizando o pagamento do piso gradualmente, dentro das limitações orçamentárias do município, e que a greve foi deflagrada sem que todas as possibilidades de negociação tivessem sido esgotadas. A prefeitura também destacou que já havia concedido reajustes recentes e que a paralisação era desproporcional.

O que decidiu a Justiça

Na decisão, o desembargador plantonista destacou que, embora o direito de greve seja constitucional, ele não é absoluto, especialmente em atividades essenciais como a saúde. O magistrado apontou que o sindicato não apresentou um plano de contingência para garantir a manutenção de pelo menos 70% dos serviços durante a paralisação, conforme exige a Lei de Greve (7.783/89) para serviços essenciais. Dessa forma, considerou a greve abusiva e determinou o retorno imediato de 100% dos enfermeiros aos seus postos de trabalho, sob pena de multa de R$ 50 mil por dia de descumprimento, valor que pode ser majorado em caso de reincidência. "Não se pode privar a população de um serviço tão fundamental sem que haja um plano mínimo de funcionamento", escreveu o magistrado em sua decisão.

A liminar também determina que o sindicato se abstenha de realizar novos atos de paralisação relacionados aos mesmos motivos, sob pena de multa diária. O SEEMG já anunciou que irá recorrer ao Tribunal Pleno do TRT-MG e, se necessário, ao Tribunal Superior do Trabalho (TST). A entidade sindical alega que a greve foi legalmente convocada e que a Justiça não realizou uma audiência de conciliação prévia, o que seria obrigatório em dissídios coletivos que envolvem a administração pública.

Impacto no atendimento à população

Durante os dias de paralisação, unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e centros de saúde de várias regionais de Belo Horizonte operaram com equipes reduzidas, resultando em longas filas e superlotação. Na UPA Centro-Sul, pacientes relataram espera de mais de quatro horas para atendimento. A PBH informou que montou uma força-tarefa com médicos, técnicos de enfermagem e profissionais administrativos deslocados de outras unidades, mas reconheceu que o atendimento estava aquém do ideal. Consultas eletivas e exames foram adiados, e a orientação era procurar as unidades apenas em casos de urgência e emergência.

O Sindicato dos Enfermeiros, porém, rebateu a alegação da prefeitura, afirmando que a categoria manteve equipes mínimas em setores críticos como UTI, emergência e centros cirúrgicos. Segundo o SEEMG, a PBH utilizou o argumento da desassistência para obter a liminar, mas não apresentou dados concretos sobre o impacto da greve.

Reações e próximos passos

Após a decisão, a PBH emitiu nota afirmando que respeita a Justiça e que está aberta ao diálogo com a categoria, mas que não aceitará que a população seja refém de uma paralisação considerada ilegal. "Sempre estivemos dispostos a negociar, mas a greve não é o caminho", diz a nota.

Em contrapartida, o SEEMG divulgou comunicado informando que a greve foi legal e necessária e que a decisão judicial ignora os direitos dos trabalhadores. "Vamos recorrer e continuar lutando pelo nosso direito. Não podemos aceitar que uma decisão como essa passe por cima da categoria e da saúde da população", declarou um representante do sindicato.

O TRT-MG deverá analisar o recurso do sindicato nos próximos dias. Especialistas ouvidos pelo Astratu avaliam que, para reverter a liminar, o sindicato precisará demonstrar que a greve foi realizada dentro dos parâmetros legais, com a manutenção dos serviços essenciais e com a convocação de audiência de conciliação prévia. Caso a liminar seja mantida, a categoria poderá retomar as negociações com a PBH sob mediação do Ministério Público do Trabalho.

Principais pontos da greve dos enfermeiros de BH

  • Início da greve: 26 de junho de 2023
  • Categoria: Enfermeiros da rede municipal de Belo Horizonte, representados pelo SEEMG
  • Principal reivindicação: Cumprimento integral do piso salarial nacional da enfermagem (R$ 4.750), instituído pela Lei 14.434/2022
  • Outras demandas: Melhores condições de trabalho, reajuste do vale-alimentação, contratação de mais profissionais
  • Decisão judicial: Suspensão imediata da greve, considerada abusiva pelo TRT-MG, com multa de R$ 50 mil por dia de descumprimento
  • Posição da PBH: Alega prejuízo à população e defende que a greve foi desproporcional
  • Próximo passo: SEEMG vai recorrer da liminar; negociações devem ser retomadas com mediação

Perguntas frequentes sobre a greve dos enfermeiros de BH

Por que a Justiça suspendeu a greve?

A Justiça do Trabalho considerou a greve abusiva, pois o sindicato não garantiu a manutenção de serviços essenciais à população, conforme exige a Lei de Greve para atividades essenciais. A decisão foi liminar, atendendo a um pedido urgente da Prefeitura de Belo Horizonte.

Qual o valor da multa por descumprimento?

A multa estipulada pelo TRT-MG é de R$ 50 mil por dia de paralisação, caso a decisão judicial não seja cumprida.

O sindicato vai recorrer da decisão?

Sim, o Sindicato dos Enfermeiros de Minas Gerais (SEEMG) já informou que irá recorrer da liminar que suspendeu a greve, inicialmente ao TRT-MG e, se necessário, ao Tribunal Superior do Trabalho (TST).

O que a categoria dos enfermeiros está reivindicando?

A principal reivindicação é o pagamento integral do piso salarial nacional da enfermagem, de R$ 4.750 mensais, além de melhores condições de trabalho, reajuste do vale-alimentação e contratação de mais profissionais para reduzir a sobrecarga.

Quanto tempo durou a greve?

A greve começou no dia 26 de junho de 2023 e foi suspensa por decisão judicial no dia 30 de junho, totalizando cinco dias de paralisação.

A greve era legal?

A legalidade da greve é questionada. O sindicato afirma que cumpriu todos os requisitos legais, incluindo a notificação prévia ao empregador e à população. Já a Justiça entendeu que não houve garantia dos serviços essenciais, tornando a greve abusiva.