O Banco do Brasil pediu desculpas formais à população negra brasileira pelo seu papel histórico no tráfico de pessoas escravizadas e na exploração do trabalho escravo durante os períodos colonial e imperial. A cerimônia ocorreu em novembro de 2023, na sede da instituição, em Brasília, e contou com a presença de lideranças do movimento negro, historiadores e representantes do governo.
Fundado em 1808 por Dom João VI, o Banco do Brasil foi uma das principais instituições financeiras a financiar o tráfico negreiro no Brasil. Durante décadas, concedeu crédito a traficantes de escravos, administrou hipotecas de pessoas escravizadas e lucrou diretamente com a comercialização de seres humanos. Estima-se que, só no século XIX, o banco tenha financiado a vinda de centenas de milhares de africanos para o país.
O reconhecimento desse passado veio após um longo processo interno de revisão histórica. A diretoria do banco encomendou pesquisas a historiadores e criou um comitê de diversidade para avaliar o impacto das suas atividades na formação do racismo estrutural brasileiro. O resultado foi um relatório detalhado que serviu de base para o pedido público de perdão.
A presidente do Banco do Brasil, que proferiu o discurso principal, destacou que a instituição não pode apagar o passado, mas tem o dever de reconhecer os erros e contribuir para a reparação histórica. Ela classificou o pedido de desculpas como um passo necessário para “construir um futuro mais justo e igualitário para todos os brasileiros”.
Entre as medidas de reparação anunciadas estão: a criação de um memorial da memória negra na sede do banco; a concessão de bolsas de estudo integrais em cursos de tecnologia e finanças para estudantes negros; a implantação de cotas raciais em programas de trainee e estágio; e o financiamento de projetos culturais e educativos voltados para a valorização da cultura afro-brasileira. O banco também se comprometeu a destinar parte do seu orçamento de responsabilidade social para iniciativas em comunidades quilombolas e periferias.
Lideranças do movimento negro receberam o pedido de desculpas com cautela. Embora tenham reconhecido a importância simbólica do gesto, cobraram metas concretas e prazos para as promessas. “Não basta pedir perdão. É preciso mudar a estrutura”, afirmou uma das representantes presentes. A expectativa é que o banco publique relatórios anuais de acompanhamento das medidas.
O Banco do Brasil não é a primeira instituição financeira a se desculpar por seu envolvimento com a escravidão. Internacionalmente, bancos como o Deutsche Bank, o Bank of America e o Lloyds já fizeram gestos semelhantes. No Brasil, porém, é a primeira vez que um grande banco reconhece publicamente sua cumplicidade com o regime escravocrata.
O debate sobre reparação histórica tem ganhado força no país, especialmente nos últimos anos, com a criação de comissões da verdade em universidades e empresas. O pedido de desculpas do Banco do Brasil pode abrir precedente para que outras organizações revisem seus arquivos e se posicionem sobre o tema.
A repercussão na imprensa foi ampla. O portal Poder360, que originalmente divulgou a notícia em primeira mão, destacou o ineditismo do ato. A cerimônia foi transmitida ao vivo e gerou grande engajamento nas redes sociais, com opiniões divididas entre os que consideram o gesto suficiente e os que defendem ações mais profundas de reparação.