A Argentina realiza o segundo turno das eleições presidenciais neste domingo em um cenário de profunda crise econômica, com inflação anual acima de 140% e mais de 40% da população abaixo da linha da pobreza. Apesar do quadro desafiador, a economia argentina apresentou alguns sinais positivos nos meses anteriores ao pleito que podem dar fôlego ao próximo governo, seja de Sergio Massa (Unión por la Patria) ou Javier Milei (La Libertad Avanza).
1. O boom do gás e petróleo em Vaca Muerta
Vaca Muerta, a gigantesca formação de xisto na Patagônia, tornou-se a segunda maior reserva de gás não convencional do mundo e a quarta maior de petróleo. A produção de energia cresceu exponencialmente nos últimos anos, permitindo à Argentina não apenas reduzir sua dependência de importações de energia — um dreno histórico de dólares — mas também começar a exportar gás para países vizinhos, como Chile e Brasil, e petróleo para o mercado internacional.
O investimento em infraestrutura é outro ponto positivo. A construção do oleoduto Vaca Muerta Sur, que liga a formação ao porto de Punta Colorada, promete dobrar a capacidade de exportação nos próximos anos. Grandes empresas internacionais, como a malaia Petronas e a holandesa Shell, têm demonstrado interesse em expandir suas operações na região. A expectativa é que o setor de energia se torne a principal fonte de divisas do país, superando até mesmo o agronegócio, gerando uma receita vital de dólares para o governo.
2. A recuperação do setor agrícola após a seca histórica
A Argentina é um dos maiores exportadores mundiais de soja, milho e trigo. Em 2022/2023, uma seca histórica devastou as safras, causando perdas bilionárias e agravando a crise cambial. O PIB agropecuário encolheu mais de 20% no período, e o país deixou de exportar dezenas de bilhões de dólares.
Para a safra 2023/2024, as projeções indicam uma recuperação robusta. Com condições climáticas mais favoráveis — a previsão do fenômeno El Niño traz chuvas para as principais regiões agrícolas dos Pampas — a colheita deve ser significativamente maior. A Bolsa de Comercio de Rosário já projeta uma safra recorde de soja, podendo superar as 50 milhões de toneladas. Essa recuperação significa uma injeção de dólares no campo, aliviando as reservas do Banco Central e gerando receita para um dos setores mais produtivos da economia. Programas como o "dólar soja" e "dólar milho" incentivaram os produtores a liquidar suas colheitas, injetando recursos frescos no combate à crise cambial.
3. O acordo com o FMI e a renegociação da dívida
A Argentina tem um acordo vigente de US$ 44 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI), firmado em 2022, que substituiu o fracassado programa de 2018. Embora o programa de 30 meses seja impopular e exija metas fiscais e monetárias apertadas, a conclusão bem-sucedida das revisões técnicas garantiu desembolsos de recursos ao longo de 2023, ajudando o país a cumprir seus compromissos financeiros externos.
A sétima revisão do programa, aprovada no final de agosto, desembolsou US$ 7,5 bilhões, e a oitava revisão está em andamento. Para o próximo presidente, manter um canal de diálogo aberto e técnico com o FMI será crucial para evitar um default e para ter acesso a linhas de crédito de outros organismos internacionais. O cumprimento do acordo, mesmo com necessárias renegociações de metas diante do cenário eleitoral e da crise social, oferece uma base de previsibilidade macroeconômica que acalma os mercados e permite planejamento de longo prazo.
Quais são os principais desafios para o próximo presidente?
Apesar dos sinais positivos, os desafios são imensos e urgentes. Controlar a inflação, que já ultrapassa 140% ao ano, é a prioridade absoluta. Unificar o câmbio — atualmente com uma vasta brecha entre o dólar oficial e os paralelos (como o dólar blue) — e reduzir o déficit fiscal são medidas urgentes para estabilizar a economia. A elevada dívida em pesos atrelada à inflação e a falta de crédito externo também são gargalos que exigem um plano econômico crível e de longo prazo.
Perguntas frequentes sobre a economia argentina
O que é Vaca Muerta?
É uma formação geológica na Patagônia argentina que abriga uma das maiores reservas de gás e petróleo não convencionais (xisto) do mundo. Sua exploração transformou a matriz energética argentina.
Por que a safra agrícola é tão importante para a Argentina?
O agronegócio é o principal gerador de dólares do país através das exportações (soja, milho, trigo, carne). Uma safra ruim reduz drasticamente a entrada de divisas e pressiona as já combalidas reservas do Banco Central.
O que é o "dólar blue"?
É o nome popular dado ao dólar paralelo na Argentina. Como existem fortes controles cambiais, o dólar oficial é tabelado pelo governo, enquanto o "blue" é negociado livremente no mercado informal, refletindo a escassez de moeda estrangeira.
Milei promete acabar com o Banco Central. O acordo com o FMI permite isso?
Esta é uma das principais dúvidas dos mercados e dos economistas. Uma eventual dolarização da economia, proposta por Milei, ou o fim do BC argentino exigiria complexas renegociações legais e com o FMI, que é credor do país.
As eleições de 2023 na Argentina acontecem em uma encruzilhada econômica. As boas notícias — a revolução energética de Vaca Muerta, a recuperação agrícola pós-seca e a manutenção do acordo com o FMI — criam uma base, ainda que frágil, para a recuperação. Caberá ao próximo presidente saber capitalizar esses ventos positivos e implementar as reformas estruturais necessárias para colocar a Argentina de volta nos trilhos do crescimento sustentável, controlando a inflação e gerando emprego para uma população que anseia por estabilidade.
Fonte: BBC News Brasil